Tenho, de há muitos anos, um profundo interesse pela cidade do Porto, sobre a qual possuo uma modesta mas entusiástica biblioteca de umas duas centenas e meia de obras. Vem isto a propósito de dizer que a história de Fanny Owen não me era desconhecida antes da leitura desta obra. Na verdade, a Vila Alice - morada da família Owen em Vilar do Paraíso - ficava a escassos 3 quilómetros do apartamento onde vivi os primeiro 4 anos de casado.
Tinha por isso natural curiosidade na leitura desta obra que, por sortilégios ocultos, nunca se cruzara comigo antes das reedições vindas agora a lume a pretexto da recente morte da Autora.
É um livro compente, bem escrito. Não concordando com António José Saraiva que afirma, sem hesitação, ser Agustina a maior romancista portuguesa de sempre (e suponho que esta afirmação se insira nas prístinas discussões nascidas aquando do Nobel de Saramago e da comoção gerada na comunidade literária de então), não me custa reconhecer o valor da vilameã, que a coloca num patamar elevadíssimo das lusas letras.
Mas há reparos a este livro. Muitos deles, estão detectados no prefácio que Hélia Correia assina e encontram-se maquilhados pela pó-d'arroz da veneração. O prefácio de Agustina limita-se a constatar o óbvio mas com singela honestidade: que a história não resulta da imaginação.
Ora o reparo maior que faço, é que o livro não é sobre Fanny Owen ou sobre José Augusto: a tragédia deste casal é meramente pretexto para Agustina escrever sobre Camilo. É um livro sobre Camilo, que está por toda a parte e sempre. Os retratos psicológicos de José Augusto, o mais próximo amigo de Camilo de então, são sempre relacionados com o genial escritor portuense (na verdade nascido em Lisboa e criado em Vila Real...).
O título dado a este livro equivale a, reunindo os Evangelhos num livro, chamar-se-lhe "A História de Lázaro".
Todavia, Agustina não é uma hagiógrafa e esse é o maior mérito do romance: trata sempre Camilo de forma justa, não hesitando em apontar defeitos (e Camilo tinha-os aos molhos!) à revelia da profunda veneração que pelo escritor indisfarçavelmente sente.
Os defeitos são, a meu ver, dois: "infectada" por Camilo, Agustina escreve como Camilo. Erudita da obra camiliana, não desperdiça um centímetro quadrado para citar o ídolo (de resto, ela avisa disso mesmo na prólogo) o que, não tendo nada de errado, a leva muitas vezes a enviesar o texto pondo os personagens a citar amiúde Camilo a propósito de tudo e de nada. Ora: nesta época, Camilo era um cronista, detestado por metade da cidade, a monumental obra literária ainda estava no tinteiro. Porque haveria de ser tão citado - até por Judite, a caseira de José Augusto na casa do Lodeiro? ("Para quê? Ele tem o coração de vinha d'alhos e a alma dele é uma garrafeira, como disse o Senhor Camilo (...)").
Depois, alguns diálogos não são credíveis: ninguém, nem no início da segunda metade do século XIX, fala de forma tão literária. Algumas das frases de Fanny, na fase final do romance (e da vida), são simplesmente impossíveis - a não ser na boca de cena de um teatro.
Conclusão: gostei de ler, mas não me levantou do chão (à parte umas quantas frases admiráveis) - e isso é sempre um pouquinho decepcionante.