José de Sousa Saramago (16 November 1922 – 18 June 2010) was a Portuguese novelist and recipient of the 1998 Nobel Prize in Literature, for his "parables sustained by imagination, compassion and irony [with which he] continually enables us once again to apprehend an elusory reality." His works, some of which have been seen as allegories, commonly present subversive perspectives on historic events, emphasizing the theopoetic. In 2003 Harold Bloom described Saramago as "the most gifted novelist alive in the world today."
RECEITA Tome-se um poeta não cansado, Uma nuvem de sonho e uma flor, Três gotas de tristeza, um tom dourado, Uma veia sangrando de pavor. Quando a massa já ferve e se retorce Deita-se a luz dum corpo de mulher, Duma pitada de morte se reforce, Que um amor de poeta assim requer.
Reeditada na década em que comecei a ler José Saramago, espanta-me nunca me ter cruzado com esta obra, nem com nenhuma poesia deste, para ser sincera, mas foi uma óptima e nova forma de regressar a Saramago.
As palavras são novas: nascem quando No ar as projectamos em cristais De macias ou duras ressonâncias.
Somos iguais aos deuses, inventando Na solidão do mundo estes sinais Como pontes que arcam as distâncias.
Segundo o próprio autor ao rever os poemas publicados pela primeira vez em 1966, o “romancista de hoje decidiu raspar com a unha seca, e às vezes irónica, o poeta de ontem”, e é verdade que eles não revelam a inovação e transgressão dos seus romances, até porque muitos estão espartilhados pela rima e pela métrica, mas há vários dignos de nota, sobretudo os que desenvolvem temas da minha preferência, como a morte, a essência da poesia e a definição de poeta, sendo também flagrante neles já a sua relação antagónica e céptica com deus e os deuses.
HIBERNAÇÃO No regaço do tempo me aconchego: Passam e passam os dias em modorra E bolor, que os gestos entorpece.
Não há nesta dormência outro sossego Que estar ciente o corpo da desforra, Se a hora prometida lhe amanhece.
I'm not a fan of poetry, but this being Saramago's, it was a must read for me, and to my surprise, I very much enjoyed it.
The book contains three poetry volumes written in his youth and before he gained his status as a renowned author. The main themes are those already familiar to Saramago's fans: time passing, ephemerality of life, the flawed society, personal worries, musing, hopes - it's like Fado music on paper: sad, but full of emotions touching your soul.
The three parts are:
I. Possible poems (1966) - To the Flesh: very personal - Closed Mouth Poetry: political, social, quite acid - Mythology: religion and faith seen through his atheist eyes - Others love: musings about love - At this Corner of Time: written emotions
II. Probably Happiness (1970): revolve around love
III. Year 1993 (1975): a hybrid between poetry and prose, with his characteristic style - no punctuation -, centered on the years of dictatorship: harsh, ironic, sarcastic, and filled with bitterness.
If you like poetry and/or Saramago, then it's a worthy reading.
Poeta não é gente, é bicho coiso Que da jaula ou gaiola vadiou E anda pelo mundo às cambalhotas, E anda pelo mundo às cambalhotas, Recordadas do circo que inventou.
Estende no chão a capa que o destapa, Faz do peito tambor, e rufa, salta, Ë urso bailarino, mono sábio, Ave torta de bico e pernalta
Ao fim toca a charanga do poema, Caixa, fagote, notas arranhadas, E porque bicho é, bicho lá fica, A cantar às estrelas apagadas. ... Baralho Lanço na mesa as cartas de jogar: Os amores de cartão e as espadas, Os losangos vermelhos de ouro falso, A trilobada folha que ameaça. Caso e descaso as damas e os valetes. Andam os reis pasmados nesta farsa. E quando conto os pontos da derrota, Sai-me de lá a rir, como perdido, Na figura do bobo o meu retrato *** Retrato do poeta quando jovem
Há na memória um rio onde navegam Os barcos da infância, em arcadas De ramos inquietos que despregam Sobre as águas as folhas recurvadas.
Há um bater de remos compassado No silêncio da lisa madrugada, Ondas brancas se afastam para o lado Com o rumor da seda amarrotada.
Há um nascer do sol no sítio exacto, À hora que mais conta duma vida, Um acordar dos olhos e do tacto, Um ansiar de sede inextinguida.
Há um retrato de água e de quebranto Que do fundo rompeu desta memória, E tudo quanto é rio abre no canto Que conta do retrato a velha história.
This is a wonderful collection of Saramago's poems published in 1966.
Written in his mid forties one can see a freshness here. Unlike his long train of thought novels, these are almost all less than a page in length, often just two-three stanzas. So his brevity captures a single idea or theme. Plus they are amazing to read.
The collection is divided into five sections or themes and personally some work better than others. "Mythology" and "Love of others" were very enjoyable sections with several poems within each section playing off each other. A good example are the three poems about Don Quijote, Dulcinea and Sancho Panza. Sancho comes off the wiser while poor Don Quijote fares not so well. Lot of fun.
His love poems are knock outs as well as many that capture the feel of summer. Overall an enjoyable read.
Não é a minha poesia preferida de Saramago. Os poemas estão divididos por capítulos/ temas. Os capítulos "Mitologia" e "O amor dos outros" foram os que mais gostei. Há alguns poemas dispersos pelo livro que achei particularmente interessantes mas enquanto obra completa apreciei bastante mais o livro Provavelmente Alegria.
"Regra Tão pouco damos quando apenas muito De nós na cama ou na mesa pomos: Há que dar sem medida, como o sol, Imagem rigorosa do que somos."
Oculta consciência de não ser, Ou de ser num estar que me transcende, Numa rede de presenças e ausências, Numa fuga para o ponto de partida: Um perto que é tão longe, um longe aqui. Uma ânsia de estar e de temer A semente que de ser se surpreende, As pedras que repetem as cadências Da onda sempre nova e repetida Que neste espaço curvo vem de ti."
O estilo saramaguiano não é facilmente identificável nestes poemas. Porém, não deixam de ter a sua qualidade. A linguagem é acessível a todos e tem a sua piada ir lendo um ou dois poemas de vez em quando - não ler imensos de uma só vez.
A poesia desse livro de Samarago não tem aquela dimensão inovadora dos seus romances (ninguém é obrigado a ser revolucionário em tudo, rs), mas é interessante. Em termos de formas, ao contrário do romancista que rompe esquemas, o poeta transita mais entre padrões tradicionais (com poemas curtos de versos em sua maioria decassílabos). Com respeito à temática, é diversa, mas em linhas gerais problematiza o sofrimento humano sob várias nuances e é ideologicamente engajada.
A terceira das cinco partes do livro foi a que mais gostei, se chama Mitologia e se centra no aspecto religioso da condição humana. Deus é um grande vazio (e isso poderia ser um elo com seus romances), um vazio que precisa ser substituído pela ação humana. Depois o livro se centra no amor e no erotismo, com interleituras interessantes na quarta parte .
Os poemas que mais gostei:
Taxidermia, ou poeticamente hipócrita. "Posso falar de morte enquanto vivo?"
Epitáfio para Luís de Camões "Que sabemos de ti se só deixaste versos...?"
Há-de haver "Há-de haver uma cor por descobrir"
Salmo 136 "Têm os povos a música que merecem."
Demissão "Este mundo não presta, venha outro. Já por tempo demais aqui andamos"
E o poema que talvez resuma o livro:
Criação "Deus não existe ainda, nem sei quando Sequer o esboço, a cor se afirmará No desenho confuso da passagem De gerações inúmeras nesta esfera.
Nenhum gesto se perde, nenhum traço. Que o sentido da vida é este só : Fazer da Terra um Deus que nos mereça, E dar ao Universo o Deus que espera."
Comentário muito muito pessoal: Se aprende muito sobre Deus lendo Saramago, apesar do que possa parecer.
"Água que á água torna, de luz franjada, Abre-se a vaga em espuma. Movimento perpétuo, arco perfeito, Que se ergue, retomba e reflui, Onda do mar que o mesmo mar sustenta, Amor que de si próprio se alimenta."
"Amor, se o há, com pouco se conforma"
"Eu fui. Mas o que fui já não me lembra"
"Volto as costas ao mar que já entendo, Á minha humanidade me regresso, E quanto há no mar eu surpreendo Na pequenez que sou e reconheço."
"Esse mundo não presta, venha outro. Já por tempo de mais aqui andamos A fingir de razões suficientes. Sejamos cães do cão: sabemos de tudo De morder os mais fracos, se mandarmos E de lamber as mãos, se dependentes."
"Em mim te perco, insisto, em mim te fujo Em mim cristais se fundem, se estilhaçam, Mas quando o corpo quebra cansado Em te me venço e salvo, me encontro em ti." <--- essa daqui vai pra playlist texto de casamento.
"O resto é escuridão, onde se esconde, Entre colunas de ossos e arcadas, Como animais viscosos, palpitando, A soturna cegueira das entranhas" <-- puro texto de casamento as cegas e ngm me fala o contrário.
Na primeira parte, “Até ao sabugo”, a poesia composta é muito restrita (acabando por se tornar complexa), a meu ver, diria até que se David Lynch escrevesse poesia, este seria um livro da sua autoria. Certos poemas, certas analogias desta primeira parte consegui compreender, uma grande parte até, no entanto os restantes foram-me impossíveis de decifrar. Talvez precise de amadurecer.
Nas seguintes partes, em “Poema a boca fechada” e “Mitologia”, as críticas são fenomenais, são as críticas a que Saramago nos habituou e, certamente, não dececionou! Aquele sal na ferida que precisamos de longe a longe…
Pessoalmente, os meus poemas preferidos foram “Demissão”, “Criação” e “História antiga”. Poemas curtos, mas com uma mensagem direta e simples, que me marcaram.
Resumidamente, mais um livro fantástico de Saramago!
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Acontece a pontuação, o tom oral e narrativo dá lugar a um sussuro e a uma conversa entre íntimos. Desabafos de quem é Homem no estado mais puro e carnal dirigidos também a homens. Os segredos da vida que guardamos em nós. Tal como na sua prosa, tudo ocorre num lugar desconhecido e conhecido em simultâneo: no nosso interior. Do amor, a prova mais bonita da nossa humanidade, até aos mistérios da morte. Em Saramago, tudo é possível, até mesmo a poesia!