“Chiquinho”, de Baltasar Lopes, percorre uma linha narrativa entre o final da infância e adolescência da personagem principal no Cabo Verde da primeira metade do século XX. Entre o Caleijão, na ilha de São Nicolau, a vida em São Vicente (para continuar os estudos por mais dois anos) e o regresso a São Nicolau, vamos percebendo a evolução da personagem principal: os contos da infância, as personagens com quem interagia, as brincadeiras, as preocupações e, invariavelmente, a pobreza e a miséria. A dada altura, o destino de quase todos é a enxada; outros podem estudar mais um par de anos fora e alguns acalentar a esperança (nem sempre concretizada, por receio e, afinal, falta de vontade, por falta de possibilidade ou até de saúde ou de saudade) de se tornarem marinheiros ou ir para a América. São os familiares destes últimos que acabam por ter uma vida menos dura, com o apoio monetário que vem de fora.
Em São Vicente, Chiquinho continua os estudos, descobre novos amigos, projetos, o amor e mais miséria que leva amigos, por esta encontrar a fome (literal) aliada a más condições de salubridade que, todavia, na maior parte dos casos, ainda mantém a honra que não permite furtar ou a situação envergonhada que se inibe de solicitar ajuda, apesar de, como se diz a dado trecho, a pobreza impelir à união. Observa ainda os homens que desejam “grogue” (aguardente), que se servem das mulheres para sua satisfação sexual, incluindo um que não só deseja servir-se como pretende ficar-lhe com o dinheiro angariado por esta…
Apesar disso, há uma esperança: não obstante a diminuição do movimento no porto, a união e os protestos podem fazer diferença. E é chegado um novo Governador. Será que muda?
O regresso a Caleijão, com as mudanças operadas em Chiquinho por São Vicente e pelas perceções dos outros fazem o corte com os momentos da infância: Chiquinho é letrado, por ter concluído o liceu, não é para enxada (mas não há outro trabalho) e é tratado já com respeito, na terceira pessoa. Entre deambulações, receios de se tornar no que outros assim se tornam (adictos no “grogue” e nas mulheres de filhos, algumas vindas do exótico Dakar) é colocado como professor num maior fim do mundo, onde, aí mais do que noutro local, os seus estudantes, apesar do esforço do querer aprender que motiva caminhadas de quilómetros diários entre casa e a escola, tombam como tordos. A miséria apura-se. Pior: vem acompanhada de seca terrível que deixa as culturas aos gafanhotos e ainda mais fome às pessoas.
A América surge como possibilidade, terra de sonhos e de oportunidades que deixa Cabo Verde manietada.
Neste caminho (entre São Nicolau, São Vicente e regresso a São Nicolau), conhecemos diferentes personagens. A descrição não é intensa, mas conseguimos descobrir defeitos e virtudes, atentamos num retrato que era para mim desconhecido e temos passagens com reflexões deveras interessantes e preocupações de um povo que, apesar das difíceis condições, luta com esperança e em esperança em “Nossenhor”.