Dez anos depois, uma nova edição do grande livro de viagem de José Luís Peixoto à Coreia do Norte, com fotografias do autor.
Em abril de 2012, José Luís Peixoto foi um espectador privilegiado nas exuberantes comemorações do centenário do nascimento de Kim Il-sung, em Pyongyang, na Coreia do Norte. Também nessa ocasião, participou na viagem mais extensa e longa que o governo norte-coreano autorizou nos últimos anos, tendo passado por todos os pontos simbólicos do país e do regime, mas também por algumas cidades e lugares que não recebiam visitantes estrangeiros há mais de sessenta anos.
A surpreendente estreia de José Luís Peixoto na literatura de viagens levou-nos através de um olhar inédito e fascinante ao quotidiano da sociedade mais fechada do mundo. Repleto de episódios memoráveis, num tom pessoal que chega a transcender o próprio género, Dentro do Segredo é um relato sobre o outro que, ao mesmo tempo, inevitavelmente, revela muito sobre nós próprios.
Dez anos depois, esta é uma edição que mostra ainda mais desse país submetido à ditadura mais repressiva do mundo, um país coberto por absoluto isolamento, através de fotografias inéditas capturadas pela lente do autor, e que mostram aspetos da vida quotidiana da Coreia do Norte, das suas paisagens e do seu povo.
I was anxious to read this book, which aroused so much curiosity. A book that takes us to North Korea awakens a desire to visit it. For them, there is no reality other than the regime.
Sou contra todos os regimes totalitários e ditaduras. Nenhuma intenção aqui de defender a ditadura soviética ou qualquer ditadura de origem comunista. Mas é importante afirmar que a ditadura que se vive na Coreia do Norte não é uma ditadura dessa natureza. Não é. Esse parece-me um conhecimento fundamental acerca deste país. Quem diz que a Coreia do Norte é a ditadura comunista mais severa do mundo está errado. Quem diz que é o último reduto do estalinismo está errado. A Coreia do Norte é uma ditadura severa, provavelmente a mais severa do mundo, mas não é comunista. A Coreia do Norte é o último reduto de alguma coisa, muito provavelmente também é o primeiro e único reduto dessa mesma coisa, mas não é estalinista.
Em 2012 José Luís Peixoto visitou a Coreia integrado num grupo de turistas estrangeiros - Kim Il-sung 100th birthday Ultimate Mega Tour (Ultimate Option).
Sendo eu uma pessoa minimamente curiosa, e sabendo muito pouco da Coreia do Norte, a não ser o vertido na comunicação social, um país fechado sobre si, pouco desenvolvido, em que o culto do líder é de um nível estratosférico e em que quase ninguém entra e muito poucos saem, este livro de JLP pareceu-me uma boa opção para conhecer mais um pouco sobre o país, já que o autor deve ter sido dos poucos portugueses a visitar a parte a norte do paralelo 38.
É um livro objetivo, com uma escrita limpa e direta, não se perde muito em divagações nem em juízos de valor, e começa com alguns apontamentos da história coreana que o autor estudou antes de ir para o país. O autor descreve o que vai vendo nos locais específicos, bastante específicos, onde os guias levam o grupo, os hotéis em que ficam instalados, as pessoas que vê na rua e, claro, faz algumas considerações e tira algumas ilações sobre o lhe mostram.
O esforço que o governo coreano faz para passar a estes visitantes uma ideia de progresso, de modernidade e de que está tudo bem chega a ser ridícula. O episódio em que levam o grupo a uma fábrica com maquinaria bem pintada, de cores garridas, mas onde não se vê vivalma a trabalhar nem nada a sair das linhas de produção, para, depois de saírem, verem da estrada outros complexos fabris de condições precárias mas onde efetivamente as chaminés deitavam fumo é de deixar uma pessoa de boca aberta.
A visita à casa de uma "típica família coreana", com tudo bem arranjado, roupas nas gavetas, quadros com fotografias dos membros da família em pose sorridente, mas em que se vê, pelos vestígios de pó e pela própria aura da casa, que ninguém lá vive, que é só para inglês, e neste caso, português ver.
O culto do líder é surreal. Todas as casas, claro que aqui infere-se de uma amostra, já que o autor não visitou todas as casas da Coreia, mas não custa a acreditar que assim seja, têm na parede os retratos dos queridos líderes. E não pode ter mais nada nessas paredes. Os "museus" são de coisas que outros países ofereceram ao grandes líderes, coisas em que os queridos líderes tocaram e por aí vai.
Acredito que será a experiência de uma vida visitar este pequeno reduto, mas não para mim. Neste tema ater-me-ei aos livros.
Foi uma boa leitura, tanto que em poucos dias terminei-a, e gostei de ler o ponto de vista do autor e fiquei com vontade de ler as suas obras de ficção.
“Viajar é interpretar. Duas pessoas vão ao mesmo país e, quando regressam, contam histórias diferentes, descrevem os naturais desse país de maneiras diferentes. Uma diz que são simpáticos. Uma diz que são tímidos, a outra diz que não se calam durante um minuto. Isto é radicalmente verdade em relação à Coreia do Norte. O secretismo e as enormes idiossincrasias desta sociedade fazem com que o olhar do visitante seja muito conduzido por aquilo que leu em livros antes de chegar. Ao fazê-lo, parece-me, acaba por procurar na paisagem exemplos do que já sabe. Por isso, a interpretação que cada um faz depende dos livros que leu.”
Este é o terceiro livro que leio sobre a Coreia do Norte, em todos eles há uma frase comum: é o país mais fechado do mundo. O regime, as pessoas, a cultura, foram muitos os pormenores que encontrei neste livro e que até então desconhecia, talvez por se tratar de uma viagem na primeira pessoa, um sonho a concretizar, todo ele pejado de um grande investimento pessoal.
Uma leitura que valeu a pena, pela escrita simples mas ao mesmo tempo pela sua prosa lírica que nos leva a refletir, a viajar e que, desde o início, nos transporta até ao imaginário.
Logo nas primeiras primeiras páginas, identifiquei-me muito com José Luís Peixoto, quando ele afirma que sempre teve curiosidade por sociedades fechadas e sistemas políticos totalitários. Uma curiosidade que se prende com o quotidiano das pessoas de quem vive nessas sociedades. Perceber como é que tudo funciona, desde as coisas mais básicas, como ir ao supermercado, até ao ensino ou sistema de saúde.
Que livro. Em 4/5 dias, viajei para a Coreia do Norte com o José. Não o escritor, mas a pessoa com uma curiosidade imensa sobre esta sociedade. Propôs-se a ir à Coreia do Norte e foi. Com este livro, também eu fui a esse país. Também eu vi as pessoas, as bicicletas, as paisagens e observei comportamentos. Também eu senti a agonia de estar num país sem liberdade e com vigilância constante. Também eu senti a dança, a música, o trabalho rural, a encenação. Também eu senti cada palavra escrita por José Luís Peixoto.
Foi uma bela viagem, esta. Sublinhei muito o livro, apontei várias coisas, fiz alguns comentários para mim própria. Sinto, sem sombra de dúvida, que fiquei a conhecer um bocadinho mais o país mais fechado do mundo. E esta é, também, a magia dos livros.
«Eu, em Pyongyang, na Coreia do Norte, e a minha mãe a perguntar-me: Está tudo bem por aí? Considero-me prático e funcional. Respondi sempre do lado do senso comum. Dizer que estava tudo bem era a minha maneira de dizer que não estava doente, que não tinha sido preso e que contava regressar a casa como combinado. Mas, claro, essa não era a resposta completa a uma pergunta tão vasta.»
«O sol daquela manhã era óbvio para a menina Kim. Da mesma maneira, não surpreendia nenhum norte-coreano. Afinal, Kim Il-sung era frequentemente chamado «Sol da Humanidade» e ninguém esperaria que os elementos não lhe obedecessem no seu próprio dia.»
Provavelmente, quem partir para este livro a esperar encontrar um romance, vai sentir-se defraudado. Quem pegar nestas páginas na esperança de ler mais uma obra de José Luís Peixoto vai sentir-se enganado. Quem não ler a contracapa, ou for distraído o suficiente para ignorar a própria capa, vai esperar um romance e mais um livro de José Luís Peixoto.
Mais do que um livro, o que o autor nos apresenta é um relato… em formato de livro. É simples, segue sob carris - de ponto A para B, de B para C -, é descritivo, é a sua honesta experiência.
Peixoto assume a sua singularidade, o seu estatuto de indivíduo comum, não o escritor premiado, e leva-nos na sua própria viagem. Nada mais.
Não é um romance, não é um manifesto político, não é um estudo sobre o governo e arte de Pyongyang. É “uma viagem na Coreia do Norte” que coincide com as comemorações do centenário do nascimento de Kim Il-Sung.
Abri o livro a esperar o relato de uma viagem. Mais pensamento, menos pensamento, mais crítica, menos crítica, mais ironia, menos ironia, pousei-o na certeza de que era o que afirmava ser.
"A única claridade vinha do céu, da enorme quantidade de foguetes que rebentava havia quase uma hora ao longo de quilómetros de rio. Mas ali, ao meu lado, na escuridão total, ninguém baixava a voz ou o olhar quando me via, a minha presença não era sentida. Durante aqueles minutos, fui norte-coreano.”
José Luís Peixoto nunca desilude. Esta obra é um marco de enorme coragem por parte do autor que nos mostra que ser escritor não se resume, apenas, a fantasiar histórias. Colocando a sua própria vida em risco, Peixoto deixa-nos um testemunho ímpar de uma realidade que para nós, portugueses e ocidentais, é quase irrealista... A miséria, a ditadura, o culto da personalidade e a ignorância são as pedras basilares da sociedade norte coreana!
Obrigado José Luís Peixoto por esta magnífica é inesquecível viagem!!! Valeu a pena!!!
Depois de ter lido há pouco tempo A Longa Noite de Um Povo tinha algumas expectativas relativamente ao carácter informativo de Dentro do Segredo, sobretudo porque este se situa temporalmente a jusante, imediatamente após a chegada ao poder de Kim Jong-un. A narrativa fica-se contudo pelo relato de uma viagem de cariz mais ou menos turístico, por altura das comemorações do centenário do nascimento do "Grande Líder" Kim Il-sung, momento em que a Coreia Norte se maquilhou para as comemorações e, excepcionalmente, permitiu a entrada de muitos turistas e jornalistas estrangeiros, aproveitando para exibir a sua propaganda. José Luís Peixoto escreve muito bem (não é novidade) mas, embora se trate de uma leitura com algum interesse em termos de conteúdo, o relato não deixa de ser um pouco superficial. Talvez não tanto por culpa do autor, mas por força das circunstâncias em que decorreram a sua estadia no país e as visitas que efectuou - sempre com um controlo muito apertado por parte dos guias e com um autêntico bombardeamento de propaganda. É um texto de carácter sobretudo descritivo, com algumas reflexões mas sem grande aprofundamento, julgamentos ou juízos de valor. Gostei de ler embora tenha ficado um pouco aquém das minhas expectativas.
Fascinante esta incursão numa das mais misteriosas regiões do globo, de apreensão sempre evasiva, mesmo para os que, como José Luís Peixoto, a viram a olho vivo. É uma descrição de um país de faz de conta, sempre ocupado na fabricação de si próprio, sempre erigindo uma visão mais grandiosa, mais harmoniosa, mais perfeita da realidade à custa de um sofrimento oculto, cuja dimensão dificilmente se consegue saber ao certo. Um José Luís crescentemente perturbado apercebe-se que, como D. Quijote de la Mancha (que foi, nesta viagem, o seu mais fiel companheiro literário), vai progressivamente perdendo a capacidade de distinguir a realidade da história que um povo, sob o jugo de um dos mecanismos autoritários mais opressivos dos nossos dias, conta de si mesmo. E é também ele que, parece-me, sai da Coreia do Norte com um certo sentimento de gratidão pela honestidade na desordem e na imperfeição.
Elogios também para a prosa de José Luís Peixoto, que se nega a cair em grandes barroquismos, erguendo-se numa beleza depurada; e que, sobretudo, soube encontrar por entre a banalidade desta sociedade-teatro momentos de verdadeiro peso lírico.
"Dentro do segredo" foi uma total estreia para mim. Quanto ao autor, José Luís Peixoto, e quando ao género, literatura de viagem. Este livro conta a viagem feita pelo autor, em 2012, à Coreia do Norte. País do continente asiático conhecido por ter um dos regimes mais fechados e com mais restrições do mundo. Um país, à data, com mais de 24 milhões de habitantes para quem o sentido de liberdade, de patriotismo e de entrega à pátria não tem comparação com o sentido que nós temos.
Num país em que tudo tem um nome pomposo e bastante longo como, por exemplo, Monumento das Três Cartas para a Reunificação Nacional, o primeiro choque cultural ocorre no momento da passagem da fronteira. O telemóvel é retirado aos poucos estrangeiros quem é autorizada a entrada do país e é devolvido somente no momento em que de abandona a Coreia do Norte. Como é possível viver em está extensão do ser humano da sociedade do século XX/XXI?
José Luís Peixoto começa por descrever todo o processo de preparação da viagem à Coreia do Norte, inserido na Kim-Il-sung 100th birthday Ultimate Mega Tour. Esta seria uma viagem de 15 dias pela Coreia do Norte, partindo e chegando a Pyongyang para assinalar o centenário do aniversário de Kim-Il-sung em Abril de 2012. O autor fez leituras e pesquisas sobre o país e fez amizade com Chiwan, descendente de norte-coreanos a viver em Los Angeles que lhe permitiu aprofundar as suas leituras e preparação para o que iria encontrar na Coreia do Norte. Mas acho que nada conseguiu preparar verdadeiramente Peixoto para as diversas culturais extremas, para a pobreza disfarçada em fotografias e movimentos altamente coreografados, para a suposta indústria de elevada produção mas equipamentos que parecem não ser utilizados.
A viagem de Peixoto foi mais do que a viagem através de localizações geográficas. Foi uma viagem de descoberta, conhecimento e redefinição interior que poucos seremos capazes de alcançar. A reflexão de José Luís Peixoto sobre os segredos que todos nós carregamos mostra a dimensão psicológica que esta viagem teve: "Desde dentro, chegam à nossa pele. Depois, avançam até sermos capazes de os distinguir à nossa volta. E, no silêncio, nesse momento, somos capazes de os reconhecer. Então, nesse momento, já não são apenas os segredos que estão dentro de nós, somos nós que estamos dentro do segredo" (pág. 136). Também a forma como vivemos uma viagem mostra a solidão e individualidade que essa viagem pode ter, mesmo quando a fazemos acompanhados e temos pessoas a viverem o mesmo que nós: "Viajar é interpretar. Duas pessoas vão ao mesmo país e, quando regressam, contam histórias diferentes, descrevem os naturais desse país de maneiras diferentes. Uma diz que são simpáticos, a outra diz que são antipáticos. Uma diz que são tímidos, a outra diz que não se calam durante um minuto" (pág. 61).
Este foi um livro que gostei muito de ler e que me permitiu olhar para dentro da caixa fechada que continua a ser hoje, tal como em 2012, a Coreia do Norte. Um regime com fortes alicerces na representatividade militar, tanto a nível de poder militar propriamente dito como a nível do valor e significado de se envergar uma farda no seio familiar e na sociedade. Um país altamente disciplinador e limitador da liberdade individual e de grupo, da expressão de ideias e opiniões e em que todos parecem pequenos robots amestrados, todos iguais e a remar na mesa direção. Um aspecto que gostei bastante foi a escrita de proximidade que podemos encontrar neste livro. Parece mesmo que nos encontramos sentados numa esplanada com José Luís Peixoto a partilhar vivências e experiências de uma viagem. Uma escrita simples mas, ao mesmo tempo, repleta de significado e que nos transporta para um espaço especial da nossa mente: o do conhecimento e reflexão sobre a condição humana.
Um livro que escolhi ler para o projecto "Herdeiros de Saramago" do bookstagram @literacidades.
"1 - Sou contra todos os regimes totalitários e ditaduras.
2 - Sou contra todos os regimes totalitários e ditaduras."
"Quase me sinto capaz de jurar que houve silêncio absoluto no momento em que entrei em Pyongyang (...) Em silêncio, silêncio as crianças com uniforme de pioneiros, calças ou saias azuis, camisa branca, lenço vermelho atado sobre o colarinho, a correrem. Homens, fardados ou não, a olharem para algum assunto, a pensarem em algum assunto. Mulheres atarefadas, a carregarem sacos (...) E o silêncio dos prédios das fachadas geométricas e cores tristes. Azul-cinzento, verde-cinzento, castanho-cinzento. E grandes letreiros de betão com frases altas, letras brancas sobre fundo vermelho, a dizerem algo com muita força (...) E a ausência de qualquer publicidade (...) Apenas as ruas limpas, a limpeza absoluta. Silêncio."
"Há uma encenação grande para quem visita, mas há uma encenação maior para quem está lá. Essa é que é a grande encenação ali. Porque aquelas pessoas vivem num país completamente fechado e é tarefa do Estado criar uma ideia sobre todo o mundo que existe lá fora, não é?"
O conhecimento que tinha acerca da Coreia do Norte era muito pouco, e devido a isso fazia só uma pequena ideia de como seria uma viagem de um estrangeiro pelo país. Acredito que quem tenha lido bastante sobre o assunto, não considere que este livro acrescente alguma coisa. Até porque o autor não faz nenhuma crítica à política do país, à forma como este é regido e à forma como o Estado obriga o povo a viver. O que se destaca neste relato é a viagem particular que o autor fez, ele descreve aquilo que vê, mas também aquilo que sente. E fá-lo de uma forma que eu senti ser muito sincera, tanto que foi como se tivesse feito aquela viagem com ele. Talvez o que mais me tenha impressionado é a sensação de solidão que o autor nos transmite por estar num país que não o dele, com tanta pressão e vigilância por parte dos guias. Como se estivesse prisioneiro, apesar de que fazer aquela viagem foi uma escolha. Outro aspecto que me surpreendeu foi o povo cantar e dançar (estilos muito específicos de música, claro), até incentivaram os estrangeiros a dançar com eles, e não imaginava tal, de todo. Acho que este foi o único aspecto positivo que retenho da leitura, porque o restante, deixou-me sempre muito desconfortável e revoltada, para além de que me dar muito dó pelas condições em que os nativos vivem: completamente cegos, ignorantes daquilo que se passa no mundo, a venerar um líder como se fosse deus e a acreditar que o seu país é um país desenvolvido. Numa entrevista, o autor refere que ali conheceu duas encenações, aquela criada para os estrangeiros, para dar a entender que o país é bom e maravilhoso (sendo que o Japão e os Estados Unidos da América são os inimigos e os assassinos, sempre!), e aquela que o Estado cria para o próprio povo, com todos os museus, monumentos e estátuas construídos sobre a perfeição dos grandes líderes, construídos sobre mentiras. E o mais triste é que as pessoas comuns não têm forma de conhecer a verdade, aliás, até se assustam com coisas extremamente simples, como ver pessoas com pele e traços diferentes.
Por vezes tenho de escrever algumas críticas negativas que me partem o coração e é o caso deste livro, a nova obra de José Luís Peixoto e intitulada Dentro do Segredo. O escritor viajou até à sociedade “mais fechada” e mais “repressiva do mundo”, a Coreia do Norte, graças às comemorações do centenário de Kim Il-sung, ocorridas em Pyongyang. O que prometia ser um fantástico relato desta experiência acabou por ser a maior desilusão da minha vida. Apesar de nem tudo ser mau, em conversa com uma das minhas tias, descrevi-lhe este novo livro como sendo um relato simples e vulgar de qualquer pessoa, sem grandes dotes para e escrita – e não foi isso que verifiquei no Livro, a única obra que li do José Luís Peixoto.
O que me prometia muita coisa acabou por ser um relato quase “de cabeça”. A sensação que tive ao ler este primeiro livro de literatura do escritor foi a seguinte: várias ideias estavam na cabeça do artista e para as tentar colocar todas em prática acabou por dar este resultado cheio de superficialidade. Essa superficialidade é evidente na quantidade de livros referidos pelo leitor, a informação deles foi colocada em demasia nestas páginas. A meio do livro o pensamento que me ocorria era “o que deu na cabeça deste senhor?”, “aproveitou o nome e reconhecimento para fazer algo com tão má qualidade?”. Nunca desisti do livro a meio por não gostar de fazer isso mas vontade nunca me faltou.
Dentro do Segredo oferece uma visão sem grande fundamento, sem descrições de qualidade. Unicamente pensamentos com pouca lógica e encadeamento que transformam o livro em algo vulgar, pronto a ser largado na estante. Nunca apreciei muito género de literatura de viagens e este desiludiu-me profundamente. O menos mau são os pequenos pormenores que se vão aprendendo e o desamor pelos guias que acompanharam o escritor em toda a viagem, o senhor e a senhora Kim. De resto nada mais se aproveita. Não fiquei maravilhado com isto.
* Joao..."Sem sorrir, com ar sério, a menina Kim disse que estava bom tempo porque se aproximava o aniversário do grande líder." A escrita de Peixoto é fluída e agradável e o livro lê-se num fôlego. Mas a obstinação inicial com a Coreia do Norte e com o desejo de a visitar não resulta em nada a não ser algumas breves reflexões sobre vida e a sobre a família que sabem a pouco..."
*David Pimenta..."Por vezes tenho de escrever algumas críticas negativas que me partem o coração e é o caso deste livro, a nova obra de José Luís Peixoto e intitulada Dentro do Segredo . O escritor viajou até à sociedade “mais fechada” e mais “repressiva do mundo”, a Coreia do Norte, graças às comemorações do centenário de Kim Il-sung, ocorridas em Pyongyang. O que prometia ser um fantástico relato desta experiência acabou por ser a maior desilusão da minha vida. Apesar de nem tudo ser mau, em conversa com uma das minhas tias, descrevi-lhe este novo livro como sendo um relato simples e vulgar de qualquer pessoa, sem grandes dotes para e escrita – e não foi isso que verifiquei no Livro, a única obra que li do José Luís Peixoto. O que me prometia muita coisa acabou por ser um relato quase “de cabeça”. A sensação que tive ao ler este primeiro livro de literatura do escritor foi a seguinte: várias ideias estavam na cabeça do artista e para as tentar colocar todas em prática acabou por dar este resultado cheio de superficialidade. Essa superficialidade é evidente na quantidade de livros referidos pelo leitor, a informação deles foi colocada em demasia nestas páginas. A meio do livro o pensamento que me ocorria era “o que deu na cabeça deste senhor?”, “aproveitou o nome e reconhecimento para fazer algo com tão má qualidade?”. Nunca desisti do livro a meio por não gostar de fazer isso mas vontade nunca me faltou. Dentro do Segredo oferece uma visão sem grande fundamento, sem descrições de qualidade. Unicamente pensamentos com pouca lógica e encadeamento que transformam o livro em algo vulgar, pronto a ser largado na estante. Nunca apreciei muito género de literatura de viagens e este desiludiu-me profundamente. O menos mau são os pequenos pormenores que se vão aprendendo e o desamor pelos guias que acompanharam o escritor em toda a viagem, o senhor e a senhora Kim. De resto nada mais se aproveita. Não fiquei maravilhado com isto"....
Vanita "...Mais do que um segredo, este livro é uma mistura de sentimentos. Há tanto para dizer que é difícil organizar o pensamento e estruturar uma opinião concertada, com alguma utilidade. Este não é um livro normal, é uma obra de não-ficção, quase mascarada de reportagem mas impregnada do cunho pessoal daquele que é um dos escritores portugueses mais reconhecidos da actualidade. Começa aqui a confusão: José Luís Peixoto não é jornalista nem pretende ser. Está tudo muito bem, não se desse o facto de este ser um livro que aborda uma realidade a que muito poucos têm acesso: a necessidade de informação credível e fundamentada é uma constante, um imperativo. Infelizmente, são demasiadas as situações em que o autor não está à altura do que se propõe. E não está por sua culpa mas porque, além de limitado quer em termos materiais quer de movimentos, não tem - e isso é evidente - a formação necessária para dar ao leitor o que ele precisa enquanto o acompanha nesta viagem turística à Coreia do Norte. Como escritor que é, José Luís Peixoto leva-nos com ele numa viagem de pouco mais de 200 páginas - impressas em folhas com uma gramagem bem superior ao usual - ao que o governo norte-coreano decidiu que podia ser mostrado a um grupo de cerca de 20 curiosos estrangeiros. Sem liberdade de movimentos, sem telemóvel, impedido de tirar fotografias, o autor descreve o que vê, mistura com o que sente e conta-nos o que viveu durante aqueles dias. E é uma surpresa descobrir que ainda se vive daquela forma algures no planeta Terra, dói adivinhar o que se esconde por detrás das fachadas apresentadas aos visitantes. Nenhuma dúvida quanto a isto. Neste momento, em pleno século XXI, existe um país onde o pior pesadelo de George Orwell, recriado em 1984, é uma realidade. Uma realidade. É chocante descobri-lo, é importante dar-lhe voz. A mistura de sentimentos que o livro provoca surge aqui: durante a leitura de "Dentro do Deserto" a nossa identidade passa a ser a de José Luís Peixoto. Temos fome quando ele tem fome, distraímo-nos quando ele está aborrecido, deixamos de tomar atenção quando o assunto não o cativa. Também dançamos com ele, provamos comida que não queremos de todo comer, sofremos com as saudades dos seus filhos. Isto é mérito do escritor, que brinca com as palavras quando as notas que tirou durante a viagem lhe permitem essa divagação. E eis que estamos perante uma das notas menos positivas: é fácil perceber quando temos o bloco de notas de José Luís Peixoto nas mãos. É ainda mais fácil distinguir os momentos que são escritos de memória e quase que se sente o quanto ela nos escapa por entre os dedos. Se até estes sentimentos são uma boa experiência enquanto leitor? Claro que sim. Mas resultam em frustração quanto àquele que é um dos propósitos do livro: relatar uma realidade acessível a um número limitado de pessoas. O desinteresse do autor resulta em ausência de informação e, por consequência, em perda para o leitor. É uma viagem que vale a pena fazer, é uma certeza. Mas fica o gosto amargo de se querer mais, de se esperar mais. Ainda assim, resta a convicção de que não saímos iguais deste livro. Não se pode ficar indiferente"...
Guilherme Martins..."José Luís Peixoto na sua paixão platónica por sentir as vivências da degeneração ao culto da personalidade levou-o para o interior de um país em que a regulação da economia é controlada pelo Estado. A ausência ideológica leva-o a opiniões superficiais, apesar de ter a vivência da viagem, apenas voltou com visões intuitivas do que é o quotidiano no país da Coreia do Norte..."
"Sem sorrir, com ar sério, a menina Kim disse que estava bom tempo porque se aproximava o aniversário do grande líder." A escrita de Peixoto é fluída e agradável e o livro lê-se num fôlego. Mas a obstinação inicial com a Coreia do Norte e com o desejo de a visitar não resulta em nada a não ser algumas breves reflexões sobre vida e a sobre a família que sabem a pouco.
Mais do que um segredo, este livro é uma mistura de sentimentos. Há tanto para dizer que é difícil organizar o pensamento e estruturar uma opinião concertada, com alguma utilidade. Este não é um livro normal, é uma obra de não-ficção, quase mascarada de reportagem mas impregnada do cunho pessoal daquele que é um dos escritores portugueses mais reconhecidos da actualidade. Começa aqui a confusão: José Luís Peixoto não é jornalista nem pretende ser. Está tudo muito bem, não se desse o facto de este ser um livro que aborda uma realidade a que muito poucos têm acesso: a necessidade de informação credível e fundamentada é uma constante, um imperativo. Infelizmente, são demasiadas as situações em que o autor não está à altura do que se propõe. E não está por sua culpa mas porque, além de limitado quer em termos materiais quer de movimentos, não tem - e isso é evidente - a formação necessária para dar ao leitor o que ele precisa enquanto o acompanha nesta viagem turística à Coreia do Norte. Como escritor que é, José Luís Peixoto leva-nos com ele numa viagem de pouco mais de 200 páginas - impressas em folhas com uma gramagem bem superior ao usual - ao que o governo norte-coreano decidiu que podia ser mostrado a um grupo de cerca de 20 curiosos estrangeiros. Sem liberdade de movimentos, sem telemóvel, impedido de tirar fotografias, o autor descreve o que vê, mistura com o que sente e conta-nos o que viveu durante aqueles dias. E é uma surpresa descobrir que ainda se vive daquela forma algures no planeta Terra, dói adivinhar o que se esconde por detrás das fachadas apresentadas aos visitantes. Nenhuma dúvida quanto a isto. Neste momento, em pleno século XXI, existe um país onde o pior pesadelo de George Orwell, recriado em 1984, é uma realidade. Uma realidade. É chocante descobri-lo, é importante dar-lhe voz. A mistura de sentimentos que o livro provoca surge aqui: durante a leitura de "Dentro do Deserto" a nossa identidade passa a ser a de José Luís Peixoto. Temos fome quando ele tem fome, distraímo-nos quando ele está aborrecido, deixamos de tomar atenção quando o assunto não o cativa. Também dançamos com ele, provamos comida que não queremos de todo comer, sofremos com as saudades dos seus filhos. Isto é mérito do escritor, que brinca com as palavras quando as notas que tirou durante a viagem lhe permitem essa divagação. E eis que estamos perante uma das notas menos positivas: é fácil perceber quando temos o bloco de notas de José Luís Peixoto nas mãos. É ainda mais fácil distinguir os momentos que são escritos de memória e quase que se sente o quanto ela nos escapa por entre os dedos. Se até estes sentimentos são uma boa experiência enquanto leitor? Claro que sim. Mas resultam em frustração quanto àquele que é um dos propósitos do livro: relatar uma realidade acessível a um número limitado de pessoas. O desinteresse do autor resulta em ausência de informação e, por consequência, em perda para o leitor. É uma viagem que vale a pena fazer, é uma certeza. Mas fica o gosto amargo de se querer mais, de se esperar mais. Ainda assim, resta a convicção de que não saímos iguais deste livro. Não se pode ficar indiferente.
Quer saber o que é viver na Coreia do Norte, um país completamente fechado ao exterior em pleno século XXI? Então este é o livro certo.
José Luís Peixoto levanta a pontinha do véu sobre o que é viver num país marcado por uma ditadura que, como o nome indica, dita tudo sobre a vida dos seus habitantes, desde os cortes de cabelo, ao retrato do líder pendurado na casa de cada um, àquilo que cada um sabe sobre o mundo lá fora, ocultando assim a realidade e contando apenas aquilo que lhes é conveniente que se saiba.
znaš ono kad čitaš knjigu pa usput označavaš stranice, citate na koje bi se osvrnuo... pa tako sam počela i s ovom dok, malo po malo, zapravo ispada da bih izdvojila sve.
količina nonsensa u sjevernoj koreji posve je nevjerojatna. život u sjevernoj koreji cijeli je uvrnut i meni jedva shvatljiv. iako je josé luís peixoto vješt, zanimljiv i duhovit pripovjedač, sama tematika ovdje odnosi većinu ocjene - imati uvid i pristup u sjevernokorejski život fascinantno je. kroz peixotov dvotjedni boravak u sjevernoj koreji, dobit ćeš osnovni pregled istina i laži u kojima ti ljudi žive. ja sam skroz pod dojmom potpunog apsurda.
À parte algumas gafes que poderão ter decorrido de uma revisão e edição apressada, este livro merece 5 estrelas. Se já me tinha apaixonado pela escrita do JLP em "Abraço", com este "Dentro do Segredo" esse amor só vem ser reafirmado. Antes e enquanto lia o livro, fui procurando algumas críticas que lhe haviam feito, mesmo aqui no Goodreads. Reparei que havia muitos leitores a queixarem-se da "falta de opinião" do autor, ou, por outro lado, da sua subjectividade alegadamente excessiva, pois não era isso que se pretendia de uma narrativa de viagens. Também havia quem dissesse que este relato da viagem à Coreia do Norte era vulgar e estava mal escrito. Pela minha parte, não compreendi nenhuma dessas opiniões. Se estavam à espera de um relato de viagem estritamente objectivo, penso que, antes de o lerem, já deviam ter chegado à conclusão que, vindo do autor que vem, só podia ser o mais subjectivo possível, cheio de metáforas e poeticamente narrado. Se esperavam algo objectivo, deviam comprar um guia de viagens (daqueles que se compram antes de se ir a qualquer lado desconhecido) e não uma narrativa escrita pelo JLP. Quanto à " falta de opinião", não dei por ela, muito pelo contrário - a ironia e o sarcasmo presentes em muitas das passagens não deixam margens para dúvidas sobre a sua opinião. Pessoalmente, adorei este livro, é o que tenho a reafirmar. Levou-me, enquanto leitora, a viver a viagem ao lado do autor/escritor/narrador/viajante, a sentir o que ele sentiu e a vivenciar as suas experiências de uma perspectiva muito íntima, tal como eu prefiro. Só pelas razões pelas quais JLP queria viajar para a Coreia do Norte, já vale a pena ter curiosidade. Quem gostar de livros escritos na primeira pessoa, na pessoa do autor, deve apostar no "Dentro do Segredo", sem dúvida!
Viajei até à Coreia do Norte sem nunca ter saído do sofá. (Provavelmente a forma mais livre de viajar até uma ditadura repressiva). Se não é essa a magia dos livros, então não sei.
A maior força deste relato é a quase ausência de julgamento. O narrador limita-se a contar as coisas como se passaram, desde as explicações mais gerais acerca da cultura e história da Coreia do Norte aos detalhes mais mundanos das suas preocupações pessoais. E se o cunho pessoal é mais que evidente (tem que ser, especialmente na literatura de viagens em que são tratados espaços que são culturalmente estranhos ao autor), nos momentos que contam, José Luís Peixoto encosta-se a um canto e deixa que os momentos e as imagens mais significantes falem por si.
Este conjunto de escritos não pretendem encapsular a verdade oculta da Coreia do Norte. Esperá-lo revelaria ingenuidade e, ao mesmo tempo, uma sede algo perversa do exótico e do incompreensível. Desta segunda, todos temos uma quota-parte; ela deixa, porém, de ser inocente quando transforma pessoas em peões de um jogo, em sacrifícios humanos a um fascínio pela crueldade. Aqui, evidentemente, não será o caso. José Luís Peixoto revela uma noção clara do que é a curiosidade saudável e humana, e do que é a exploração de um outro. O reconhecimento claro do autor pela humanidade compartilhada é a única coisa que se pedia pedir nestas páginas, e é isso que aqui se tem. Muito pouco de detalhes sórdidos, mas muita humanidade; muito dos detalhes pequenos que compõem mais um povo e uma cultura que qualquer relato do inaudito.
Posto isto, embora o livro ofereça uma explicação algo satisfatória, não consigo deixar de me desagradar do título – precisamente porque se deixa emprestar a um sensacionalismo barato que não se coaduna com o tom do livro.
Outra coisa que teria sido uma mais-valia (e digo isto como visualizadora assídua de dramas sul-coreanos) seria uma maior atenção ao que é a cultura coreana e o que é a cultura norte-coreana. Há um longo passado comum às duas Coreias, e seria interessante averiguar o que é que estas partilham ainda (para além da língua e do kimchi) para assim facilitar a análise das divergências. Esse é um estudo que me interessa muitíssimo, uma vez que é o único ponto do mundo que, partindo do mesmo, se partiu em duas sociedades distintas com uma certa dose de distopia: do lado da influência soviética, uma espécie de 1984; do lado de influência americana, uma espécie de Brave New World. Talvez uma redução simplista, mas, parece-me, com alguns pontos válidos.
"Alguns rapazes que estavam mais longe recuaram, alguns deram uma pequena corrida, mas ele continuou onde estava. Dei outro passo, ele continuou no mesmo lugar. Estendi-lhe a mão e ele, destemido, como se tivesse de ser rápido porque podia queimar-se, estendeu-me também a mão. Ainda não esqueci. Não sei se vou esquecer. A sua mão era preta. A sujidade subia-lhe pelo pequeno pulso e pelo antebraço que estava à mostra sob uma camisa de adulto com as mangas dobradas. Os seus dedos, finos, pequenos, estavam gelados. Escrevo estas palavras com a memória exata desse toque."
É difícil imaginar que, no mundo em que vivemos, haja um lugar secreto, fechado, tão escondido e tão isolado, que impeça, entre quem lá vai e quem lá está, o reconhecimento do outro como seu semelhante. É difícil conceber que, no mundo em que vivemos, exista uma realidade tão orwelliana como a que se vive na Coreia do Norte. Mas ela existe. E a forma como o autor, um dos poucos privilegiados a atravessar a fronteira, perceciona toda a experiência é inigualável. Os retratos da pobreza geral de um povo, que nada sabe do que existe fora das suas jaulas terrestres, cujos poucos símbolos culturais são totalmente dedicados à figura de um líder, de quem tudo o que se conhece são fantasias altamente duvidosas, todos estes elementos contribuem para um sentimento de desconforto e profunda tristeza que o narrador assume do princípio ao fim. Contudo, apesar de acompanharmos esta viagem com a mesma sensação, não deixa de ser espantoso como os norte-coreanos parecem felizes, em alguns momentos, em como tudo parece atingir uma certa harmonia no meio de algo tão cruel como uma ditadura altamente repressiva, o que me leva a constatar que a humanidade é, de facto, capaz de uma resiliência e de uma versatilidade incríveis. E a parabenizar o autor por, embora relatando uma viagem muito dura, ter conseguido distinguir esses pequenos laivos de familiaridade e solidariedade humanas, num sítio em que elas parecem escassear.
Não sabia muito sobre a Coreia do Norte antes de ler este livro. Pouco mais do que aquilo que se apanha nas notícias. E a verdade é que provavelmente qualquer livro sobre este país me teria deixado estupefacto, de tão singular que é. Há pormenores que são inacreditáveis e que parecem surgidos de outro século, não recente, mas de há muitos séculos atrás. Mais do que um "regime comunista", o relato do autor deixa transparecer algo muito mais próximo do culto dos faraós e outros governantes da história que foram colocados lado-a-lado com deuses em poder e autoridade. Pelo menos na versão oficial das coisas...
Por outro lado, não seria qualquer livro sobre a Coreia do Norte, escrito recentemente, a fazer-me considerar sequer visita-la. O relato de José Luís Peixoto fez-me pelo menos coloca-lo como uma hipótese, ao descrever a sua viagem e não apenas o regime que lá se vive. Fiquei com vontade de ver esses campos sem fim, de subir a esses montes e conhecer esse povo que dança, canta e ri como todos nós.
Adoro tudo o que sejam segredos, coisas escondidas e inacessíveis à maioria do comum dos mortais; nisto incluem-se receitas secretas e deliciosas, associações secretas como a maçonaria e países fechados ao mundo, como a Coreia do Norte. Do pouco que li de José Luís Peixoto antes deste livro, foi-me fácil perceber que não é um tipo de escrita que aprecie. Mas depois de ver uma entrevista na televisão sobre as várias viagens que já fez a este país, percebi que este era um livro obrigatório na minha estante - e que, provavelmente, a escrita seria diferente do seu registo normal. Não me enganei. É um livro magnífico. Com uma escrita deliciosa, com tudo o que precisa, nos tempos certos. É poética mas também pragmática; concisa e extensa; bem descritiva quando tem de ser. JLP conta-nos o que viu, mas deixa de lado muito do preconceito criado à volta deste país e de quem lá vive - reafirma muitas coisas, mas mostra-nos tantas outras, novas para a grande maioria das pessoas. É, no fundo, uma descrição de uma viagem, que serve também de viagem filosófica e de agradecimento pela vida que temos. De tudo o que temos por garantido. De tudo o que nos aprece mais corriqueiro nesta vida mas que, para quem está naquele lado do mundo, não é tão normal quanto isso. Para todos os curiosos, viajantes ou simplesmente para quem quer conhecer o desconhecido sem sair do sítio. Muito bom.
Estas 3 estrelas são, na verdade, 3,5. Este é o segundo livro do J. L. Peixoto que leio (o primeiro foi o Abraço), e apesar de se tratar de um registo diferente, um relato de viagem, não deixa de se reconhecer a escrita limpa e poética que o caracteriza e de que tanto gosto. O relato da viagem sabe a pouco, embora isso não seja surpreendente, tratando-se da Coreia do Norte. Ainda assim, gostei da forma como o autor conseguiu despir-se de preconceitos - ou, pelo menos, manter-se sempre desperto para eles - e escrever de forma factual, e ainda assim, tão informativa. É difícil imaginar como nos dias de hoje, pode existir uma sociedade como a da Coreia do Norte. Terminei este livro hoje, mas tão cedo não vou deixar de pensar naqueles 24 milhões de pessoas que ali continuam fechadas, literalmente presas, a maioria delas a ignorarem tanto. Eu passei a ignorar um bocadinho menos acerca delas, e quando os jornais noticiarem mais uma excentricidade do grande líder, vou-me lembrar como tenho sorte de viver num país - muito imperfeito, sim - mas onde se podem fazer as coisas mais simples sem ter que pensar duas vezes ou olhar por cima do ombro, como atravessar uma ponte, entrar numa loja ou usar o telemóvel...
Gostei muito deste relato. O autor com a sua escrita poética tem a capacidade de nos transportar para um outro mundo que está ao alcance de poucos. Admiro a sua coragem!
Noord-Korea gaat fors investeren in toerisme. Kim Jong-un, de huidige president, kondigde dit in 2015 groots aan. Noord-Korea als toekomstig toeristische trekpleister? Je kunt het je na het lezen van 'Achter gesloten grenzen' moeilijk voorstellen.
Noord-Korea prijkt al jaren bovenaan het lijstje van meest geïsoleerde landen ter wereld. In het voorjaar van 2012, toen het totalitair bestuurde land de honderdste geboortedag herdacht van de in 1994 overleden Kim Il-sung, de vader des vaderlands, kreeg José Luis Peixoto de kans om met een groepje Westerlingen, uiteraard onder streng toezicht, ruim twee weken rond te reizen in Noord-Korea. Een buitenkans die hij niet aan zijn neus voorbij liet gaan. Want Peixoto is, zoals hij in 'Achter gesloten grenzen' toelicht, gefascineerd door gesloten maatschappijen en totalitaire regimes.
Wat volgt is een reis die zich het best laat omschrijven als een schizofrene ervaring.
Een land dat zichzelf overschreeuwt, waar de leiders een goddelijke status hebben. De standbeelden van Kim Jong-un, Kim Jong-il, maar met name Kim Il-sung, stichter van Noord-Korea, zijn niet te tellen. Waag het niet om foto's van deze standbeelden te maken waarop ledematen ontbreken: de leiders dienen vereeuwigd te worden in vol ornaat. Evenmin toegestaan: het dubbelvouwen van een krant waarop een foto prijkt van de leiders. Een toerist die nietsvermoedend zijn krant in de prullenbak gooide, kwam ernstig in de problemen. Geen Noord-Koreaan kijkt vreemd op als het mooi weer is op de verjaardag van de leider. En, o ja, Kim Jong-il sloeg bij de opening van de eeste golfbaan tijdens een partijtje elf keer achter elkaar een hole-in-one!
Volledig afgesloten van de wereld lijken Noord-Koreanen dit daadwerkelijk te geloven. Of toch niet? Is alles wel echt? Bij een bezoek aan de staalfabriek van Chollima prikt Peixoto door de façade heen. Hij wordt rondgeleid door de studiezaal. Peixoto: 'Ik weet niet of mensen daar echt iets bestudeerden. Als het al zo was, had het er verdacht veel van weg dat ze slechts deden alsof'. Op vermakelijke wijze beschrijft Peixoto hoe absurde toneelstukjes worden opgevoerd in het 'laboratorium' van de fabriek. Toneelstukjes die de indruk moeten wekken dat een chemische proef wordt uitgevoerd. Peixoto: 'Dit soort enscenering zorgde ervoor dat alles wat ik tot nu toe had gezien en nog zou zien elke geloofwaardigheid verloor. Het was deprimerend te beseffen dat alles in scène zou kunnen zijn gezet.'
In 'Achter gesloten grenzen' toont Peixoto zich een scherp observeerder. De focus ligt op het dagelijks leven van de mensen in de gesloten samenleving die Noord-Korea is. Zijn aandacht gaat niet uit naar bijzaken. Zo kom je niets te weten over zijn reisgenoten. Sommige persoonlijke ervaringen trek ik wel in twijfel. Peixoto die tijdens karaoke in zijn hotel in Pyongyang 'I don't need your civil war' van Guns 'N Roses staat te zingen? Dat heeft het boek niet nodig.
Peixoto schond zijn belofte aan de Noord-Koreaanse autoriteiten om niets over zijn reis te publiceren. Gelukkig maar, want het leverde een boeiend reisverslag op over een land waar niets is zoals het lijkt.
José Luís Peixoto na sua paixão platónica por sentir as vivências da degeneração ao culto da personalidade levou-o para o interior de um país em que a regulação da economia é controlada pelo Estado. A ausência ideológica leva-o a opiniões superficiais, apesar de ter a vivência da viagem, apenas voltou com visões intuitivas do que é o quotidiano no país da Coreia do Norte. Para Luís Peixoto a viagem à Coreia do Norte é como na vida, ou seja uma experiência fetichista que ele teve pelo Estado da Coreia do Norte, só que no diário é pelas mercadorias que ele consome. Enfim, só resta dizer que a opinião subjectiva dele manteve-se antes, durante e depois da viagem, nota-se que poderá fazer mais mil viagens que terá na mesma as mil opiniões iguais. Enfim, a obra " Dentro do Segredo" não tem sentido cientifico, o único objectivo serão as best sellers, e a desonestidade intelectual de colocar ao serviço da população as meias verdades.