"O mundo não acabou, afinal. Mas o mundo que eu me sentia bem em viver sim. Em um piscar de olhos."
[I: Sobre o conjunto da obra]
[II: Sobre o Primeiro Volume]
I. Eden
Eu sinceramente não consigo entender o motivo de uma obra tão vasta, tão redondinha, ser ignorada e preterida pelo grande público que consome mangá. Na ascensão relativamente recente dos quadrinhos japoneses, a última, alavancada pelos três grandes seinen's (Vagabond, Vinland Saga, Berserk), continuou e continua mantendo Eden às escondidas. Eden é melhor que, no mínimo, dois desse trio. E olha que Vagabond que me fez gostar de ler mangá. Mesmo dentro do próprio gênero da ficção científica japonesa, com Ghost In the Shell, Planetes, Sidonia no Kishi e outros, Eden fica escondido. Mal entra nas listas. Diminuindo ainda mais o escopo, nem no sub-gênero do Cyberpunk — que o Endo Hiroki demonstra compreender mais do que certos contemporâneos que acham que o Cyberpunk se resume a Chuva & Neon — você ouve falar de Eden.
Eden é um épico, fechado e planejado, que ao longo de seus dezessete volumes, cruza gêneros, demografias, e até área das ciências humanas e exatas com uma finalidade louvável: contar uma boa história. Atravessa filosofia, religião, física teórica, virologia, conflitos étnicos, políticos e sexuais, para falar, como toda grande obra, sobre a condição humana e a interação humana.
Quer mais? A discussão acerca das pandemias e vírus, cada vez mais frequentes e reincidentes desde o Covid, é um dos temas centrais da obra, de pasmem, 1998! Singularidade, existencialismo, eurocentrismo, brutalidade e sofrimento causado pela Guerra às Drogas aqui na América do Sul são só mais alguns pluses.
Eden apesar de ser uma obra com que você passa pelas páginas facilmente, dado o encadeamento envolvente, é denso; exige e desafia o leitor. Se o escopo já parece impressionante com tudo o que citei, há outra camada que envolve o gnosticismo e a tecnologia (razão pela qual acompanhamos três gerações de uma família específica [com nomes simbólicos como Elijah, Enoah, Hannah] em diferentes etapas e tempos). Você é inserido no mundo; você apresenta-se à narrativa, e não o contrário. Destaco a coragem do Endo Hiroki, tanto na construção quanto no worldbuilding especulativo/religioso.
Estamos no apocalipse, e por isso o autor não alivia nada. Não se censura nem na escrita nem no desenho. Eden equilibra suas partes mais especulativas e próximas da ficção científica com temas sérios e caros: vemos casos sobre os Uigures no Leste Europeu, tráfico de drogas e prostituição na América do Sul, conflitos do Oriente Médio e o conflito hindu-islâmico na Índia.
O principal conflito político criado pelo mangá também merece atenção: as ações da Própatria (Gnostia), uma federação originaria da OTAN e da ONU, mas que logo englobou ambas, e agora praticamente controla as Américas, Japão, Europa e algumas partes da África. Esse novo gigante imperial mundial visa a adesão de todos os países do mundo, visando alcançar a paz global em meio ao caos. Não surpreende que a organização, levantada durante um período drástico na humanidade (a Pandemia que você verá já no primeiro capítulo) seja internamente suja, tirana e dominadora.
De qualquer jeito, na Agnostia (nações ou comunidades marginais não-membros da Própatria) onde percorreremos nos primeiros volumes, as coisas também não vão bem, e países como Paraguai, Peru e Índia sofrem as consequências do tráfico e conflitos de guerrilhas armadas, chegando perto de um estado anárquico e fraturado pelas guerras internas.
Presenciamos táticas de guerrilha, conflitos entre supremacias éticas, guerras ao tráfico, combates de faca, mas tudo isso envolto em elementos de ficção cientifica, então temos também combates entre hackers, de criptografia e programação, super-soldados e avançadas tecnologias de combate. Hiroki também balanceia ação frenética com contemplação.
Inseridos nesse épico global, ainda temos uma gama incrível de personagens principais e secundários, consistentes, atrativos, inteligentes e bem desenvolvidos.
Reitero sempre caráter de Eden como um Épico por haver um todo por trás de tudo, um final bem amarrado, um bom final, que faz necessário tudo que vem antes. O primeiro capítulo é amarrado com o último capítulo, dezessete volumes depois, de um jeito muito particular, envolvendo um disco de vinil e uma dança — digo só para te deixar com um gostinho de ler. O primeiro volume, por conta disso — com exceção do ótimo primeiro capítulo —, não representa a série em sua totalidade. Eden se sobressai na corrida longa. Possui uma construção um pouco lenta, uma mudança de foco brusca, exposição e diálogo certas vezes engessados, e o visual de início ainda não está maduro. Mas ainda sim, é superior a muito do que se tem por aí. Eu ainda não li um primeiro capítulo que se equipare às cem paginas redondinhas, surpreendentes, que é o primeiro capítulo de Eden.
O desenvolvimento do enredo de toda a série é ótimo, os volumes vão seguindo um bom ritmo e a linha de acontecimentos que faz com que você queira sempre ler um pouco mais. A mudança de foco e personagens ocorrerá de tempos em tempos, mas isso possibilita desenvolver e mostrar cada faceta da história, é o Endo girando o cubo-mágico para cada parte receber a sua luz. Você acompanhará o desenvolvimento do próprio autor como artista visual, e também como escritor, já que gradualmente ele vai despertando seu gênio-magnânimo; a reta final de Eden é uma — quase — odisseia no espaço.
Você tem que estar disposto a mais do que apenas ler ''passando os olhos'', a obra deve ser observada com muita atenção, pois há muito mais detalhes que enriquecem a leitura. Eden eventualmente lida com praticamente todos os aspectos da civilização humana e, ocasionalmente, pula até de gêneros para um melhor foco em diferentes tópicos. Em um arco, temos uma narrativa com molde de romance de formação, em outro um drama, ou uma narrativa policial, uma guerra às drogas, e até uma comédia sexual com uma prostituta. À margem das explicações, muitas das mensagens e conexões ficam a cargo do leitor para serem interpretadas. É uma leitura completa, para se investir com algum tempo e sentir aquela imersão romanesca.
II. Volume 1
O primeiro capítulo de Eden começa contando a vida do jovem casal Enoah e Hanna — uns dos primeiros a serem descobertos como imunes à epidemia —, a maneira como vivem, como lidam com aquele “apocalipse”, como se sentem em relação ao destino incerto da humanidade. Começa quase como fosse um slice-of-lice, mas já percebemos algo de diferente quando o vírus é utilizado como uma doença que causa segregação, semelhante ao lepra ou o HIV.
Uma das partes mais interessantes no prólogo, se não a parte mais interessante, são as personagens. Um gostinho do que virá a ser a obra. Eles são construídos apenas para, no fim do capítulo, que é quase uma one-shot (conto), serem totalmente desconstruídos. Inverte-se os valores quando cada uma das motivações internas vão sendo reveladas. O paraíso se desfaz tanto para os protagonistas quanto para nós.
Por exemplo, há o Layne. Um cadeirante, homossexual que amava o melhor amigo, pai de uma das duas crianças que hoje ele cuida. Ou, o Chris, um militar que está do lado de fora “fazendo o bem” e tentando salvar o mundo. Ou, o Ennoia, o filho do Chris, que seria o protagonista bondoso hipotético do prólogo, que deseja semear vida naquele mundo morto.
Apesar das aparentes boas intenções destes três, o primeiro se revela um falso cordeiro, o segundo um falso herói e o próprio Ennoia, o mocinho, o personagem com quem deveríamos nos apegar, demonstra um embotamento de empatia quando ordena um massacre no final. Age tão frio quanto o robô que comanda no fim do prólogo.
A história do primeiro volume muda, então, de foco. Se acostume, que isso será comum. Um salto no tempo e somos apresentados ao filho de Hannah e Enoah, Elijah. Fora do Eden, anda pelo mundo sendo pela visão dele que somos pela primeira vez apresentados ao mundo além do Eden (Centro de Pesquisa) do prólogo; apresenta-nos a Própatria e os Nômades.
Elijah é acompanhado pelo robô, do pai, que reconstruiu, e mundo que ele percorre é um mundo em que civilização foi sendo tomada pela natureza, com a parte da humanidade afetada pelo vírus já há mortos há tempos mas ainda ali, como cascas vazias, é o efeito do Closer. A viagem de Ellijah o faz fazer diversos questionamentos sobre o mundo. São pequenas cenas de sobrevivência, com ele procurando por roupas e alimentos. Ele é um garoto inteligente, conhece o mundo em que vive, mas ainda muito ingênuo, ingenuidade que não vai durar muito, visto que logo precisará viver entre guerrilhas armadas, mercenários, prostituição, tráfico de drogas e muita morte.
Durante a passagem do tempo do prólogo para o segundo capítulo, Enoah, seu pai, virou o grande cabeça por trás de todo o tráfico de drogas na América do Sul. Mais uma virada na personagem inicialmente apresentada no prólogo.
Enoah é raptado, e somos apresentados ao grupo de guerrilheiros, personagens que conosco percorrerão alguns arcos. Sophia, uma super hacker com o corpo completamente mecânico e modos maternais, Kenji, um quieto e tímido soldado (que rende as melhores cenas de ação no mangá), e alguns outros. Eles estavam tentando cruzar a fronteira dos países da Gnostia e Propatia sorrateiramente. Nesse cenário, Elijah, que antes era só um garoto mimado pelo pai, agora uma mistura de narco-traficante com mafioso-chefe de estado, troca a lente pela qual costumava observar o mundo. Ele é mal tratado, linchado e sofre todas as consequências de ser o filho do praticamente chefe do crime organizado na América do Sul, e o primeiro volume, com seus altos e baixos, com sua frequente mudança de foco, acaba com os pés no primeiro arco do mangá: Conflitos militares na travessia dos Andes.