Como sempre, preciso ressaltar a minha negligiência a respeito dos históricos de leitura. Uma página no word, uma caneta, um pedaço de papel e outras quinquilharias é o que tem me acompanhado desde que decidi conhecer a escola estoica, não apenas por um exercício intelectual, mas também para alimentar o meu maior propósito de vida: viver a melhor vida possível.
Primeiro, apresento o Epiteto (Epicteto): ele foi um filósofo... um escravo filósofo, um ex escravo filósofo. Quando ainda "escravo filósofo", tal aspecto fazia com que seu amo (também um ex escravo já liberto) lhe desse cruéis provas de sua atual condição de escravo. Após a sua libertação, fora expulso de Roma (como também foram outros filósofos) pelo édito domiciano (um decreto que baniu o cristianismo em Roma). No que hoje é a parte ocidental da Grécia, então, Epiteto consolida a sua escola. Os ensinamentos (ou lições) neste livro foram reunidos por seu discípulo Arriano, através das aulas do filósofo, visto que o único recurso utilizado por Epiteto foi a oralidade.
Sobre a estrutura do livro nessa edição, o texto é separado em "lições" de um parágrafo ou no máximo uma ou duas laudas. É bem pequeno, as lições vão de 1 a 51 (em inglês e em português, separadamente); prefácio de Lúcia Helena Galvão Maya; a linguagem é acessível e há algum suporte com notas de roda pé. Quanto ao conteúdo, obviamente alguns exemplo não fazem muito sentido para o nosso tempo, mas nada que não possa ser compreendido e até mesmo extrapolado para o que for mais factível em nossa época. São lições de grande valor e que se relacionam com uma vida de liberdade interior, de busca pela sabedoria e compreensão a respeito do que nos acontece (algo como "a oração da serenidade" atribuída a São Francisco de Assis).
Quanto a minha experiência de leitura, ocorreu algo curioso. Acredito que por essa intenção de considerar uma aplicabilidade, mesmo diante daquilo que não me parecia "aplicável", decidi não alimentar algumas críticas e duvidar da minha abertura ao aprendizado... até que li o texto de alguém descrevendo exatamente o que eu havia pensado: a impossibilidade de aplicação em virtude de sistemas econômicos que se impõe, tanto e de diferentes formas, atravessando as nossas vidas. Então, entendi que o exercício cognitivo e, antes de tudo, filosófico, pressupõe a crítica ou, pelo menos, a constatação de que aquela não é a sua filosofia de vida (em totalidade). Essa constatação foi benéfica até mesmo para, nela própria, aplicar uma máxima estoica: tomar para si o bom proveito das coisas que nos acontece. E o acontecimento dessa leitura foi de muito bom proveito mesmo. E, depois, uma filosofia de vida é (e deve ser) tomada como uma totalidade; mas, a sério, olhando de fora, existe alguma delas que daria mesmo conta de todos os apectos que se complexificam em uma existência? Podemos exigir algo assim?
Sobre os ensinamentos, fiz questão de rescreevê-los em texto corrido, com as minhas próprias palavras e trechos de citações diretas das lições. Isso rendeu 5 páginas, o que não vou submeter aqui na resenha, mas faço questão de dizer porque imagino que é um exercício interessante para quem deseja revisitar algo que lê com o intuito de apreender ensinamentos. Embora as lições não sejam necessariamente repetitivas, umas reforçam outras, então foi interessante sair da estrutura de tópicos para um só texto que as conectam.
Deixarei registrado APENAS alguns conceitos e orientações, de forma muito simplista, mas possível de categorizar dessa maneira: "domínio e liberdade", "aparências/interpretação/imagem x realidade/objeto concreto", "natureza das coisas":
O que está sob o nosso domínio: opinião, objetivo, desejo e aversão. Todo resto é dependente e restrito, portanto, não está livre para que seja nosso.
E quando tivermos dúvidas sobre se algo está sob nosso domínio ou não, o que fazer? Para saber o que está ou não sob o nosso poder, devemos, em primeiro lugar, ter em perspectiva que o que vemos/pensamos sobre é a imagem de algo e não a coisa real; ou seja, a nossa interpretação do objeto e não o objeto concreto. Esse é o primeiro ponto.
Mas, tomando, por exemplo, nossos desejos e aversões que nos parecem tão instintivos ou, pelo menos, modulados por tantas influências que nem sempre ocupam o lugar do que está sob o nosso domínio, o que fazer?
Bom, para que nossos desejos e aversões tornem-se para nós coisas que estão sob nosso domínio, novamente precisamos ir exercitando a perspectiva da imagem e, com isso, compreender o que é a imagem e o que é a natureza das coisas. Um irmão, por mais que o ame e o queira vivo, é um mortal; meu objeto favorito é apenas um objeto (em si, em sua natureza). E por aí vai... Em resumo: “não exija que as coisas acontecem como você deseja; mas deseje que aconteçam como devem acontecer”.
A natureza das coisas, que é a qual devemos estar é harmonia, é aquilo que compreendemos de forma geral (ou seja, que todos concordam). Por isso, é preciso lembrar de como compreendemos as coisas, como ela nos afeta/nos parece quando essas ocorrem com o outro. E, nessa perspectiva, aplicar o mesmo para nós próprios.