“Ghandi afirmou que a grandeza de uma nação e o seu progresso moral podem ser avaliados pela forma como se trata os seus animais.”
Peter Singer faz trabalho de campo com 3 famílias*, representantes de três tipos de dieta diferentes (Dieta americana padrão, Dieta Omnívora Consciente e Dieta Vegan. Ao longo dos capítulos, faz apartes acerca de imensos tópicos como o estado de arte da indústria pecuária americana com foco na criação bovina, suína e de aves, a produção de ovos e leite, peixe e marisco, comida orgânica e diferentes certificados e legislações (ou ausência delas) existentes, OGM, comércio justo e a ética subjacente ao consumo de animais - o seu impacto em termos ambientais, de saúde e sofrimento infligido nas cadeias de produção quasi fordianas. Para Singer e para diversas pessoas - comer é “um ato político” e votamos com o nosso dinheiro as realidades que queremos perpetrar.
Pontos fortes:
Repensar a ética. É propulsor de um movimento de maior consciência alimentar, que se ramifica em questões diretas de sofrimento dos animais, destruição de ecossistemas, poluição, sobre-exploração dos recursos e embrutecimento moral das gerações vindouras.
A ética não deverá ser utilitária - Deve assentar em pressupostos qualitativos, numa razão vital (conceito de Gasset), além do mecanicismo e lógica brutal ocidental utilitária.
Deve ser um novo patamar de consciência, ou uma consciência desperta. Uma ética prática, verdadeiramente ativa e reflexiva. Deve ser um eco interior, uma resposta clara, um chamamento, um dever - de empatia, compaixão, união com a natureza. A ética como terreno profunda e maravilhosamente humano. Uma anomalia feliz da natureza, uma ordem no caos, mais que um mote abstrato ou um entretenimento dialético de filósofos separado da vida real, da interpenetração dos mundos – do espírito e das práticas. A ética não deverá ser um luxo, mas a nossa natureza.
A ética atravessa a vida e, parafraseando a máxima de Sócrates , “uma vida não examinada não merece ser vivida.”
Viver eticamente é viver atento a cada momento, cada movimento, acção ou pensamento. Filtrá-lo com a razão e o coração, analisar o panorama mais vasto e agir - para o menor mal/dano possível e para o melhor bem possível (nas circunstâncias próprias e possíveis).
Critérios ideais para uma Alimentação Ética:
1) Transparência (devemos ter acesso facilitado à origem da produção, condições e certificados de saúde e de bem-estar animal)
2) Justiça (o preço dos produtos deve refletir todos os custos de produção, sem custos indiretos para terceiros)
3) Humanidade (infligir o menor sofrimento possível e garantir que os animais expressam a sua natureza – por exemplo, que os frangos possam ter espaço ao ar livre para bicar o chão, as vacas tenham pastos verdes e os porcos não estejam confinados em gradeamentos).
4) Responsabilidade social (salários justos e bem pagos, principalmente nos trabalhos mais duros como a cadeia de abate. Optar pela etiqueta de Comércio Justo que incentiva grandes desenvolvimentos transversais.
5) Necessidades (ter atenção às nossas necessidades reais permite que não haja sobre-exploração dos recursos. Devemos perguntar-nos o que realmente precisamos de consumir e se não podemos, muitas vezes, substituir ou reduzir. A ética está além do mero hábito, facilitismo ou até sabor, num panorama realmente vasto)
Dificuldades:
- No rastreamento claro da proveniência de todos os produtos, peixe e carne… informação incompleta muitas vezes. Necessidade de investigação profunda, ramificações imensas entre produtores primários, abate, distribuidores e corporações.
- Muitas pessoas não conseguem ultrapassar a dimensão hedónica da comida e a tradição, mesmo que tenham consciência racional da desumanização desta indústria. Conformam-se ao sistema passivamente e muitas vezes para se incluírem num grupo, conveniência (o que existe nas lojas) e dificuldade em transitar para um novo regime alimentar sozinhos. Toda uma discussão pode começar aqui. E não devemos catalogar alguém como sendo mais “moral” do que outra, com base somente no seu regime alimentar, claro, mas como tendo pelo menos uma orientação de consciência mais aguda e mais ampla, em relação à natureza.
Pontos fracos:
Escopo pouco abrangente: As realidades culturais descritas são os EUA e a Europa, essencialmente. Vai de encontro ao público alvo, mas carece de abrangência histórica e etnográfica, bem como de um maior número de casos positivos, relativo à criação animal. Poderá ser acusado de propaganda veganista, há um enviesamento no número de casos negativos, e poucos exemplos de casos verdadeiramente equilibrados do ponto de vista ético, de saúde e ambiental (Apesar de Singer fazer referência a alguns, na América, penso que poderia escrever também sobre a realidade Europeia das grandes cadeias de produção, bem como de outros países). Há o perigo de julgar as partes pelo todo. A atualização deve ser constante, temos de ter em conta o contexto em que este livro está demarcado.
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Brain Storming:
Até que ponto é a Cultura coercitiva? E o mercado? As circunstâncias financeiras e a própria estrutura laboral, que muitas vezes nos coloca em modo sobrevivência e não permite tempo para pensar, processar, tantas questões prementes. Contra os ditames sociais, a coerção tantas vezes existente para estarmos incluídos no status quo alimentar - O meu prazer gustativo não vale o sofrimento de um animal consciente (continuo a comer peixe, e tal deve-se a uma menor proximidade filogenética).
Relação corpo-mente – relação religiosa com a comida, comum nas religiões ocidentais, conceitos de sujidade e pureza - São instrumentos heurísticos interessantes para um paralelismo moral. E por falar em moralidade, a zona no cérebro que se ativa por um estímulo de repulsa física (visto em RM) é a mesma que se ativa com a repulsa moral (Insula). Tal poderá explicar porque alguns vegetarianos conseguem converter-se por completo, sem deslize, a uma dieta sem carne (e peixe, nalguns casos).
Carne criada em laboratório – documentário Netflix “O futuro da Carne”
Mais que a informação, olhar é premente – ver a relação de um vitelo com a sua mãe, a consciência inegável, a rica vida emocional
Não comemos cães, porque comeríamos vacas ou porcos? Têm que ver com a distância que existe entre nós e a sua criação e na maior barreira – o preconceito de que estes animais são mercadoria, comida.
*Anexo Estrutura/Síntese do livro
3 famílias:
1) Jake e Lee (Dieta Americana Padrão)
O preço do frango barato, Wal-Mart, custos para terceiros
“ O culto dos preços baixos enraizou-se de tal forma na cultura dos consumidores que os grandes descontos deixam e ser novidades. são direitos” (John Dicker, The United states of Wal Mart)
(…) na Wal-Mart as pechinchas escondem custos para os contribuintes, para a comunidade, +ara os animais e para o ambiente.”
Ovos (gaiolas), quintas industriais, poluição
Alguns dados: 50000 porcos - o equivalente a 225kg diários de excrementos que inevitavelmente sofrem escoamento natural e contaminam efluentes e lençóis freáticos…
Carne e leite – hormonas e antibióticos,
Confinamento - (Na América: 90%dos porcos são criados em pavilhões, não há lei federal de “bem estar animal” (em vida), somente alguma legislação relativa ao transporte e abate (que muitas vezes é negligenciada, basta pensar nos frangos em linhas de abate industriais, cujos pescoços não são devidamente cortados e passam à fase seguinte: uma bacia de água a escaldar… ou porcas em gradeados demasiado pequenos para se mexerem, no sistema de engorda e gestação, e nos leitões castrados sem anestesia para uma carne com sabor mais apetecível ao paladar humano.
2) Jim e Mary Ann (Omnívoros criteriosos)
Comida orgânica, certificados
Peixe e marisco – Captura acidental e danos no leito do mar (redes de arrasto)
Salmão – viveiros – corante artificial para dar cor rosada (natural no seu homólogo selvagem devido ao consumo de Krill)
Antibióticos e pesticidas no mar devido ao confinamento que propicia a propagação de parasitas entre peixes (159)
Rótulo “Eco-worse”
Poluição sistemática dos fiordes e sobre-exploração dos recursos: o salmão é um peixe carnívoro e juntamente com a ração come o equivalente ao triplo do seu peso em peixe.
Comer local e sazonalmente 178,183
Comércio justo (190)
Flo – Fairtrade Labeling Organization International
Rótulo – obrigatoriedade de: salários decentes, normas de saúde, segurança e ambiente, possibilidade de formação de sindicatos, alojamento se necessário, proibido trabalho infantil ou forçado. Lucro adicional - em benefício dos trabalhadores ou comunidades onde eles vivem – a FLO exige “melhorias contínuas “nas condições de trabalho, na qualidade do produto e sustentabilidade do ambiente.
3) JoAnn e Joe ( Vegan)
Comida orgânica – 237, 257,262
a) Saúde (sem hormonas, antibióticos ou herbicidas
b) Ambiente – mantém a qualidade do solo (reutiliza excrementos para fertilização), alimenta a biodiversidade, diminui poluição, menos energia envolvida
GM – bom e mau – 254… ex: manipulação do arroz, por investigadores alemães e Suíços, (“arroz dourado”) para produção de betacaroteno, precursor da Vit A ( deficiente em muitas populações do terceiro mundo e responsável pela cegueira em crianças com menos de 5 anos (mais de 2,8 milhões de casos).
Perigo de polinização de espécies selvagens, cruzamento génico com repercussões impossíveis de prever (como uma planta resistente a insetos que se torna uma praga no seu habitat).
Veganismo
Argumentos pró – 275, 277, 278, 279
“Criar animais com base numa alimentação de cereais continua a ser um desperdício. Muito longe de aumentar a quantidade total de alimentos disponíveis para consumo humano, contribui para reduzi-la. “;
(…) A floresta tropical amazónica, por exemplo, continua a ser desbravada a uma taxa anual de 25000 km2 (…) para a criação de gado e cultivo de rebentos de soja para alimentar animais. Isso traduz-se em 11 acres derrubados por minut0”
“No caso dos porcos, são necessários cerca de 6 quilos para produzir um quilo de carne sem osso “. Para frangos: “ (…) a taxa de conversão cereal-para-carne em 3 para 1, incluindo ossos e água”.
Quanto à água utilizada: relatório de Chapagain e Hoekstra (publicado pela UNESCO em 2004) –“ apresenta um consumo medio global para a carne de bovino de 14000 litros de água por quilo, com uma média de 11500 litros para a carne produzida nos EUA”
Argumentos contra – défice nutricional? Singer não fala de questões relevantes como o défice de OMEGA 3, se bem que existam suplementos para esse défice, bem como B12 (mesmo omnívoros podem ter deficiência porque a maioria do gado alimenta-se à base de cereais e não de pasto verde).
Falácias Carnívoras (289-291)
a) "Não temos deveres para com os animais"
b) "Defesa “Benjamin Franklin” (citar) ou a ordem natural das coisas/ cadeia alimentar/ domínio “natural”
“Porém, este ´argumento da natureza`, pode justificar todas as espécies de iniquidades, incluindo o domínio dos homens sobre as mulheres e o abandono dos fracos e doentes na berma da estrada. Porém, mesmo que os argumentos fossem consistentes, só funcionariam com as pessoas que ainda vivem numa sociedade de caçador recolector, pois a maneira como criamos os animais hoje em dia não e absolutamente nada ´natural”.
c) Prática Cultural ou sabor (292)
“O grande sofrimento infligido aos animais pela agricultura industrial não prevalece sobre uma possível perda de satisfação gastronómica causada pela eliminação na dieta de carne de animais criados em quintas industriais”
Quanto a uma diferença de espécies como argumento? É puramente especismo, o argumento de nível de inteligência ou grau emocional é insuficiente
“E também não é o potencial dos recém-nascidos para desenvolverem essas capacidades que marca a distinção moral crucial, porque ficaríamos igualmente chocados com qualquer pessoa que propusesse um tratamento igual para os seres humanos nascidos com deficiências intelectuais graves e irreversíveis. No entanto, se não temos em consideração diferenças de inteligência, capacidades para os nossos fins, como podemos apontar as mesmas características para justificar a exploração de membros de outras espécies? (…) não se baseia em distinções morais válidas. É um sinal de especismo, um preconceito que prevalece porque é conveniente para o grupo dominante, neste caso não brancos ou homens, mas seres humanos.”
Domesticação e exploração permite existência desses mesmos seres mas tal compensa todo o sofrimento envolvido nas cadeias industriais?
“E se nos abstivermos de derrubar florestas e usar a terra desflorestada pra criar gado, isso significa que beneficiámos os animais selvagens de uma forma que nos dá o direito de os matar e comer? Parece uma nação mais poderosa a dizer a outra mais fraca: Poderíamos matar-vos a todos e ficar com a vossa terra, mas como decidimos não o fazer terão de ficar agradecidos e trabalhar nas nossas plantações.” (306)