Um dia, serei o que quero ser. Um dia, serei um pensamento que nenhuma espada nem livro carregará para a terra devastada. Um pensamento como chuva numa montanha fendida por uma folha de erva onde o poder não triunfará e a justiça não será fugaz. Um dia, serei o que quero ser. Um dia, serei um pássaro, e arrancarei o meu ser do nada.
Mahmoud Darwich (en arabe : محمود درويش), né le 13 mars 1941 à Al-Birwah en Galilée (Palestine sous mandat britannique) et mort le 9 août 2008 à Houston (Texas, États-Unis), est une des figures de proue de la poésie palestinienne. Profondément engagé dans la lutte de son peuple, il n'a pour autant jamais cessé d'espérer la paix et sa renommée dépasse largement les frontières de son pays. Il est le président de l'Union des écrivains palestiniens. Il a publié plus de vingt volumes de poésie, sept livres en prose et a été rédacteur de plusieurs publications, comme Al-jadid - (الجديد - Le nouveau), Al-fajr (الفجر - L'aube), Shu'un filistiniyya (شؤون فلسطينية - Affaires palestiniennes) et Al-Karmel (الكرمل) . Il est reconnu internationalement pour sa poésie qui se concentre sur sa nostalgie de la patrie perdue. Ses œuvres lui ont valu de multiples récompenses et il a été publié dans au moins vingt-deux langues. Dans les années 1960, Darwich a rejoint le Parti communiste d'Israël, le Rakah, mais il est plus connu pour son engagement au sein de l'Organisation de libération de la Palestine (OLP). Élu membre du comité exécutif de l'OLP en 1987, il quitte l'organisation en 1993 pour protester contre les accords d'Oslo. Après plus de trente ans de vie en exil, il peut rentrer sous conditions en Palestine, où il s'installe à Ramallah. (Son oeuvre est traduite en anglais sous l'orthographe Mahmoud Darwish.)
OS SONHADORES TRANSITAM DE UM CÉU PARA OUTRO (...) A borboleta é água que anseia voar. Liberta-se do suor das raparigas e transfigura-se em nuvem de memória. A borboleta é aquilo que o poema não diz Tão delicadamente despedaça as palavras, como o sonho despedaça os sonhadores... (...)
THE DREAMERS PASS FROM ONE SKY TO ANOTHER (...) The butterfly is water longing to fly. It filters from the sweat of young girls and grows into a cloud of memory. The butterfly is what the poem doesn’t say. Her very lightness breaks words, as dreams break dreamers. (...)
Mahmoud Darwich (1941-2008), que viveu todas as convulsões por que passou o povo palestiniano após o fim do Mandato Britânico na região, desde a guerra ao exílio, é ainda hoje proibido de ser ensinado nas escolas árabes sob alçada dos israelitas. Muito poderia dizer sobre a barbárie do Estado de Israel nos territórios ocupados, mas neste caso é a poesia, sempre mais eloquente, que falará por mim.
QUATRO MORADAS PESSOAIS 1. Um metro quadrado de prisão (...) Escrevi também vinte poemas de insulto ao lugar onde não temos lugar. A minha liberdade: ser o que não querem que eu seja. A minha liberdade: ampliar a minha cela, para continuar a minha canção da porta. Uma porta é uma porta, todavia posso sair no meu interior, etecétera, etcétera. (...
FOUR PERSONAL ADDRESSES 1. One square meter of prison. (...) I also wrote twenty satiric poems about the place in which we have no place. My freedom is not to be as they want me to be, but to enlarge my prison cell, and carry on my song of the door. A door is a door, yet I can walk out within me, and so on and so forth. (...)
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MURAL (...) Um dia, serei o que quero ser. Um dia, serei um pensamento que nenhuma espada nem livro carregará para a terra devastada. Um pensamento como chuva numa montanha fendida por uma folha de erva onde o poder não triunfará e a justiça não será fugaz.
Um dia, serei o que quero ser. Um dia, serei um pássaro, e arrancarei o meu ser do nada. (...)
MURAL (...) One day, I will be a thought that no sword nor any book will bear to the wasteland. A thought like rain on a mountain opened by a blade of grass. There will be no victor, neither might nor justice, that fugitive! One day, I will be what I want to be. One day, I will be a bird, and will snatch my being out of my nothingness. (...)
mohmoud darwich foi-me sugerido quer por quem o leu na sua tradução portuguesa quer na sua versão original, em árabe. talvez por ser considerado um dos maiores poetas árabes contemporâneos e símbolo da resistência palestiniana, continue a ser uma referência quando falamos em autores palestinianos e/ou de língua árabe, ou até mesmo uma referência universal na luta pela liberdade e justiça.
sabem da minha dificuldade com a poesia, e na importância, para mim, do papel que uma tradução direta pode ter na nossa experiência de leitura, na impossibilidade de se ler no original. admito que ler a poesia de darwich não foi das leituras mais fáceis, porque nem sempre a entendi na íntegra. as palavras são camufladas num bonito e intrincado trabalho de linguagem poética de metáforas, imagens, paradoxos, simbologia e referências culturais. mas penso ser inevitável achar a sua escrita belíssima e tocante.
os seus poemas falam-nos de identidade, de exílio, liberdade e dignidade, resistência. há uma constante ligação entre passado e presente, entre o que foi perdido e o que permanece. darwich revela-nos o seu amor a um povo e uma terra – palestina – e a esperança do retorno.
quando nos distanciamos da temática que mais marca a sua poesia, temos a sensação de estar a ler sobre uma história de amor e amizade, mas a experiência palestiniana surge em forma de metáfora, sugerindo uma ligação entre palestina e israel, mulher e homem – possíveis amigos –, que não foram suficiente juntos.
“estarmos juntos não foi suficiente para que estivéssemos juntos.”
“precisamos voltar a ser dois, para podermos continuar a abraçar-nos.”
senti a poesia de darwich como intemporal e de enorme relevância para o momento que vivemos. portanto, não hesitem em explorar a sua poesia, nem que seja para fazermos um pouco mais parte desta luta.
“… Não há «soluções colectivas» para assuntos pessoais. Estarmos juntos não foi suficiente para que estivéssemos juntos. Faltou-nos um presente para vermos onde estávamos, uma mulher livre e um amigo mais velho. Partamos juntos em duas direcções. Partamos juntos e sejamos bondosos. …”
Dos meus poetas favoritos de sempre, Mahmoud Darwich foi um poeta e escritor palestiniano,dos maiores poetas árabes da atualidade,os seus livros trazem maioritariamente temas como o exílio, resistência, identidade e muito mais. Esta obra é marcada pela experiência palestina, do exílio e da perda do seu país, de identidade, memória e resistência cultural,do seu amor pela terra e pelo povo palestino também fala da condição humana universal através da experiência particular. A poesia de Darwich é linda, e única, ele combina lirismo com consciência política. Este livro tem poemas tristíssimos porém reais.
«Um dia, serei o que quero ser. Um dia, serei um pensamento que nenhuma espada nem livro carregará para a terra devastada. Um pensamento como chuva numa montanha fendida por uma folha de erva onde o poder não trinfará e a justiça não será fugaz. Um dia, serei o que quero ser. Um dia, serei um pássaro, e arrancarei o meu ser do nada.»