Um quadro mítico da história da arte francesa ganha uma análise inédita a partir do resgate da história de sua modelo e de uma perspectiva renovada da diáspora africana na época da escravidão.
No quadro pintado em 1800 por Marie-Guillemine Benoist, então uma artista parisiense de 38 anos, uma jovem negra exibe uma pose ao mesmo tempo altiva e serena. A maneira como a bela africana é representada procede de uma construção revolucionária, tanto do ponto de vista artístico quanto do histórico. A obra mudaria de nome algumas vezes, acompanhando mudanças de perspectiva da própria história da arte, até que Madeleine, a modelo, aparece como protagonista de uma historiografia renovada pelas questões da África diaspórica na época do tráfico atlântico. É essa a história que Anne Lafont quer contar.
“Exposta no Louvre em 1800, a obra foi objeto de inúmeros comentários publicados em libelos e jornais da época. Logo, ainda seria possível acrescentar mais uma pedra ao seu edifício interpretativo, uma pedra colonial. É o que me proponho a fazer neste livro”, afirma a autora, que reuniu uma série de obras internacionais e brasileiras, de diferentes períodos, para debater o tema.
A edição é toda impressa em cores.
“Uma jovem negra, de pele marrom delicadamente realçada por sombras escuras, está elegantemente sentada numa poltrona estofada em tecido verde, sobre a qual repousa um xale azul. Ela tem uma aparência doce, contrastando com um pescoço altivo e um corpo vigoroso, de musculatura finamente definida. Ela sustenta a pose e ocupa seu lugar num momento da história em que a capacidade de ostentar uma postura digna e reta não era uma situação fácil para as mulheres negras de Paris.”- Anne Lafont
Leitura rapidíssima que discorre sobre o quadro Retrato Presumido de Madeleine que ganhou o foco da cultura pop desde que apareceu no videoclipe da Beyoncé e Jay Z para Apeshit no Louvre. Pequenino, mas muito interessante porque trabalha as questões antropológicas da arte retratando a posição da negritude no século XIX.
Uma verdadeira aula de história de arte, abrindo novas possibilidades de interpretação de um quadro icônico do Museu do Louvre que já até apareceu num clipe de Beyoncé. Livraço para quem é rato de museu ou tá interessado no tema decolonial e da diáspora africana. Vou tirar meia estrela pelos erros de revisão, puxão de orelha na editora bazardotempo.
Qui est cette femme représentée sur le fameux Portrait d'une femme noire réalisé en 1800 par Marie-Guilhemine Benoist (1768-1826)? Qui se cache derrière cette présence en gloire presque qui s'impose par sa beauté souveraine sur ce tableau pourtant réalisé par une peintre dont l'engagement politique en fait bien une partisane des royalistes esclavagistes plus que d'un Girodet républicain, son prédécesseur qui, avant elle, avait réalisé le portrait de Jean-Baptiste Belley, premier député noir de France ? C'est en opérant un déplacement radical du point de vue et de la méthode qu'Anne Lafont, en historienne de l'art spécialisée dans la représentation des Noir. e. s, , propose une nouvelle "lecture" de ce tableau. Se détournant des intentions de son auteur, sondant à la fois la généalogie des portraits de personnes de couleurs et l'histoire des femmes noires affranchies, Anne Lafont fait l'hypothèse que l'histoire de cette femme pourrait s'apparenter à celles des signares et ou des Créoles placées, esclaves qui ont conquis leur affranchissement par des jeux d'alliance ; elle imagine, par ailleurs, au-delà de toutes les influences de l'histoire de l'art, une influence exercée par la modèle elle-même sur sa portraitiste.
Anne Lafont é historiadora da arte francesa, pesquisadora e professora na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), em Paris. Trabalhou como diretora dos programas de pesquisa de historiografia da arte no Institute National d’Histoire de l’Art e como editora da revista Perspective. Integrou o comitê curatorial da exposição Le modèle noir – de Gericault à Matisse, no Musée d’Orsay, em 2019, e é autora de livros sobre história da arte. Uma africana no Louvre trata-se da adaptação de uma conferência ministrada no Instituto Warburg, Londres, em 2018. Pequeno e fluido, o estudo traz a análise de uma obra exposta no museu desde o ano de 1800, pintada por Marie-Guillemine Benoist (1768-1826), aluna de Élisabeth Vigèe Le Brun e de Jacques-Louis David. Esse curtinho e adorável livro explica quem é a bela mulher representada na obra, bem como sua mudança de nome por algumas vezes, acompanhando mudanças de perspecitva da história da arte. Também encontra-se presente na obra a relação entre a artista e a modelo, com breves apontamentos sobre cada uma delas, o papel social de ambas daquele contexto histórico e a estrutura social do período. Um belíssimo estudo, que nos faz viajar por essa obra tão importante.
Interessante a análise que a autora faz da obra a partir de mobilidades teóricas e geográficas. Com certeza acrescenta camadas de interpretações e enriquece a experiência do olhar. A entrevista da autora conduzida por Amanda Carneiro no final do livro fecha bem esse pequeno livro.
Eu sempre fico muito fascinada quando eu vejo pessoas analisando obras de arte, tanto em contexto histórico como em subjetivo, e não foi diferente com esse livro. Eu gostei muito da abordagem da Anne Lafont frente ao retrato presumido de Madeline, é um livro pequeno e bem gostoso de ler.