"Não há história muda. Por mais que a queimem, que a dilacerem, por mais que mintam, a história humana se nega a calar a boca."
Eduardo Galeno
Eu acho que muita gente que critica o autor, e outros que o idolatram, nunca leram sua magnun opus. Mas quando uma pessoa afirma que a Terra é plana e alguns o consideram um gênio, é bom prestar um pouco de atenção.
Dia desses, um rapaz que dizem ser famoso nas redes sociais - defendeu publicamente a legalização de um partido nazista em nosso país. É o recalcado que retorna nos braços da ignorância e do esquecimento. No final, ele alegou estar bêbado. Na verdade, você vai entender melhor sobre a fonte onde ele bebeu: O Imbecil Coletivo.
A obra
Para muitos, Olavo não era polêmico. Era um picareta. O Imbecil Coletivo seria um plágio do Manual do Perfeito Idiota Latino-americano, do jornalista Carlos Alberto Montaner, conspirador exilado na Espanha que por algum tempo teve livre trânsito na imprensa daqui. A se analisar.
O fato é que a obra acabou tecendo um fio de amarração ideológica que se estende do submundo da ditadura militar (especialmente da banda mais radical do regime, aquela que se opôs agressivamente contra a abertura política liderada por Ernesto Geisel) até as entranhas do credo bolsonarista atual. O texto, bem como sua intensa atuação na internet, contribuíram para sintetizar o que poderíamos chamar de um protoconceito para ódio das milicias digitais. Em outras palavras, Olavo tinha a gasolina. Bolsonaro só riscou o fósforo.
A morte
A morte do escritor exibiu nas redes sociais a face brutal da polarização estimulada pela obra de Olavo. Se a morte de alguém, seja esse alguém quem for, é motivo para nossa felicidade, a que teremos nos reduzido?
Quando eu falo em redes sociais , estou me referindo apenas ao que delas posso ver ou saber, ou seja, falo de alguns recortes pequenos de uma indústria poderosa. Eu olho as redes sociais mais ou menos como os mendigos que assistem televisão em frente ao Magazine Luiza. Eu as observo pelo lado de fora. A bolha em que orbito, com a qual me identifico pouco, detonou o morto com anedotas, piadas e afins. A outra bolha, com a qual me identifico menos ainda, agora o cultuam como um totem oco. Dá para entender melhor essa profusão de reações? Claro que sim!
O marketing
Sempre fez parte da política e do marketing político se apropriarem de simplificações para gerar simpatia, antipatia, atrair ou causar repulsa. O objetivo final é sempre o voto. Trabalhar o medo e a esperança em uma balança que envolve todos numa gangorra emocional.
É bom lembrar que, no final, o Olavo tentou se descolar da figura do presidente a qualquer custo.
Deveria saber que só o Peter Pan, lá na Terra do Nunca - é que consegue se separar da sua sombra. Quando ele corre para a direita, a sombra corre para a esquerda.
A psicanálise
O fato claro é que o autor era um recalcado.
O recalcado, segundo os psicanalistas, sempre volta - e volta porque, de um jeito ou de outro, não dá sossego ao sujeito. O que se encontra recalcado sempre conspira para retornar. Só com muito trabalho, imenso trabalho, o sujeito dá conta de manter escondido o que está recalcado. Quando o cidadão se cansa, ou quando se distrai, a coisa irrompe lá do fundo do armário e vem à superfície, como lava de vulcão.
A lição
É bom que você aprenda. No vasto inferno do convívio social somos os demônios uns dos outros. Manda uma boa etiqueta que sejamos tolerantes para não aumentar o sofrimento.
Hoje, o imbecil coletivo é o eleitor de Bolsonaro.
Amanhã, o imbecil coletivo será o eleitor de Lula.
A máxima de Satre sobre o inferno estar nos outros nunca foi tão atual...