O mundo está cheio de velhos. Dos que já o são e dos que o seremos um dia. E nós aqui andamos fazendo de conta que ali, do outro lado do muro, a velhice não nos espreita enquanto se esforça por driblar a morte. Mas sabem o que é que nos rebenta de verdade? A certeza de que a mesma velhice que repudiamos é a nossa maior esperança. A certeza de que a pele de agora, mais ou menos lisa, gritará vitória se chegar a ser marcada pelas rugas que não são mais do que linhas do tempo. Do que já vivemos e do que nos resta.
Através de personagens ficcionadas, como a Margarida, o Custódio, a Maria do Rosário ou o Zezinho, e à luz da sua experiência em lares, Carmen Garcia escreve sobre velhos, que são os nossos, ou que um dia, se tivermos sorte, seremos nós, com um amor, uma ternura e uma crueza que por vezes nos choca, nos enternece e que nos obriga a pensar no fim da vida e na forma como tratamos e pensamos os nossos velhos.
Um livro que prende do princípio ao fim, pelo relato sincero e honesto, visto pelos olhos de uma enfermeira, que embora jovem, revela uma grande maturidade e uma paixão num assunto vital e tão menosprezado em Portugal.
Nasceu em Évora no dia mais quente do ano de 1986. Quando era miúda dizia que queria ser professora de ballet e que não queria ter filhos. Depois cresceu, mudou de ideias, licenciou-se em enfermagem e teve dois filhos em dois anos. Criou a página “a mãe imperfeita” por sentir que era preciso falar abertamente sobre o lado menos romântico da maternidade. E entre fraldas, papas e peças de Lego é isso que vai fazendo. Ou pelo menos tentando.
Quando iniciei a leitura achei que este livro ia ser um 5 estrelas, só não o é porque no final não fiquei com uma sensação estranha no peito. Sim, às vezes avalio os livros dessa forma pouco racional. Está muito bem escrito, como não poderia deixar de ser, pois já conheço a escrita da autora da sua página de facebook e do blogue A mãe imperfeita. Traz-nos histórias de idosos com quem a Carmen travou conhecimento nas ERPI (Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas), um nome pomposo para lar de terceira idade, em que trabalhou como enfermeira. Algumas deixaram-me completamente arrasada e em lágrimas, outras fizeram-me esboçar um sorriso e até ficar feliz por aquelas pessoas, mas são relatos duros, apaziguados pela escrita suave, mas sem salamaleques, da Carminha, como alguns idosos a tratavam. Também aborda a maneira como muitos velhos, sim, é este o termo, são tratados nestes sítios, muitas vezes por falta de formação de quem com eles lida, o abandono a que alguns são deixados pelos seus familiares e que os faz morrer de tristeza, a infantilização - os velhos não são crianças! As dificuldades de tratar de um velho com demência, ou de um velho com deficiência cognitiva, ou até de um velho que ainda não perdeu, nem tem de perder, a ideia do sexo. É inevitável ler este livro e não pensar na nossa própria velhice e mais, no nosso fim neste planeta. Um assunto que muitos arrumam bem no fundo de uma gaveta, algo que eu nem sempre consigo fazer. Foi uma boa leitura e, apesar das lágrimas, quis sempre continuar a ler e conhecer aquelas histórias.
"Em Portugal, é uma merda ser-se velho. O nosso país não está preparado para honrar quem o antecedeu, os nossos lares continuam parados no tempo e presos a um conceito que não dignifica os seus utentes e, desgraçadamente, vejo pouco interesse em mudar práticas que são pouco mais do que uma abominação. (...) Não existem lares perfeitos. Mas existem muitas coisas que podem ser mudadas. E o primeiro passo para que isso aconteça é mudar a forma como olhamos para a velhice. É que, não me lixem, a maioria de nós não gosta de ser confrontada com a velhice porque isso estraga a narrativa mental da eterna juventude que tanto gostamos de alimentar e acaba por confrontar-nos com a nossa própria mortalidade. Então, fingimos que não percebemos e agimos como se não fosse nada connosco. Mas é."
“A velhice, aquela da qual todos fugimos, mas à qual todos desejamos chegar, pode ser boa se nela existirem amor e respeito. A velhice só é negra quando profundamente marcada pela solidão.”
Conduzido pela experiência da autora em lares de terceira idade, este livro, composto por pequenas histórias, faz-nos refletir sobre o tema da velhice. Relatos emocionantes, ora pela fragilidade da situação mais atual de cada idoso, ora pelo percurso de vida levado antes de serem resgatados a viver num lar que nunca foi ou será o deles. Como filhos e futuros idosos, esta é uma leitura que nos faz considerar sobre a forma como se pode ser tratado no último quartel da vida. A recomendar!
Ouvi falar bem deste livro. Os temas que lhe dão sustento têm por base a solidão e a velhice. Ambos caminham, a maior parte das vezes, em sintonia, como se um tivesse de se apoiar no outro para serem... infelizes.
Sinto sempre que ser velhinho, aqui em Portugal, é estar só, muitas vezes rodeado de gente desconhecida. Tanto para contar/ouvir, tanta experiência desperdiçada! E quando à velhice e à solidão se junta a doença, o panorama não é bonito.
É isto que nos espera, no fim de vida?
Bom, o que este livro faz é mostrar-nos histórias de quem se encontra em situações semelhantes e de quem os rodeia.
Carmen Garcia deve ser dona de um coração enorme. Carmen é enfermeira e tem trabalhado em lares de terceira idade, pelo que, o que conta neste livro são experiências suas. Muito bem escrito, de forma clara e realista, mas também forma muito humana e empática.
Através das histórias da Margarida, do Custódio, da Maria do Rosário, da Antónia, do João, da Rosa, do Ildo, do Martinho, da Emília, do Zezinho, da Olímpia, do Rui, da Vitória e de outros Chicos, são levantadas questões e apresentadas algumas soluções para que a forma como tratamos os nossos velhos possa vir a mudar.
Este livro é tão importante! E não é fácil escrever sobre ele. Chorei e sorri, muitas vezes em simultâneo, e fiquei com um aperto no coração depois de o ler. Seja eu capaz de pôr em prática tudo o que é aqui transmitido.
Um livro muito bem escrito e que nos faz refletir verdadeiramente sobre como se tratam os velhos em Portugal. É um livro muito triste, mas não deixa de ter momentos belos, de pessoas como a Carmen que realmente querem fazer a diferença na vida destas pessoas, que muitas vezes são depositadas em lares e instituições, e votadas ao abandono e solidão, sem qualquer apreço.
Leitura obrigatória! Adorei! Emocionou-me profundamente esta descrição crua da realidade e que é importante ser lida para que consigamos agir nem que seja com aqueles que nos rodeiam.
Portugal é hoje o país da União Europeia onde o índice de envelhecimento mais tem crescido. E Carmen Garcia conhece muito bem a realidade dos "nossos" velhos, uma vez que trabalha como enfermeira em estruturas residenciais para idosos. As histórias de abuso e abandono são reais e difíceis de suportar, mas também existem histórias alegres. Neste livro, a autora conta-nos algumas dessas histórias.
Percebe-se a sensibilidade e o profissionalismo da enfermeira Carmen ao longo de todo o livro, mas sempre com um olhar muito cru sobre a realidade e é dessa forma que nos conta as histórias da D. Margarida, do Sr. Custódio, da D. Antónia, do Sr. João e muitos outros, para que deixem de ser invisíveis. Logo no início da carreira profissional, a enfermeira percebeu que sabia tudo sobre lares ideais, mas nada sobre os reais e como diz a certo ponto, "os lares têm momentos felizes, mas, na maior parte do tempo, são lugares que a tristeza escolheu para morar."
Fala-nos da infantilização, da despersonalização e da invisibilidade da população idosa, da importância da valorização da saúde mental do idoso, da cruel demência que mata a alma antes do corpo, da sexualidade e do afecto na terceira idade que muitos tentamos ignorar, sobre a importância de nunca julgar antes de ouvir o outro lado, e finalmente no último capítulo sobre as histórias de abuso e abandono que a "adoecem até à alma". Fala sobre a ingratidão e do quanto "nós, enquanto sociedade, somos uns ingratos para os nossos mais velhos."
Adorei este livro! Não estava mesmo nada à espera de gostar tanto. Este livro conta nos uma série de histórias de idosos que foram pacientes desta autora nos lares em que ela esteve. Algumas histórias colocam nos um sorriso no rosto, outras deixam nos de coração bem apertadinho, mas acima de tudo são histórias que devem ser lidas. Um livro que nos faz reflectir na vida e de como tratamos os nossos mais próximos. Recomendo vivamente!
Senti arrepios ler as histórias deste livro, as vidas deste livro. Tantas verdades juntas. Tanto que tem de mudar. Tanto a agradecer aos nossos velhos.
Mas sabem o que nos rebenta de verdade? A certeza de que a mesma velhice que repudiamos é a nossa maior esperança. A certeza de que a pele de agora, mais ou menos lisa, gritará vitória se chegar a ser marcada pelas rugas que não são mais do que linhas do tempo. Do que já vivemos e do que nos resta
Carmen Garcia, enfermeira e autora do blog "mãe imperfeita" traz-nos as histórias de Margarida, Custódio, Maria do Rosário, Rosa, Ildo, Martinho, Emília, Zezinho, Olímpia...através da sua experiência profissional e pessoal a lidar com o envelhecimento e como estão a ser tratados os nossos idosos.
Este é um livro que considero necessário para dar a conhecer uma realidade que trata com seres humanos fragilizados, doentes e sós. Seres humanos que precisam de voz, dignidade e respeito.
Um livro onde há lugar a momentos de ternura, em que me emocionei, sorri, muitas outras situações difíceis, aprendizagem para corresponder ao que de melhor se pode fazer e não fazer, de acordo com as circunstâncias de cada vida. Acima de tudo, senti na autora dedicação, sensibilidade e uma grande vontade em ver o outro.
Um retrato real e muito duro do que são os lares em Portugal, narrado por quem neles trabalhou. O alheamento de quem lá está, o abandono por quem está fora, pessoas que gostam de lá viver, pessoas que nem sabem que lá vivem. Uma realidade que todos deveríamos conhecer porque muito provavelmente passaremos por ela, diretamente ou através dos nossos.
"A última solidão" conta várias histórias sobre velhos. Histórias que me levaram do riso às lágrimas várias vezes. Estes velhos são alguns dos velhos da Carmen Garcia, enfermeira com uma vasta experiência a trabalhar em Estruturas Residenciais Para Idosos (vulgarmente conhecidas por lares). Fala de abandono, morte, mas também de amor, carinho e cuidado. E põe o dedo na ferida em relação a vários carências e problemas da nossa sociedade e na forma como esta encara os idosos. Trazia grandes expectativas em ralação a este livro. Já "conheço" a Carmen e as suas ideias em relação à velhice há muito tempo. Já tive a oportunidade de a ouvir falar e já tenho o hábito de ler o que vai partilhando na sua página @mae.imperfeita. É realmente uma colega que admiro muito. Que me faz ter orgulho em ser enfermeira. Que valoriza verdadeiramente a nossa classe com os seus conhecimentos, os cuidados que presta e a forma assertiva como consegue comunicar com os outros e expressar o seu ponto de vista. É por existirem pessoas como a Carmen que há esperança num futuro melhor. As minhas expectativas não saíram nada defraudadas. Leiam! É muito bom!
Um livro muitíssimo duro, mas necessário. É fácil olharmos para a velhice como algo longínquo, algo que não nos afeta diariamente e que nada tem haver connosco. Mas a verdade é que a forma como tratamos (d)os nossos idosos é uma responsabilidade de todos: não só porque para lá caminhamos, mas também porque temos o dever de cuidar de quem sempre cuidou de nós.
Um livro pequenino que se lê num ápice, no entanto, de pequeno nada tem estas vidas que aqui são contadas. Através das palavras da autora, somos levados a conhecer as histórias de várias pessoas com quem a autora se cruzou no seu trabalho. Precisamos de mais Carmens nesta vida, que não tem papas na língua, que gostam do que fazem e que principalmente sabem como devem falar. Terminei o livro mas queria mais. Queria mais histórias de velhos do nosso país que tanto tem para nos contar e ensinar.
É certo que um livro como este nos toca na medida das nossas vivências. Nas minhas circunstâncias, pondei muito a leitura. Ainda bem que o fiz. E sim! Recomendo a leitura.
'A velhice, aquela da qual todos fugimos, mas à qual todos desejamos chegar, pode ser boa se nela existirem amor e respeito. A velhice só é negra quando profundamente marcada pela solidão.'
(livro de empréstimo da Biblioteca Municipal de Coimbra)
Este livro deveria ser de leitura obrigatória durante o ensino secundário. A temática afecta a todos, é de natura humana, empática. As relações humanas e a sua evolução é um tema que diz respeito a todos e sortudos são os que conseguem chegar à fase de vida em que podem ser velhos. Mas que cuidados têm (teremos!!!!) quando chega essa altura?! Um livro para ler, reflectir, ponderar… e para voltar, sempre que for preciso relembrar que a vida tem várias fases, e algumas são mais especiais que outras.
Revi os nove anos em que trabalhei num lar em todas as páginas. Está dentro do género do livro que escrevi com o Ângelo e com a Maria Inês, “Antes de morrer quero…”, e por isso é especial para mim. Penso que quem trabalha em lares ou com pessoas mais velhas vai ver muitas das suas histórias neste livro e tudo o que inquieta a Carmen será com certeza o que tira também o sono a esses profissionais. Pelo menos tirou (e ainda tira…) o meu durante muitas noites…
O livro é de leitura fácil e rápida, mas não é por isso menos impactante. Recomendo.
Mais do que contar histórias de pessoas no final da sua vida, conta histórias de pessoas reais, que normalmente evitamos ouvir por acharmos que nada tem para nos ensinar. Simplesmente muito bem escrito, um abre olhos, uma leitura obrigatória. Obrigado Carmen por isto.
"o grau de evolução de uma sociedade também se avalia pela a forma como trata os seus mais frágeis. E uma sociedade que não luta pelos os direitos de quem já perdeu as forças para lutar não merece muito mais que nada."
Composto por 12 capítulo que levam os nomes de vários utentes que passaram pela vida profissional mas também emocional da autora, este livro fala-nos da velhice em Portugal e, mais concretamente, das pessoas institucionalizadas. Numa abordagem direta mas terna são questionados os lares, os cuidadores, a nossa forma de lidar com os mais velhos. A provocar muita reflexão e emoção.
Enquanto pessoa que trabalhou num lar durante quatro anos, este livro é um relato fiel dos nossos lares em Portugal, dos desafios e do que podemos fazer pelo nossos idosos (quando há ainda tanto a fazer). Emocionei-me e ri. Li de uma vez e vou recomendar a tantas pessoas quanto puder. Brilhante.
Um 4,5. Recomendo muito este livro. Para refletir muito ou simplesmente para conhecer as histórias de varios idosos pela voz de uma enfermeira que todos nós gostariamos de encontrar no final da vida. Histórias de tristeza e solidão mas também de grande beleza e amor, muito bem contadas. Como está dito no prefácio nunca ninguem falou assim de velhos. Leiam, leiam.