O tempo todo estamos sendo convidados a desapegar do velho e a receber o novo. Mas, para criar algo completamente novo, esse processo demanda a desconstrução de um jeito de ser. A lagarta, por exemplo, quando chega o momento de se transformar em borboleta, cria um casulo onde se recolhe até que a metamorfose se complete. Esse é o momento em que o mundo está passando, conhecido como Parivartan na cultura védica. E a chave para não entrarmos em uma crise interna é a aceitação da impermanência. O que antes garantia a estabilidade, hoje, pede por mudanç relacionamentos, educação, economia, meio ambiente, entretenimento, entre outros pilares da vida em sociedade.
Em A transformação para uma nova consciência, Sri Prem Baba convida o leitor para uma jornada rumo a uma nova realidade. A obra é um guia para fortalecer a fé e elevar a consciência em áreas importantes da vida. Só assim, adaptando-se às transformações do Parivartan, será possível realizar essa travessia com mais equilíbrio e ampliar a consciência sobre o nosso papel nesse momento tão único na história.
Sri Prem Baba nasceu em São Paulo. Estudou Psicologia e Ioga. Tornou-se discípulo do mestre Sri Sachcha Baba Maharajji, da linhagem indiana Sachcha. Como líder humanitário e mestre espiritual, fundou o movimento global Awaken Love com o propósito de restabelecer e elevar os valores humanos para despertar a consciência amorosa. Divide o seu tempo entre o Brasil e a Índia, onde ministra cursos e oferece palestras e retiros.
Melhores trechos: "...Todos nós carregamos partes de nossa personalidade que estão fragmentadas. Sempre há uma parte em nós que não aceitamos, da qual sentimos vergonha, pois ainda não chegamos a um acordo com ela. Nas fases iniciais da jornada, procuramos integrar essas partes e nos conscientizamos daquilo que nos causa vergonha e repressão... E, mesmo que tudo esteja desmoronando, ainda assim eu afirmo que não falta nada. Compreenda minhas palavras: se olharmos para fora, sentiremos falta de tudo, pois no externo só existem morte, doenças, falta de dinheiro, de comida, de água. Mas, se olharmos para dentro, veremos que temos tudo de que precisamos... A transição no nível da alma acontece com mais suavidade à medida que aceitamos as rupturas e aprendemos a lidar com a frustração e o desmoronamento do nosso mundo, indo além dos apegos... Existem muitas maneiras de interpretar o nosso estado atual de consciência, e, independentemente se você segue o pensamento darwiniano ou védico, vamos chegar a um lugar semelhante. A ciência não nos aponta muitas esperanças em relação ao futuro da humanidade. O que se sabe é que estamos em estado de evolução, mas aonde vamos chegar ainda é um mistério. Já a cosmovisão védica compara o mundo com um touro que vai perdendo suas patas à medida que vamos nos desconectando do nosso Ser. Cada pata representa uma era dentro do processo da evolução da consciência: SATYA YUGA é a Idade de Ouro, em que o touro ainda está com as quatro patas. É a era da verdade, da luz e da iluminação espiritual. É quando existe a consciência do Ser e os valores espirituais estão bem elevados. TRETA YUGA é a Idade de Prata. Após milhares de anos, o touro perdeu uma de suas patas. Isso significa que começamos a perder conexão com o nosso Ser. É quando nos valemos do ascetismo, da disciplina e do empenho para manter o estado iluminado. DWAPARA YUGA é a Idade de Bronze, em que o touro perde mais uma pata, ficando apenas com duas. É quando começamos a dar passagem à ignorância. Para abrirmos caminho à iluminação, precisamos nos purificar de ilusões, crenças e ideias que temos de nós mesmos, da vida e do nosso próprio espírito, que nos fazem projetar no outro aquilo que imaginamos, e não aquilo que é real. Essa pureza é alcançada por meio da devoção, uma das qualidades da alma que se manifestam em algum momento da jornada. KALI YUGA é a Idade de Ferro, em que o touro perde mais uma pata, ficando somente com uma. É a era da ignorância, da destruição, da escuridão. Esta é a fase em que os valores espirituais foram completamente esquecidos e a conexão com o Ser é praticamente uma quimera. Para atravessar a Kali Yuga, somente por meio da gratidão e da humildade... A verdade muitas vezes é um remédio amargo, difícil de ser digerido, mas que, no final das contas, cura. No momento, estamos, em algum grau, acessando a verdade e entendendo que ela nos liberta. Só é possível nos libertarmos da prisão quando reconhecemos que estamos presos. Quando começamos a tomar consciência de que nos colocamos dentro de uma prisão e ainda não sabemos como abrir a porta da cela, é muito desconfortável. Você quer se livrar da culpa, da vergonha, do sentimento de inferioridade, do passado, mas não consegue... Esse estado de identificação com a mente é como uma prisão, e um de seus principais elementos é o medo. Todo o nosso sistema está a serviço dele. Talvez o cerne seja o medo de nos elevarmos e de sentirmos o êxtase que a liberdade nos proporciona. Embora no mais profundo todos sejamos livres e iluminados — porque somos existência, consciência e bem-aventurança — estamos atados ao passado, sonhando com as memórias e projetando um futuro que acreditamos que seja vida. O medo se vale do fluxo do tempo psicológico. Você tenta mudar o passado e garantir um futuro que acredita que o salvará dos problemas atuais. Esse fluxo é permeado por diversas emoções que lhe dão uma ideia da vida, porém é só uma ideia, não é a realidade. Você pensa sobre o amor, mas não ama. Você pensa sobre a vida, mas não vive. Afinal, para amar e viver se faz necessário estar inteiro no aqui e agora, e o momento presente é o que quebra o fluxo do tempo psicológico. Nesse estágio da evolução da consciência humana, é raro quem desperte. Até hoje tem sido assim. No entanto, quando você descobre que a mente te usa, e não o contrário, você passa a tentar a todo custo se livrar dos seus condicionamentos... Eu poderia descrever uma série de exemplos de vida simples, mas eu estaria alimentando o seu condicionamento. Seria mais alguém, mais uma programação dizendo para você como deve viver a vida. E a verdadeira simplicidade só é possível quando você se torna livre de todos esses condicionamentos e pode ser você mesmo. Quando você está presente, tudo se torna simples, pois você se liberta das memórias do passado e das fantasias do futuro, harmonizando-se com a natureza e elevando os pensamentos. Podemos dizer que a revolução da consciência é um processo de expansão da mente. Por isso, ela se dá por meio do autoconhecimento, que se inicia com a conscientização de quem você acredita ser... Eu digo com frequência que, para a verdade emergir, a falsidade precisa desmoronar. Em relação às incertezas, quanto mais você resiste em aceitar o novo paradigma, maior será o seu sofrimento. Quanto mais você insistir em fazer do seu jeito, maior será a sua frustração. A revolução vem para que possamos encontrar a verdade e assim criar uma sociedade baseada em uma verdade profunda. Estamos falando de uma nova maneira de viver a vida na Terra, baseada no amor, na não violência, na compaixão, na tolerância e na cooperação. É disso que se trata a criação da Era Dourada dentro da Era de Escuridão — ou, como estou chamando neste livro, uma nova consciência. Se formos bem-sucedidos na revolução da consciência, e se de fato conseguirmos subir um degrau enquanto sociedade humana, o que será essa nova realidade? Hoje, todo o nosso sistema nos leva a dormir e sonhar, a andar em círculos e a repetir os mesmos padrões. Na nova realidade, vamos finalmente quebrar esse ciclo e usar o poder do Ser, que é a mente de forma adequada. Será um retorno à transmissão original dos antigos rishis, que, há milhares de anos, nos ensinaram o yoga e a dominação dos nossos sentidos para acessar a inteligência discernidora... O Ser Supremo é um e se manifesta de diferentes maneiras, de acordo com a necessidade de cada um. Não o vejo como uma entidade externa a nós, mas como a inteligência criadora. O Ser é aquele que vê através de nós. A essência que nos habita é única. Corpo, ego e personalidade, que nos dão um senso de individualidade, são nossos veículos. Mas não somos de fato o veículo, e sim o seu condutor, que é único. Portanto, Deus é unidade. Agora, o importante é elevarmos nosso pensamento, para que possamos fazer a travessia gerando o menor sofrimento possível, nos preparar para a reconstrução, tanto no nível individual como coletivo, e nos alinhar com a verdadeira espiritualidade e conexão com o Divino... Podemos dizer que todos nós somos um Eu consciente, aquele que escolhe estar lendo este livro — que chamo também de ego consciente. Temos também um eu divino, eu superior, centelha divina ou simplesmente Ser, que é o que somos no mais profundo, mas também temos um 'eu inferior', a criança ferida, que é o nosso lado negativo (raiva, inveja, vingança, mesquinhez, medos), e a máscara que utilizamos para agir no mundo e nos proteger. O que acontece é que fomos condicionados a acreditar que a causa dos nossos conflitos vem de fora, que a culpa do nosso sofrimento é sempre da vida ou do outro. Acreditamos que, se o outro for perfeito, não teremos problemas e nossa vida será maravilhosa. Isso não existe, é totalmente ilusório. A causa da nossa perturbação está em nós mesmos. Por isso, quando nos responsabilizamos por completo pelo nosso eu inferior, somos capazes de perdoar verdadeiramente, ressignificar o passado e nos libertar para seguir adiante... O processo de amadurecimento leva a pessoa a reconhecer suas falhas e insatisfações, e é natural que ela entre em confusão. Esse conflito é muito bem-vindo, porque é o início do processo de expansão da consciência. Ouvir sobre a expansão da consciência é diferente de expandir a consciência. Quando começamos a expandir a mente, saímos da zona de conforto e entramos em dúvidas, em lugares de fragilidade e de vulnerabilidade. O vitimismo é uma falha, mas, quando tomamos consciência dele, começamos a nos libertar. Quando identificamos o crítico interno, que nos faz sentir vergonha de nós mesmos por não corresponder às expectativas externas, começamos a sair do labirinto e a romper os condicionamentos. Esse rompimento acontece aos poucos, e talvez nos primeiros momentos seja necessária uma ruptura com a vítima que nos habita... Assim, aos poucos, você será capaz de acessar buddhi, que é a mente discernidora, a real inteligência, que liberta da escravidão da atenção do outro, da dependência de ter que ser o melhor para agradar a todos, da escravidão de querer ser o mais bonito, o mais perfeito, para ser amado e aceito. Temos de criar novas redes neurais e caminhos, utilizar os nossos recursos e o que temos de mais potente dentro de nós. Temos utilizado muito pouco, usado sempre as mesmas regiões do cérebro, as mesmas glândulas. Nós, seres humanos e parte da sociedade, somos detentos dos primeiros chakras — sobrevivência e sexualidade —, porque fomos condicionados a acreditar na escassez e que a felicidade estaria do lado de fora e poderia ser comprada. Apesar de ser mentira, fomos programados a acreditar nisso — a tomar o falso como real e o real como falso. O sistema de crenças da carência afetiva está sendo destruído neste momento... Existe uma tendência em nos mantermos no estado inferior. Costumo dizer que o sofrimento é como uma entidade viva que se nutre de dor. Quanto mais temos emoções negativas, mais o sofrimento se apossará de nós, pois ele quer continuar vivo. Por isso, o meu propósito aqui é lançar alguma luz àqueles que querem mudar e estão em condições de ouvir, entender, interromper essa prática, para realmente se libertar... Se a vida é uma escola, os relacionamentos são a universidade. Aprendemos sobre nós mesmos por meio das relações. Existe um mecanismo psíquico que nos faz projetar no outro questões que foram mal resolvidas na infância. Com isso, acabamos sempre nos atraindo por pessoas que carregam o melhor e o pior dos nossos pais, como uma oportunidade de olharmos para problemas que estão pendentes dentro de nós... Se estiver bem instruído no uso do material de escola e tiver acesso ao conhecimento em Dharma, você aprenderá a responder ao comportamento do outro de maneira compassiva e empática, interrompendo finalmente o círculo vicioso. Este é o nosso desafio: estarmos suficientemente atentos e presentes para não cair nessa atitude viciada e repetitiva. Outro ponto que traz desafios nos relacionamentos no dia a dia é encontrar o equilíbrio entre a entrega e os limites para não se perder dentro da relação. É importante que cada um identifique o seu espaço, a fim de preservar sua individualidade. Como diz o poema de Khalil Gibran: “Cantem e dancem juntos, e sejam felizes, mas devem ser independentes, como as cordas de um alaúde são independentes uma das outras, embora vibrem com a mesma música”. Mas, se você estiver refém da carência, não vai conseguir colocar limites, estará completamente dependente do outro e muitas vezes se colocará em situações difíceis somente para ser reconhecido, aceito e amado... Para que possamos acessar a verdade de quem somos e resgatar nossa espontaneidade, precisamos nos “desidentificar” da ideia de sermos uma personalidade. Esse processo começa na cura dos nossos traumas, das nossas feridas e das dores que carregamos durante a vida. Quando eu me verticalizo, percebo que não sou uma gota de água dissociada do oceano, mas o próprio oceano; lembro que sou nada, apenas um vazio, existência, consciência e bem-aventurança. Mas, para que eu possa andar pelo mundo, preciso me horizontalizar, me identificar com minha personalidade... Havia uma senhora que passou horas procurando na rua uma agulha de costura. Até que um homem se aproximou com a intenção de ajudá-la e perguntou em que lugar específico ela havia deixado a agulha cair. Ela responde que havia perdido dentro de casa. Não vendo sentido na resposta, ele a questiona: 'A senhora perdeu a agulha dentro de casa e está procurando na rua? A senhora tem algum problema?'. Eis que ela responde: 'Assim é o ser humano: ele está procurando fora aquilo que está dentro dele'... A vítima e o acusador que existem em nosso interior nos obrigam a usar uma máscara como forma de nos proteger, nos defender e constantemente sermos aceitos pela sociedade. No entanto, a única forma de fortalecermos as relações é através da espontaneidade, sendo nós mesmos e aceitando o outro como ele é — isso é o que chamamos de intimidade. Se olharmos para trás, vemos que a dinâmica do casamento não mudou tanto quanto imaginamos... Devemos tratar nossa criança ferida, mas também soltá-la para que ela cresça, porque, em algum momento, você precisará ser maduro para olhar seu pai e sua mãe como seres que também estão no processo de evolução, passando pelos percalços e aprendendo suas lições. O mesmo acontece com os filhos. O conceito de pai e mãe aqui não é literal, apenas uma representação de quem cria uma criança, porque todos nós temos uma referência de pais, sejam eles avós, tios ou qualquer outro. Quando os conflitos de crenças e dores estão dentro da própria família, às vezes é necessário se afastar por um tempo, porque talvez a relação esteja tão destrutiva e viciada que permanecer só aumentará o sofrimento. Claro que, se você tiver um filho, dependendo de sua idade, não poderá deixá-lo. Mas pode ser que chegue um momento em que você perceba que talvez esteja forçando uma situação ou atado a uma teia kármica por ter se tornado codependente do outro. Às vezes, você só consegue se sentir preenchido com a miséria e o sofrimento do outro. Isso tem que ser rompido. Você precisa se permitir estar consigo mesmo para ter a chance de crescer. Não é fácil sair disso, mas é possível. E essa reforma íntima é necessária. Deve haver uma mudança no mindset e na forma de pensar e de se relacionar com o mundo. Então entenda que o outro não tem o poder de perturbar você. É você que se permite ser perturbado pelo outro por causa dessas identificações que você carrega... Costumo aconselhar os terapeutas, que convivem diariamente com jovens perturbados, a incluir três frentes de trabalho com eles: ACORDAR A ARTE. Não importa qual seja, artes plásticas, música, teatro, cinema, corte, costura, entre outras manifestações; DESBLOQUEAR O CORPO. Toda essa energia parada está no corpo, e o yoga, a dança e as atividades físicas das mais diversas podem ajudar a desbloquear a energia do corpo; CONTATO COM A NATUREZA. Mexer na terra, nadar na água, rio ou mar, plantar, conectar-se com as flores e com os animais abrem espaços para que possamos aos poucos nos reconectar com o Ser... A imagem que temos de Deus é a projeção dos nossos pais, é aquele Deus que está fora de nós, vigiando nossos acertos e erros, limitando nossa experiência e roubando nossa espontaneidade. Somente quando nos libertarmos dessas representações é que vamos poder ter amor, fé e confiança Nele e compreender que Ele age através de você e em você. Aquilo que não é devoção não é amor, é outra coisa. Sem a sabedoria e a compreensão, não podemos receber amor. Ou seja, a unicidade do indivíduo com o amor é o amor por si próprio. Mergulhar no profundo mar sagrado do amor e da extrema devoção é o último estado do devoto. Um ser humano sozinho é fraco, ele não pode adquirir conhecimento espiritual verdadeiro. Dessa forma ele fica impotente, pois, como ser humano, ele não é Deus. Um ser humano com suas limitações não pode se tornar Deus. A transformação do humano pode somente acontecer através da graça Dele. Só conseguimos conhecer nossas limitações e imperfeições quando não nos vemos acima delas e as assumimos. Então, aos poucos, vamos compreendendo que a perfeição divina inclui a imperfeição e pavimenta o caminho para sermos agraciados por Ele. O ego tomou o trono do Ser dentro do nosso corpo, e agora temos de depor esse impostor para assumir o comando de volta. Este é o trabalho que estamos fazendo: criando condições para que a graça divina possa nos fazer um com Deus..."
Na minha opinião o melhor livro de Prem Baba. Depois de uma recente história de altos e baixos, este livro retrata o seu melhor momento até agora. De linguagem acessível, objetiva e amorosa, o livro oferece ótimas ferramentas para enfrentar este tempo de grandes mudanças