Quem acreditaria, ao ver-me, que alimento o gosto pelas blasfémias secretas?
Alice Rivaz (1901-1998) foi uma escritora suíça que tem não só uma rua com o seu nome, como é costume, mas também uma escola para adultos e, curiosamente, um comboio intercidades. Gosto, quero.
Feminista e filha de pais com uma forte consciência social, só viria a ser cidadã de primeira categoria em 1971, quando 66% da população aprovou o sufrágio universal, portanto, com ainda 34% da população a opor-se já o século XX ia na sua recta final, e depois de, em 1959, um referendo o ter reprovado com 67% dos votos. De lembrar que o primeiro país europeu a conceder o voto às mulheres foi a Finlândia em 1906, Portugal (apesar de algumas excepções anteriores) fê-lo em 1976, nas primeiras eleições livres, e o cantão suíço de Appenzell Innerrhoden foi o último reduto até 1991. Os motivos para esta resistência? Um espírito conservador aliado ao lema “Mulher na política é contra a ordem divina”, o receio de que as mulheres envolvidas na política descurassem o seu papel de mães.
Foi neste ambiente patriarcal e retrógrada que, em 1947, Rivaz publica “A Paz das Colmeias”, escrito ainda sob o espectro de uma nova guerra mundial, após o eclodir da Guerra Civil espanhola.
Os seus cantos, os seus clamores que se elevam por um sim, por um não, às vezes por menos ainda. A sua urgência de responder a esse apelo misterioso que os aglutina. Camaradagem da aventura, das feridas, dos hinos, dos juramentos. E, em cada geração, os mais inteligentes entre eles ocupam-se a dar um nome, vários nomes, à carnificina, para assim a explicarem e justificarem. Às vezes pergunto-me: que temos nós que ver com semelhantes loucos?
É durante a ausência do marido, que cumpre parte do serviço militar, que Jeanne inicia este seu diário que, tal como a protagonista de “Caderno Proibido” de Alba de Céspedes, esconde no armário da roupa, para evitar perguntas e observações constrangedoras.
- Lê-me essa obra-prima… Sou todo ouvidos.
Imaginei o que aconteceria se, em vez de mim, fosse ele que me confessasse que escrevia “para si”… Como me teria mostrado atenta, respeitadora do seu trabalho! Nunca me passaria pela cabeça troçar dele.
É nesse caderno que escrutina o seu casamento em crise…
Dia após dia, fui, como sempre, acumulando censuras e queixas que não formulava, ou exprimia imperfeitamente através de esboços de frases nunca acabadas. (…) Mesmo que a nossa língua continue paralisada, há todo um movimento dentro de nós que se exprime sem recorrer a palavras. É o nosso passo que se torna arrastado; a nossa voz, mais cortante e aguda; os nossos olhares, mais severos.
…se interroga sobre a devastação do tempo sobre o seu corpo…
Chamarei, então, um outro, um novo amor? Agora que já não sou quem era? Que não fiz tudo o que julgava poder fazer? Mesmo essa beleza que me atribuíam, e à qual não costumava dar nenhuma importância, agora que começo a perdê-la, surpreendo-me a levá-la a sério, a tremer a vê-la desaparecer em breve.
…questiona arrojadamente o desejo sexual feminino dentro e fora do casamento…
Pensa que este tipo de satisfação lhe é devida, por direito, pura e simplesmente. E o que me deixa estupefacta é que ele se contente com esses estranhos hábitos de animais domésticos. Que não sinta nenhum desejo de acender, ou até de reacender, em mim alguma atracção por ele, que imagine que me vou entregar a ele só porque é meu marido, acho tudo isso assombroso. E as pessoas ainda se espantam por as mulheres terem amantes!
…põe em causa a desigualdade de género…
Aquilo de que não gostamos é de injustiça. Aquilo que nos revolta é nunca termos momentos de ócio, e isso por causa dele, que se diz mais forte do que nós, e finge amar-nos, querer proteger-nos! Aquilo de que não gostamos é dessa falta de solidariedade entre eles e nós, dessa incorrecção primordial na distribuição das tarefas quotidianas entre eles e nós.
…destabilizando a representação tradicional da mulher.
É assim que surge a imagem da colmeia, o verdadeiro sistema matriarcal, a alternativa subversiva ao carácter belicoso inerente à masculinidade tóxica.
Será necessário encontrar o meio de neutralizar a nocividade assassina do homem adulto, pois esta corre o risco de um dia transformar a Terra inteira num deserto calcinado (…). A sociedade das abelhas é muito mais antiga e evoluída do que a dos homens. (…) Quem sabe se uma das condições desse estado de perfeição não foi pôr fora de jogo, através de um método deliberado e concertado, os machos amotinadores.