GENTE COMUM- UMA HISTÓRIA NA PIDE é um relato transcrito, revisto e editado, centrado nos primeiros vinte e cinco anos da vida de Aurora Rodrigues. Perpassados pelas vivências no Alentejo, que lhe permitiram granjear uma consciência de si e do mundo pelo contexto social, histórico e político, mas igualmente pelas sociabilidades estreitas- no âmbito da família, dos vizinhos e dos amigos- esses anos foram também marcados por duas tenebrosas prisões, como militante do MRPP. Em 1973 foi sujeita a dois períodos contínuos de tortura do sono de 16 e 4 dias, com 24 horas completas, intervalados apenas por uma semana, e espancada selvaticamente por parte dos agentes da PIDE-DGS. Dois anos depois, foi o COPCON que a prendeu de novo em Caxias, com várias centenas de outros militantes do MRPP, sob condições inauditas e de uma perigosidade incontrolável. Aurora Rodrigues resolveu contar, porque há deveres de memória. Para que não se construa sobre o esquecimento uma sociedade, para que não se desbarate a dimensão da esfera pública e para que não se perca o sabor da vida.
Nascida em 20 de Janeiro de 1952, em Vale da Azinheira, Minas de São Domingos, no Alentejo, e filha de um anarco-sindicalista, Aurora Rodrigues matriculou-se na Faculdade de Direito de Lisboa, em 1969/70, com 17 anos. Abordada pelo PCP, trabalha com o MRPP, fundado em 1970, pois considera este movimento mais abertamente contra a guerra colonial. Só aderirá formalmente depois de ver de perto o também estudante Ribeiro dos Santosser assassinado pela PIDE. Aurora foi presa a 3 de Maio de 1973, nas traseiras da Faculdade de Letras, após um meeting de estudantes, e levada para Caxias, onde é "do princípio ao fim mantida em regime de rigoroso isolamento". Magistrada do Ministério Público em Évora, Aurora Rodrigues aceitou em 2009 reconstruir a sua experiência de oposicionista à ditadura e de prisão pela PIDE. É atualmente procuradora da República Portuguesa.
"Acho importante contar o que me aconteceu, porque existe a ideia de que só eram presos e torturados grandes políticos, esquecendo-se que também o eram pessoas comuns, que era aquilo que eu era, sempre fui e ainda sou. Às vezes, leio aqueles livros sobre grandes figuras míticas que foram torturadas e não falaram, mas a verdade é que não foram só eles, muitas pessoas comuns que se opunham ao regime, por uma razão ou por outra, foram torturadas e conseguiram resistir, e nisso não há nada de extraordinário. Outras pessoas não foram capazes de tomar este tipo de posições, ou porque não se sentiram apoiadas o suficiente ou por outro motivo. O medo existe sempre."
Acho que para quem está interessade e quer saber mais sobre a resistência contra o Estado Novo, sobre o que era feito aos presos políticos pela PIDE, o que se passou durante PREC, entre outras coisas é mesmo um livro que vale a pena.
Já tinha visto entrevistas feitas à autora e até um documentário sobre o assassinato do Ribeiro Santos que me fizeram querer ler este livro. Penso que para quem não tem um interesse tão profundo assim, que esse doc e entrevistas são suficientes simplesmente porque o livro se repete um pouco.
trata-se de um relato real que esclarece muito sobre o itinerário político de aurora rodrigues e de outros militantes do seu tempo; é um abre olhos para coisas que não se imaginam. recomendo muito a leitura, mas sinto que alguém que não tem grande interesse pelo tópico pode acabar por se encontrar um pouco enfadado.