Crítica social, referências a ancestralidade africana, pesquisa história, ironia, insurgência poética e um cuidado com o enriquecimento humano dos seus personagens marcam a prosa dessa escritora carioca. Os seus personagens não estão soltos nos vãos da história, nos espaços invisíveis aos quais as vivências negras quase sempre foram relegadas, muito ao contrário, eles estão intimamente comprometidos com a vida e o tempo, iniciados em terreno ficcional bem elaborado. Não é diferente com A vestida, primeiro livro de contos de Eliana Alves Cruz. Seja na cidade de Justiçópolis, do conto Cidade espelho, seja no desconforto de Flávio, personagem de Oito e oitenta, com o seu filho. Tudo em a vestida leva a reflexão. Seja nas precipitações de Marilene, no conto Noite sem lua, ou nas de Doralice, no conto Peito de ferro. Tudo em A vestida nos leva a sentir. Eliana Alves Cruz, em A vestida, tinge um rico painel do Brasil de ontem e de hoje, do país que não se move em questões que são centrais para a maioria de sua população. Ao desenhar essa paisagem, Eliana não se desvirtua, em nenhum momento, do que é essencial na sua atuação como escritora de literatura, nos oferecer bons enredos, finamente elaborados, desenvolvidos com inspiração, técnica e talento, que seduzem os leitores em intensa fruição literária.
Jornalista por formação, Eliana Alves S. Cruz nasceu no Rio de Janeiro, onde atua como chefe do Departamento de Imprensa da Confederação Brasileira de Esportes Aquáticos, sendo também vice-presidente do Comitê de Mídia da Federação Internacional de Natação – FINA. Nesse campo de trabalho, visitou dezenas de países e participou de três Olimpíadas, vinte Campeonatos Mundiais e inúmeros eventos nacionais ligados ao esporte aquático, sendo também responsável pelo site www.blacksportclub.com.br, voltado para o resgate da presença negra no esporte.
Como escritora, vem se destacando na ficção, inicialmente com o romance Água de barrela, fruto de cinco anos de pesquisa sobre a história de sua família desde os tempos da escravidão. Em 2015, o livro foi contemplado em primeiro lugar no Prêmio Oliveira Silveira, concurso promovido pela Fundação Cultural Palmares, que o publicou no ano seguinte. E uma nova edição já se encontra disponível pela Malê Editora. Para a antropóloga Ana Maria da Costa Souza,
A profundidade dos personagens e a verossimilhança das situações por eles vividas são os pontos chave deste romance baseado em 3 séculos de história real de uma família negra no Brasil. Não há como não ser tocado por emoções intensas diante de muitos momentos do texto. A força da narrativa reside, precisamente, na riqueza de detalhes que conferem densidade e vigor à história.
Em 2016, integrou a edição 39 da série Cadernos Negros, com poemas de sua autoria. E, no ano seguinte, contribuiu com dois contos para a 40ª edição dos Cadernos, entre eles a narrativa de ficção científica intitulada “Oitenta e oito”. Neste mesmo ano, participou também da premiada antologia Novos poetas.
Empenhada no resgate da memória social e cultural afro-brasileira, seu mais novo romance – O crime do cais do Valongo – figura como romance histórico e policial, com uma instigante narrativa que se inicia em Moçambique e chega até o Rio de Janeiro.
A influência que a autora teve para escrever sobre o Valongo, foi a descoberta dos objetos encontrados em escavações recentes. Entre o período de 1811 a 1831 muitos escravos chegaram ao Brasil por esse cais, todos os artefatos despertaram a criatividade da autora, possibilitando assim o começo da escrita do seu livro, que é feito de inúmeras memorias dos ancestrais que foram escravizados e mortos no cais, - diz autora em entrevista a Médium Books(https://medium.com/blooks/entrevista-...-).
A mensagem que a autora deixa para os seus leitores em entrevista a Médium Books é “Brasil, se olhe no espelho, enxergue quem você realmente é se ame. A história e o conhecimento do povo negro são tesouros riquíssimos que precisam ser descobertos e aproveitados por toda a nação”. Assim é possível observar o resgate da memória e a preservação da identidade cultural negra almejado pela escritora.
Eliana Alves Cruz é também autora do blog www.flordacor.blogspot.com com textos voltados para a apreciação do trabalho de mulheres negras brasileiras em diversos campos de atuação.
Fui interpelado pelo nome de Eliana Alves Cruz, pela primeira vez, possivelmente em algum debate de algum festival literário de alguma cidade brasileira. FliAraxá, possivelmente. “O crime do cais do Valongo" serviu-me como cartão de visita para o seu projeto político-literário. O sugestivo título alude simultaneamente à escravidão, que tinha naquele cais a principal porta de entrada de seres humanos comodificados no Brasil imperial, e ao homicídio em torno do qual orbita o enredo, cujas suspeitas recaem precisamente sobre os então escravizados pela vítima.
Agora, a autora me chega por meio da infalível curadoria do Clube de Leitura da Biblioteca Nacional de Brasilia de que ando afastado em razão da correria cotidiana, mas ainda me oferece norte e pauta meu horizonte de leituras. “A vestida”, vencedor do Jabuti recentemente, foi o escolhido para março de 2023. O li por agora, em meados do ano seguinte. Embora mais afeito aos romances que aos contos, foi fácil me engajar na escrita objetiva e concisa, quase “graciliana”, que vai nos conduzindo por estórias mediadas por uma violência inerente à sociabilidade brasileira, sem deixar de lado as variáveis que acirram-na, notadamente o racismo e a misoginia: não é um acaso que quase todas as protagonistas sejam mulheres negras. Seguindo a prescrição de Graciliano Ramos, aqui, as palavras não servem como adorno; elas servem para dizer e DIZEM. Dizem sobre a menina negra que anseia ter outra aparência diante de um mundo branco que lhe nega estima; sobre o professor que, personificando a ascensão socioacadêmica da família, se exaure ante a violência que invade a escola; sobre abordagens policiais truculentas que perpetuam a necropolítica estatal; sobre os demorados e significativos rituais de entrançamento dos cabelos crespos e, por outro lado, os violentos de alisamento. São prolíficos diálogos com Toni Morrison, Djaimilia Pereira de Almeida, Lázaro Ramos, Maíra Brito e tantos outros.
Que fique de registro e indicação: atualmente, Eliana Alves Cruz capitaneia um dos melhores programas da TV aberta brasileira, o TRILHA DE LETRAS, produzido pela EBC, que vai ao ar sempre às quarta-feiras, às 23h, com reprises aos sábados (vez ou outra, há mudanças de horário), trazendo entrevistas com autores relevantes de nossa literatura contemporânea.
Ótima coletânea de contos, com algumas ressalvas. Apesar de parecem simples, há um riqueza imensa em (algumas) histórias aqui. A última, em especial, me roubou o coração, assim como a primeira. De crianças a adultos, do período escravocata a 2018, com predominância total de protagonistas femininas, algumas narradoras outros não, há, claramente, uma predominância da temática racial, com um excelente flerte com o fantástico. Apenas me vejo obrigado a reconhecer uma excessiva simplicidade. Não sei como dizer melhor. Mas senti falta de um maior apreço literário, de um certo requinte. Também fez falta uma mais bem trabalhada organização na ordem dos contos. Não senti, em momento algum, que foi pensada alguma ordem sobre qual conto vem primeiro e qual vem depois e etc. E numa coletânea de contos, isso faz sim certa falta. Ademais, Eliana segue uma ótima escritora e continuo ansioso para ler seus outros romances após ter lido "Solitaria".
Eliana demonstra a sensibilidade das grandes escritoras ao transformar o cotidiano em um convite à reflexão. Em seu livro "A Vestida", ela apresenta uma coletânea de contos que abordam temas como negritude, racismo, ficção, machismo, desigualdade social, amor e ancestralidade. Cada tema é explorado com a profundidade necessária e a precisão concisa que cativa a leitora sem ser prolixa.
Para quem busca a bravura em vestir a angústia do outro, os contos apresentados por Eliana representam uma série de vestimentas, prontas para serem usadas.
São contos fortes, que discutem ancestralidade, racismo, violência urbana, famílias desestruturadas por tal violência, diferenças sociais, e muitas outras coisas, perpassando por contos de temática contemporânea até textos de ficção científica/especulativa, sempre de forma muito contundente. Gostei bastante.