Publicada em 2003, e longe de se ater a um mero relato factual e distante, a obra de Pompeu de Toledo transcende se firma como uma profunda imersão na gênese e na identidade da metrópole paulistana, uma biografia de uma cidade que pulsa com as contradições e os paradoxos que a moldaram, tendo como fio condutor um tema surpreendente e evocativo: a solidão. Desde seu título, a obra lança uma instigante premissa: como pode a futura megalópole, conhecida por sua densidade populacional e efervescência, ser definida pela solidão em seus primórdios? Essa aparente contradição é desvendada por Pompeu de Toledo ao longo de suas páginas, demonstrando que a "solidão" que permeia a história de São Paulo não se resume ao isolamento geográfico de um povoado distante do litoral e dos centros de poder coloniais; ela se manifesta de maneiras sutis e profundas, desde a luta pela sobrevivência em um ambiente hostil até a formação de uma psiquê coletiva marcada pela resiliência e, talvez, por uma certa dificuldade de estabelecer laços profundos em meio à constante transformação. Da forma magistral que sempre caracterizou seus escritos, Toledo articula essa narrativa numa obra constantemente elogiada pela riqueza de detalhes históricos, pela qualidade da escrita e pela habilidade em conectar eventos aparentemente isolados em um panorama coeso. A estrutura tripartite do livro – "Começos, Incertezas e Arrancada" – oferece um arcabouço claro para acompanhar a lenta e gradual ascensão de São Paulo. Em seus "Começos", a solidão se manifesta na fragilidade do povoado, na luta contra as adversidades naturais e nas incursões bandeirantes, que, paradoxalmente, expandiram os horizontes ao mesmo tempo em que isolaram ainda mais a pequena vila. Na seção "Incertezas", a solidão ganha contornos de uma identidade em formação: sem o brilho do ouro ou o poder do açúcar, São Paulo parecia fadada à obscuridade, uma "capital da solidão" não apenas por sua distância, mas também por sua aparente irrelevância. No entanto, é desse período que Toledo pinça episódios da vida cotidiana que revelam a formação de uma cultura peculiar marcada por costumes rústicos e uma certa autossuficiência (a menção aos banhos coletivos nos rios, com sua eventual "festa pagã", ilustra uma comunidade que, apesar do isolamento, buscava formas próprias de convívio, ainda que fugazes e despidas de formalidade). A "Arrancada" do século XIX, impulsionada pelo café e pela chegada massiva de imigrantes, paradoxalmente, não dissipa completamente a sombra da solidão. Se, por um lado, a cidade se abre ao mundo e experimenta um crescimento vertiginoso, por outro, essa transformação acirra a sensação de desenraizamento e anonimato, pois a chegada de levas de estrangeiros, com seus costumes e línguas distintas, acabou contribuindo para uma heterogeneidade que, embora enriquecedora, também gerou distanciamento e dificuldade de construção de uma identidade coletiva coesa. A cidade, apesar de suas oportunidades e vitalidade, impõe um "alto preço" a seus habitantes, que muitas vezes se veem confrontados com a própria solidão em um ambiente de intensa interação, mas nem sempre de profunda conexão.
===
Para mim, como leitor e admirador de Roberto Pompeu de Toledo desde os tempos da faculdade, reencontrar sua escrita perspicaz e envolvente nesta obra tão significativa foi motivo de grande satisfação, com uma camada ainda mais pessoal e emocionante, dada a minha descendência de João Ramalho, figura central nos primórdios da história paulista narrada com tanta maestria pelo autor.
===
Em suma, ao desvelar as camadas de uma identidade complexa, marcada por um isolamento geográfico que se metamorfoseia em uma solidão social e, talvez, até existencial, Roberto Pompeu de Toledo oferece uma obra essencial para compreender a alma da metrópole paulistana, mostrando que a pujança do presente carrega as marcas de um passado onde a distância, a incerteza e a própria intensidade do crescimento moldaram um caráter paradoxalmente solitário em sua essência. Ao finalizar a leitura, o que permanece não é apenas um conhecimento factual da história paulistana, mas uma profunda reflexão sobre como a solidão, em suas diversas manifestações, pode ser um elemento surpreendentemente constitutivo da identidade de uma das maiores e mais vibrantes cidades do mundo.