Colecção 120 Anos JN - Grandes Autores Portugueses
José Valentim Fialho de Almeida (Vila de Frades, 7 de Julho de 1857-Cuba, 4 de Março de 1911) completou o curso de Medicina na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, em 1875, mas nunca exerceu a actividade, entregando-se à boémia em Lisboa. Casou com uma lavradora rica do Alentejo, onde passou a última fase da sua vida, dedicando-se à agricultura. A sua obra é composta sobretudo por artigos de jornais, posteriormente reunidos nos volumes "Os Gatos" (entre 1889 e 1894) e "Pasquinadas" (1890). O carácter fragmentário da sua prosa revela-se em "Contos" (1881) e "O País das Uvas" (1893), considerado o melhor dos seus volumes de contos.
José Valentim Fialho de Almeida, known as Fialho de Almeida is a portuguese doctor and post romantic writer. Since 1893 he dedicated himself to journalism and literature.
His writting style is naturalistic, based on a strong perception of reality marked by strong emotions and city/ country side themes.
His published works include Tales (1881), Vice city (1882), The Cats (1889 and 1894), Pleasant Lisbon (1890), The Grape Country (1893) and Galiza (1905).
In this book of stories, one feels - a tragic and fatalistic atmosphere when describing the environments and characters of the rural and urban world. By the way, the urban environment is not very different from the rural one; it is the small provincial town with a closed mentality that is on the scene. This book marks the disinherited, hopeless loves and somewhat gloomy scenarios. Fialho intended to describe Portugal at the end of the 19th century. Characters such as “rats” (seasonal workers coming from Beiras to Alentejo), small landowners, ganhões, harvesters appear – typical of Alentejo; also appears, albeit quickly, the “Brazilian”, returned from Brazil, very present in the novels of Camilo Castelo Branco. In the first stories, the Alentejo countryside in the four seasons has vividly described; the greens, the flowers, the streams, the animals, the heat, are present in the tales “Pelos Campos”, “Ao Sol”, “As Vindimas”; they are luminous descriptions, where the gods of Greek mythology pervade. These are the exceptions to the initial comments. The stories of the disinherited happen – mainly in winter, mixing the dark, rainy and cold atmosphere of winter with the despair of the characters (“The Poor”, “The Son”, “Christmas Tale”, “The Old Woman”). Others transport us to surreal environments (“The Tulle King’s Cup”, “The Little Princess of the Roses”), fantastic (“Almocreve and the Devil’s Tale”), morbid (“The Cancer”, “The Raven”, “Three Corpses”). With a somewhat jocular atmosphere, they find themselves: “Divorced”, “The Dwarf”, “Tragedy in the Tree”, “The Antiquarian”, “The Child Jesus of Paradise”. In almost all of them, there is a generally hopeless love story (“Sevillan Lovers”, “Sad Idyll”), mixing naturalistic brushstrokes with ultra-romantic environments.
Comecei este livro de pé atrás, porque tinha lido há pouco tempo uma biografia de Eça de Queirós, que descrevia a forma como Fialho de Almeida passou de uma quase adoração inicial por Eça, para uma inexplicável crítica, que culminou na publicação de um artigo arrasador de críticas assim que soube da sua morte, e na ida ao seu funeral de gravata vermelha.
Eça não foi, certamente, um santo, e acredito-o capaz de algumas patifarias, mas custa-me imaginar algo que justificasse atitudes deste tipo. Tive, portanto, que fazer um esforço para separar a pessoa do escritor, quando comecei a ler O País das Uvas.
Não foi, portanto, má vontade, mas dos 20 contos incluídos neste livro, apenas gostei verdadeiramente de três, os mais “luminosos”, se assim lhes posso chamar, por oposição à negatividade de todos os restantes: Pelos Campos, A Velha e Idílio Triste.
Os outros 17, achei-os violentos (especialmente o Conto do Natal), mórbidos (quase todos, mas em especial O Corvo e Três Cadáveres) ou nonsense, mas sem que este viesse associado ao humor, que é o que, para mim, torna o nonsense aceitável (caso d’O Anão). Tudo isto vem associado a uma escrita excessivamente elaborada, talvez característica da época, mas que não contribuiu em nada para a minha felicidade.
A sensação com que fiquei foi a de alguém cheio de raiva e pessimismo, que despejou todas as suas frustrações no papel. Não lhe nego qualidade, mas não é, decididamente, escritor para mim. São três estrelas, pelos três contos que acima referi.
Fialho de Almeida, um dos melhores (e mais injustiçados) escritores portugueses de sempre, assina aqui uma antologia de contos, todos eles absolutamente deliciosos.
Muitos leitores tendem a não dar valor a este brilhante autor. Não sabem o que perdem. Quem pegar neste livro e o ler com toda a atenção que a escrita fialhiana merece irá experienciar uma verdadeira montanha-russa emocional.
O título "O País das Uvas" remete-nos para um ambiente alegre, talvez campestre, algo embriagado pelo sabor do vinho característico de Portugal, talvez um livro descritivo da beleza natural do nosso país. Esta obra é bem mais que isso. Na verdade, nunca li um livro que fosse tão capaz de desafiar e subverter as minhas expectativas da maneira que "O País das Uvas" o conseguiu. Ao ler o primeiro conto do livro, "Pelos Campos", um conto descritivo, pensei que fosse representativo da totalidade do livro. Enganei-me redondamente.
Este livro tem de tudo. Contos descritivos da natureza numa linguagem incrivelmente bela que chega a roçar o surreal, ou a descrição da beleza e da escuridão da cidade à noite; críticas a toda a sociedade, ricos e pobres, trabalhadores e ladrões, camponeses e citadinos, empregados e patrões, e, sobretudo, à religião em geral; histórias mundanas sombrias e totalmente pessimistas relatando a violência e crueldade da espécie humana e a sua incapacidade para o bem e para a solidariedade; narrativas otimistas mostrando que há sempre esperança e que a porta está sempre aberta para um novo começo, um renascimento, uma nova vida para todos nós; contos de fadas bizarros; e, por fim, histórias de amor. Escusado será dizer que isto revela a habilidade e grande versatilidade de Fialho de Almeida.
Estamos perante um livro que não tenta agradar a ninguém e que, sem qualquer medo das críticas e com uma ousadia pouco comum na literatura portuguesa, acabará por agradar a todos os apreciadores de boa literatura.
É difícil encontrar uma obra tão completa como esta, quer em termos do tom dos contos, dos seus temas ou da sua linguagem. Este é um livro que a todos pode satisfazer, quer sejam os apreciadores da delicada linguagem descritiva, romances e novelas, histórias surreais, críticas à sociedade, narrativas mórbidas, bizarras e violentas, contos esperançosos na condição humana, ou simplesmente quem queira apreciar boa escrita. Excelente, aliás.
Isto porque, apesar do já referido caráter variável dos contos, a escrita de Fialho de Almeida é consistentemente brilhante. O seu vasto conhecimento da língua portuguesa é evidente, e é revelado um grande domínio sobre o ritmo das suas frases, incrivelmente fluídas. Todos os contos têm um princípio, meio e fim, e são todos extremamente bem estruturados. Os seus diálogos são excelentes e credíveis, e o tom de um conto é consistente do princípio ao fim. Se se tratar de um conto violento e sombrio, mesmo que comece de forma calma e mundana, a linguagem utilizada mantém o leitor desconfortável e com a sensação de que algo está à espreita ao virar da página. Da mesma maneira, um conto mais otimista mantém sempre uma calma, uma beleza e um ritmo mais "quente" e confortável para o leitor.
"O País das Uvas" contém demasiados contos para serem todos aqui analisados em pormenor, mas vale a pena falar de um ou dois. De longe, aquele que mais me marcou foi "Os Pobres", um conto que narra a viagem, na noite de passagem de ano, de um sem-abrigo feio e algo deformado que acabará por encontrar uma nova vida, a aceitação e, de certa forma, a redenção. À chegada do dia seguinte, terá o seu objetivo parcialmente alcançado, estando a porta aberta para a total realização dos seus intentos. Um conto de uma extrema beleza e sensibilidade, com uma conclusão que simplesmente não poderia ser prevista, provando que todos nós temos a oportunidade de mudar a nossa vida e tornarmo-nos melhores.
E, já que falámos de um conto otimista e belo, falemos agora de um conto pessimista, negro e violento, cujo título, assim como o do livro, subverte a expectativa do leitor. Intitula-se a pequena narrativa "Conto do Natal", narrando a viagem de uma idosa que, numa noite fria, procura abrigo, acabando por testemunhar, estando escondida, o nascimento de uma criança que, de modo a não revelar o final do conto, direi apenas que terá um fim incrivelmente perturbador e de uma violência indescritível (exceto por Fialho de Almeida, obviamente), mostrando o pior que a Humanidade tem para oferecer.
Há muito mais a dizer sobre "O País das Uvas" e sobre as suas inúmeras mensagens e significados escondidos, mas receio que o leitor terá de os descodificar sozinho e, no processo, usufruir devidamente da genialidade da escrita de Fialho de Almeida, que aqui cria um verdadeiro clássico da literatura portuguesa.
Nestes contos não encontramos idealismo ou romantismo, antes uma observação da crueza da vida dos de baixo, que inclui o maravilhoso e a lenda. O espaço destas narrativas está quer no Alentejo (Vidigueira, Vila de Frades), ou Lisboa. Ou ainda espaço algum, poderia imaginar a acção em qualquer local ou qualquer tempo. Os meus preferidos são estes: - Os Pobres (pp.67-81). Um maltês é escorraçado em todos os locais, até encontrar uma alma e um corpo sedentos como ele. -A taça do Rei de Tule (pp.111-116). A história de uma taça que um rei deitou ao mar para que por ele ninguém mais voltasse a beber (e por boas razões). -Conto de Natal (pp.125-133). Um mulher testemunha um acto execrando na noite de Natal, provando que a boa vontade e as palavras se esvaziam nos actos. -A Velha (pp. 175-182). O meu predilecto. Uma mulher, numa altura da sua vida, faz uma escolha que a leva, anos mais tarde, a encontrar uma felicidade que já não esperava "Eu bem dizia aos senhores - esta história é um pouco triste" (p.182). - O Corvo (pp.199-203). A história de um pássaro que é metáfora da obsessão do ódio. -O conto do almocreve e do diabo (pp.233-248). Neste conto o Diabo é mais simpático que Deus, pois é mais atento e expedito, ensina homens e mulheres a viver melhor.
Este conjunto de contos tem um conjunto de palavras pérola que nós, os moderninhos do século XXI, já não usamos, e nós é que perdemos. Ficam algumas e não devemos esquecer que o dicionário é um bom amigo: imberbe (p.62), estrugir (p.255), galopim (p.235), zagala (p.196), canzoada (p.51).
Nesta compilação de contos, Fialho de Almeida varia muito de temas e apresenta contos bastante diferentes - uma mostra da versatilidade deste autor. Enquanto alguns, como "Três Corpos" e "O diabo e o almocreve", são cativantes (apesar de completamente diferentes), outros, como "Pelos campos" e "Ao sol" só podem ser descritos como uma penitência. A linguagem é por vezes cansativa, excessivamente floreada e sobreadjetivada. No geral gostei, no entanto.
Se alguns contos deste "O País..." até são bastante interessantes, outros há que, pelo contrário, são extremamente enfadonhos! A linguagem usada nesses contos também não ajuda, muito datada, formal e com demasiados floreados. Não conhecia nada de Fialho de Almeida, mas não fiquei com vontade de conhecer mais nada.
Não guardo grandes expectativas quanto a este livro porque não o conheço... E confesso que não tenho contos como leitura preferida. Mas alguma coisa me atrai ao livro, gostava simplesmente de conhecer.
Sinceramente, não gostei deste livro. Todos os contos (pelo menos 99%) acabam trágicamente, alguns de maneira absurda. Parece-me, a mim, que Fialho de Almeida tinha alguma "queda" para a tragédia, o que me faz não ter qualquer curiosidade em ler mais nenhum livro dele.
O conto "Três Cadáveres" é deveras genuíno no desvario febril e na impulsividade da neurose. Porém os contos restantes são, no geral, aborrecidos e desinteressantes.