Um livro maravilhoso que é uma celebração da arte de contar histórias e a expressão de como elas podem servir para dar significado e mesmo um destino à vida dos pobres e desvalidos. A autora narra a história de duas pessoas à margem da sociedade, um analfabeto que anda pelo mundo sem emprego certo e uma prostituta já corroída pelas doenças. Em comum, não apenas a trajetória de profundos dramas, mas o desejo de transcendência e o encanto pelas histórias que, por um momento que seja, devolvem a eles a esperança e a beleza da vida.
Enquanto tece uma porção de histórias dentro da história, a autora nos faz perceber como gostamos e dependemos delas em nossa vida cotidiana. Por onde quer que se olhe, a vida é sempre dureza, com uma carga inevitável de angústia e sofrimento. As histórias, porém, servem como uma espécie de redenção. Por um momento, elas permitem que a gente esqueça de nós mesmos, que vivamos a vida dos outros! Ao término das histórias, sejam lidas ou contadas, quando voltamos à nossa vida de todos os dias, já não somos as mesmas pessoas, já incorporamos algum pequeno conhecimento de mundo que, no fim das contas, nos aproxima um pouco mais de toda a humanidade.
Ao conhecer histórias, aprendemos novos pontos de vistas, descobrimos que talvez a nossa visão de mundo não seja a única possível, entendemos que há outras realidades a considerar... Então o que fazemos é aprimorar as nossas perspectivas, para que agora incluam aquilo que ficamos sabendo por meio das histórias. Idealmente, quanto mais histórias conhecermos, mais pontos de vistas vamos ter acrescentado ao nosso, e o resultado disso não pode ser outro que não um aumento do amor e da empatia, um sentimento de pertencimento à humanidade, com todos os seus defeitos, mas também com todas as suas belezas e potencialidades. O livro expressa tudo isso lindamente.
As histórias e sub-histórias me pareceram todas interessantes, e muito disso porque conseguiram remeter ao espírito novelista e andante do Dom Quixote, contando pequenos infortúnios da vida das pessoas comuns, enquanto lutam diariamente as batalhas de suas vidas. A linguagem é também um grande acerto, tem lá o seu quê guimarãesrosístico, admite marcas da oralidade, considera fluxos de pensamento, tem rasgos poéticos, e tudo é conjugado de forma muito fluida e natural.
Um livro singelo, tocante, pungente, terno e que faz bem ao coração da gente.