Num século tão conturbado como foi o século XIX, a evolução política de Portugal foi marcada por um conflito insanável entre o radicalismo e o liberalismo, conflito esse que o demoliberalismo europeu do século XX parcialmente resolveu sem, no entanto, erradicar por completo a tensão que ainda hoje em dia vem ao de cima nas nossas democracias liberais, onde se digladiam as forças à esquerda adeptas do estatismo, e as que ao centro pugnando por um Estado menos invasivo, reivindicando a liberdade individual, e portanto os direitos da iniciativa privada com o seu respectivo corolário, a meritocracia. O mundo conservador, aristocrático e rural, foi silenciado, só reaparecendo na política oficial e constitucional em Portugal na primeira metade do século XX. Nas últimas décadas do século XIX, o radicalismo revelou o seu fundo abertamente republicano, desentranhando-se do caldeirão liberal em que, por fraqueza, existira confundido com o liberalismo, sem porém abdicar do seu credo próprio, antimonárquico e antiaristocrático. O programa do radicalismo consistiu em republicanizar a monarquia: liquidar o privilégio aristocrático, eliminar a Câmara dos Pares, transformar o rei numa figura meramente decorativa, e, não menos importante revogar o artigo 6.º da Carta que determinava que o catolicismo fosse a religião oficial do Estado.
CRÍTICAS
«Os dois estudos que compõem este livro são contributos fundamentais para a compreensão do século XIX português, um tempo longo de constitucionalismo liberal, atravessado por diferentes dinâmicas, conjunturas e atores, cujos ecos chegaram à atualidade político-social portuguesa. Exemplificando com mestria as potencialidades explicativas e o alcance renovador da história como narrativa política, Maria de Fátima Bonifácio oferece ao leitor uma interpretação da monarquia constitucional como um processo quase interminável de querela entre a legitimidade da coroa e a legitimidade democrática, antes de particularizar como a célebre questão das «Irmãs de Caridade» (1858-1862) que iniciou em Portugal a ofensiva laicizante e potencialmente ateia, assim inscrita numa proto-história do republicanismo e feita motor mesmo de uma “republicanização da monarquia”, que haveria de dominar o debate público e a luta política até 1910.»
José Miguel Sardica Historiador, Universidade Católica Portuguesa
MARIA DE FÁTIMA OLIVEIRA DA SILVA BONIFÁCIO nasceu em Lisboa, a 16 de Agosto de 1948. Estudou no Colégio Alemão de Lisboa e Porto. Durante três anos frequentou a Universidade de Genebra. Licenciou-se em História na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1978) e doutorou-se na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (1990), onde também fez a agregação em 1998 e leccionou no Departamento de História entre 1980 e 2006. Em simultâneo com a carreira docente, fez a carreira de investigação no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL), onde é actualmente investigadora jubilada, desde 2012. Foi membro do conselho científico da Fundação Francisco Manuel dos Santos entre 2009 e 2013. Recebeu vários prémios pela sua obra historiográfica, de onde se destaca o Prémio Máxima de Ensaio (2010) e o Prémio Grémio Literário (2013). Foi colunista da revista Atlântico e colabora frequentemente na imprensa, nomeadamente no diário Público e no jornal on-line Observador.