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Long discounted by a literary culture that actively  rejected women’s writing , Maria Judite de Carvalho’s biting and bitterly funny work has since exploded across the world.  Collecting the entirety of her short works written between 1959 and 1967, when the Salazar dictatorship and the rigid edicts of the Catholic church reigned, the stories in  So Many People, Mariana  might as well have been written today. These are tough, unflinching accounts of women trapped by a culture that values them as workers or wives but not as people. And if they do escape their circumstances, they are, more often than not, irrevocably punished by the world. 

So Many People, Mariana  is an introduction to a major international writer at the height of her power. Translated by the renowned Margaret Jull Costa, Carvalho leads readers into the dark of life under patriarchal capitalism, writing “as precisely and without sentiment as an autopsy” ( New York Review of Books ).

450 pages, Paperback

First published March 14, 1959

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1603 people want to read

About the author

Maria Judite de Carvalho

43 books72 followers
MARIA JUDITE DE CARVALHO nasceu em Lisboa a 18 de Setembro de 1921. Estreou-se com o livro de contos Tanta Gente, Mariana (1959) e foi galardoada com o Prémio Camilo Castelo Branco pela colectânea As Palavras Poupadas (1961). Além de contos, publicou romances e crónicas, cultivando também o jornalismo. Na sua obra reflecte-se o dramatismo da solidão do mundo urbano, onde há muita gente e pouca alma. Publicou Paisagem Sem Barcos (1965), Os Armários Vazios (1966), Flores ao Telefone (1968), Os Idólatras (1969), Tempo das Mercês (1973), A Janela Fingida (1975), O Homem no Arame (1976), Além do Quadro (1983), Seta Despedida (1995), A Flor que Havia na Água Parada (1998) e Havemos de Rir? (1998). Reuniu parte das suas crónicas em Este Tempo (1992) e Diário de Emília Bravo (2002, póstumo). Foi condecorada pela Presidência da República com o Grande-Oficialato da Ordem do Infante D. Henrique, em 1992 e recebeu, a título póstumo, o Prémio Vergílio Ferreira, pelo conjunto da sua obra, em 1998.

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20 (2%)
1 star
8 (<1%)
Displaying 1 - 30 of 161 reviews
Profile Image for Cláudia Azevedo.
395 reviews218 followers
March 31, 2019
Este livro é, sem dúvida, um dos mais belos que li. Pergunto-me como Maria Judite Carvalho permanece quase desconhecida, como eu nunca a havia lido... Há algo nela, na sua melancolia crua e sem esperança, que me recorda Clarice Lispector. Há algo de Macabéa (A Hora da Estrela) em Mariana. Há algo da minha irmã, que partiu há poucos dias, nestas mulheres e homens que a vida atropelou.

"Às vezes deixava-se ficar até o barco desaparecer. Experimentava uma espécie de angústia, qualquer coisa como se alguém muito querido se tivesse ido embora para sempre. Mas não era bem isso. O que sentia era uma grande dor por ele próprio ter ficado."
Profile Image for Célia | Estante de Livros.
1,188 reviews275 followers
February 18, 2019
Maria Judite de Carvallho foi uma escritora portuguesa cuja obra desconhecia até há bem pouco tempo. Na verdade, só ao ler este primeiro volume das suas “Obras Completas” (a coleção ficará com um total de seis volumes) é que me apercebi que já havia lido um conto de sua autoria, na coletânea Gloria in Excelsis – que foi, por sinal, um dos meus preferidos desse livro. Esta primeira parte de “Obras Completas”, da autora que faleceu em 1998, junta duas coletâneas de contos, as primeiras publicadas pela autora: Tanta Gente, Mariana e As Palavras Poupadas.

Do que tinha lido e ouvido deste livro até agora, tinha a sensação que estas histórias tinham tudo para me agradar, mas não tinha a noção do quanto. O conto que dá início ao livro, “Tanta Gente, Mariana”, é simplesmente genial. Mariana, a protagonista, tem uma doença terminal e percebe que, mesmo rodeada de gente, no fundo e no final de tudo, está sozinha. Esta história despoleta uma profunda reflexão sobre a condição humana, sobre aquilo que somos ou ambicionamos ser. Como é óbvio, não é estritamente necessário que o leitor se identifique com uma personagem ou com a sua forma de encarar a vida, mas encontrei em Mariana uma ligação visceral pela certeza de que por mais pessoas que tenha em meu redor, no final estarei sozinha. E a frustração pelo que fica por fazer ou dizer será algo que depende, quase em exclusivo, de mim própria.

Os restantes contos da primeira coletânea são, na sua grande maioria, histórias excelentes. Quase todos elas com protagonistas femininas, são enredos que abordam muito o papel da mulher na sociedade portuguesa de meados do século XX. Mas mesmo que entretanto tenhamos mudado de século e muitas vitórias tenham sido alcançadas em prol do feminismo, continuei a ver nestes contos muito daquilo que continua a ser o papel da mulher na sociedade e, mais concretamente, no seio da família. Há dois ou três contos em que a autora elege o homem como protagonista e adorei igualmente o tom trágico-cómico que imprime a estas histórias. Gostei particularmente do segundo conto do livro, “A Vida e o Sonho”, que me fez lembrar o protagonista de Stoner , sem esquecer o conto que encerra a primeira coletânea, “O Passeio no Domingo”, que reserva ao seu protagonista um destino muito peculiar.

Confesso que o conto que inicia a segunda parte do livro, “As Palavras Poupadas”, e que é também o maior de todo este livro, não me agradou tanto como o “Tanta Gente, Mariana”, mas a fasquia também era demasiado elevada. Acaba por ser uma história que explora as dificuldades de comunicação entre as pessoas e demonstra como tantos problemas poderiam ser evitados se as palavras corretas fossem usadas nos momentos certos. O final da história deixou-me a sensação de algo inacabado. Das restantes histórias do livro gostei muito, apenas com raras exceções.

Não posso deixar de referir o quanto fiquei encantanda com a escrita de Maria Judite de Carvalho. Há qualquer coisa de certeira na sua escrita; não são necessárias muitas palavras ou um estilo muito rebuscado para ir direito ao assunto e deixar o leitor perplexo com a sua capacidade de analisar e expôr a essência do ser humano, com especial pendor para o sentir feminino. Não hesito em dizer que foi uma das melhores descobertas dos últimos tempo e que fica a certeza que irei ler os restantes volumes destas suas “Obras Completas”. Uma palavra final para as minhas companheiras de leitura, a Elisa, a Ana e a Cristina, que enriqueceram de forma incrível aquilo que foi a experiência de ler este livro. Obrigada a todas!
Profile Image for Teresa.
1,492 reviews
July 24, 2016
Para terminar a minha leitura deste livro tão bonito...

1. Da Wikipedia
"Apesar da notória qualidade e profundidade da sua obra e da sua escrita (entre o cómico e o grotesco, num registo ora trágico, ora ironicamente perverso), Maria Judite de Carvalho permanece ainda desconhecida do grande público."

2. Além da novela que dá o título ao livro, perdi-me de encanto com os sete contos seguintes. São histórias de gente condenada à solidão, ao desespero da falta de amor - dado e recebido -, que encaram a morte com indiferença, ou mesmo como uma libertação.

"Todos estamos sozinhos, Mariana. Sozinhos e muita gente à nossa volta. Tanta gente, Mariana! E ninguém vai fazer nada por nós. Ninguém pode. Ninguém queria, se pudesse."

3. Um poema de Maria Judite de Carvalho

"As portas que batem
nas casas que esperam.
Os olhos que passam
sem verem quem está.
O talvez um dia
Aos que desesperam.
O seguir em frente.
O não se me dá.

O fechar os olhos
a quem nos olhou
O não querer ouvir
quem nos quer dizer.
O não reparar
que nada ficou.
Seguir sempre em frente
E nem perceber."


4. O lindo rosto de Maria Judite de Carvalho, pelo qual se apaixonou Urbano Tavares Rodrigues

description
Profile Image for Carmo.
727 reviews567 followers
March 11, 2017

Não encontramos risos ou momentos felizes neste livro de contos.
Há uma solidão incurável que medra no meio da multidão; há gente envenenada pelo preconceito; há gente que desiste; há um cansaço de sentir que macula o gosto de viver.
E há rasgos de ironia e humor negro deliciosos.


Profile Image for Katya.
485 reviews
Read
March 17, 2022
"- Estou só, pai...
- Também deste por isso - disse brandamente. - Também deste por isso. Há gente que vive setenta e oitenta anos, até mais, sem nunca se dar conta. Tu aos quinze... Todos estamos sozinhos, Mariana. Sozinhos e muita gente à nossa volta. Tanta gente, Mariana! E ninguém vai fazer nada por nós. Ninguém pode. Ninguém queria, se pudesse. Nem uma esperança."

Tanta Gente, Mariana



As mulheres de Maria Judite de Carvalho são mulheres que ficam muitas vezes sem voz. Mulheres que não cabem no imaginário da sociedade. Mulheres que não são, como esperado, mães, esposas ou donas de casa, e que, quando o são, estão longe de ser perfeitas. São mulheres doloridas, traumatizada, desfeitas pelas imposições de uma sociedade e de uma cultura assentes em padrões de domínio machistas.
A sua escrita abre pois caminhos para a atual escrita feminista: um grito duro, rubro e trágico de revolta perante o patriarcado.
Ela é irónica, depurada, madura, debruçando-se sobre as questões da identidade, das relações humanas, da existência lógica ou ilógica - o mal fadado existencialismo de que bebe por contacto direto com a sua cultura mãe, mas que aperfeiçoa de forma original e única.

A vida, a morte, a melancolia, a solidão, a evasão, mas também a aceitação da vida nas suas formas mais puras, fazem parte do seu estilo que é também desprendido apesar de profundo e muito, muito belo: na forma e no conteúdo.

De onde vimos, para onde vamos; a mutabilidade e imutabilidade do destino são temas recorrentes. O seu tempo é um tempo fragmentado, um tempo que estica e encolhe, avança e recua consoante a situação - elástico conforme as necessidades da narrativa que é sempre dura, penumbrosa, surreal na forma como interliga monólogos internos, tempos verbais (sobretudo presente e passados) como equivalentes e antagónicos ao mesmo tempo, trabalhando as dicotomias da existência pessoal e coletiva.

De uma ironia mordaz, MJC faz uso da disforia de forma magistral, usa e abusa do onírico e do vago e impõe ao leitor um papel de colaborador permanente da sua obra deixando tanto por dizer como o que realmente diz.

Advogo sempre que as leituras não se fazem a metro, que os contos se devem intercalar com leituras maiores ou mais exigentes, mas aqui deitei tudo por água abaixo. Não há como resistir a estas duas coletâneas, não há como parar, como regrar o consumo - porque é um consumo, e um que causa dependência - da sua escrita!

Nunca, desde a leitura da obra completa de Mário de Sá-Carneiro, houve entre mim e uma obra literária tamanha sensação de compreensão, empatia, identificação. Nunca, até aqui, me propus ler uma obra completa (cerca de 20 títulos diferentes) por puro, genuíno, vicioso prazer!


TANTA GENTE, MARIANA⭐⭐⭐⭐⭐
A vida e o sonho ⭐⭐⭐⭐⭐
A avó Cândida ⭐⭐⭐⭐⭐
A mãe ⭐⭐⭐⭐⭐
A menina Arminda ⭐⭐⭐⭐⭐
Noite de natal ⭐⭐⭐⭐⭐
Desencontro ⭐⭐⭐⭐⭐
O passeio no domingo ⭐⭐⭐⭐

AS PALAVRAS POUPADAS⭐⭐⭐⭐⭐
Uma história de amor ⭐⭐⭐⭐⭐
Uma varanda com flores ⭐⭐⭐⭐⭐
Choveu esta tarde ⭐⭐⭐⭐⭐
A sombra da árvore ⭐⭐⭐⭐⭐
A noiva inconsolável ⭐⭐⭐⭐
O aniversário natalício ⭐⭐⭐
Câmara ardente ⭐⭐⭐⭐⭐
Viagem ⭐⭐⭐⭐⭐



"Fugia sempre a sentar-se perto de um espelho. Os espelhos, pensava, eram feitos para a gente se estudar, de frente ou a três quartos, com atenção, durante alguns segundos, e para depois deixarem de existir."

As Palavras Poupadas
Profile Image for Ritinha.
712 reviews136 followers
May 15, 2020
Do patriarcado enquanto cárcere ontológico
------
A existência das mulheres numa sociedade fortemente patriarcal é coarctada em toda a sua extensão, quer estejamos a considerar os domínios psicológicos, quer os físicos ou os sociais. A própria formatação dos cidadãos é diversa e trata de amputar a mulher de dimensões que esta nem chega a configurar como estando ao seu alcance.
Explorar tudo isto elaborando crítica de costumes num estilo único e dirigido (mas que nem por isso perde em virtuosidade), captando um tempo e um modo femininos numa análise subliminar, a médica distância entre a empatia e a reserva racional, isso já está reservado a poucos.
Por tudo isto fiquei rendida a Maria Judite de Carvalho. Ainda bem que há mais volumes ainda inéditos para mim.
Profile Image for João Carlos.
670 reviews316 followers
July 2, 2017

Maria Judite de Carvalho (1921 – 1998)


O escritor Urbano Tavares Rodrigues (1923 – 2013) que foi casado com a Maria Judite de Carvalho (1921 – 1998) escreveu:

”Maria Judite de Carvalho foi a escritora da solidão e do silêncio das “palavras poupadas”. Fez, nas suas novelas e contos, o retrato irónico e desencantado da pequena burguesia lisboeta, das frustrações e desistências das mulheres e dos velhos, de toda uma sociedade lentamente envenenada pela moral hipócrita do fascismo português. Aliando o humor à arte da concisão e da reticência, sempre convidou o leitor a entrar nas suas histórias e completá-las, a vivê-las de algum modo. Foi sem dúvida uma das maiores ficcionistas do nosso século XX.”

”Tanta Gente, Mariana” reúne oito contos, numa escrita intimista e, essencialmente, feminista, abordando o tema da solidão, da doença, da traição, da indiferença da sociedade e de quem nos rodeia, mas, igualmente, sobre a perda de entes queridos, sobre a “alma feminina”, que necessita de amor e compreensão, sempre presente num quotidiano banal mas de grande densidade emocional.
Há várias frases paradigmáticas: ”O mundo é de repente um amontoado de coisas estranhas que vejo pela primeira vez e que existem com uma força inesperada." (Pág. 9), ”Sinto-me só, mais do que nunca, ainda que sempre o tivesse estado.” (Pág. 13), ”A vida é uma coisa estranha.” (Pág. 16);
Oito contos muitos tristes, sofridos, mas, extremamente belos…


”Tanta Gente, Mariana” - 5* (Novela ou Conto?)

”A minha vida é como um tronco a que foram secando todas as folhas e depois, um após outro, todos os ramos. Nem um ficou. E agora vai cair por falta de seiva.” (Pág. 14)

”Agora estou aqui e nem de ler sou capaz. Sei que vou morrer e essa certeza basta-me, é como que calmante. Perante ela tudo desaparece. Mas às vezes também tudo vem, é conforme a cor dos dias.
(…)
Acontece-me pensar se essa existência teria sido diferente, melhor, senão mais longa pelo menos mais bem aproveitada, tendo eu procedido de outro modo, seguido por outros caminhos. E não. Não fui eu que resolvi.
(…)
Fui forçada a agir e também a ficar quieta.
(…)
Não era eu quem construía o muro, não era eu também quem adiantava o tempo. Tudo lá estava, preparado para a minha chegada, à minha espera.” (Pág. 32)


A Vida e o Sonho - 4*

O menino Adérito torna-se num homem...

“(...) um homem plácido, habituado a suportar as contrariedades da vida. Um homem para quem os prazeres não eram muito fortes nem os desgostos muito intoleráveis. Um homem metódico, com sonhos impossíveis mas nenhumas ambições.” (Pág. 60)


A Avó Cândida - 5*

"Era um daqueles dias em que tudo lhe corria mal. Um dia azedo, inútil, irritante, a ter de viver (era tão aborrecido ter de viver por força dias assim, não poder fechá-los, pô-los de parte como se faz aos livros sem interesse!)." (Pág. 64)

A avó Cândida para a neta Clara:

"”Disseram-me que levas uma vida contra a lei de Deus!" - "O que é uma vida contra a lei de Deus, avó?" - "Viram-te a fu-ma-a-ar à mesa duma pastelaria, da Bénard. Estavas com um homem. Depois, daí a pouco tempo encontraram-te na rua com outro. Que dizes a isto?” (Pág. 71)

Mais tarde umas bolas de papel espalharam-se pelo chão.
Avó Cândida estás perdoada..."


”A Mãe” - 3*


”A Menina Arminda” - 4*


Noite de Natal - 5*

”Foi numa noite de Natal que aquilo aconteceu.
(...)
Parece-me que aconteceu uma desgraça... Como foi?... Tu...” (Pág. 75)

Macabro...


Desencontro - 4*

Duarte:

”- Luísa, queres casar comigo?
O olhar voltou para se fixar nele.
- Quero - disse com simplicidade. - Mas tu, quererás de facto casar comigo?"


"Resolvi nessa noite pensar em mim, seguir um caminho diferente, interessar-me por alguém. Talvez o amor das mulheres seja mais elástico e mais passivo do que nos homens. Eles escolhem, nós quase sempre vimos a gostar de quem nos escolheu.” (Pág. 111)


O Passeio no Domingo - 4*

A mulher do Marcelino...

”Nunca lho dissera, talvez mesmo julgasse que ele o ignorava - não o considerava muito esperto - mas atribuía-lhe todos os seus males e a falência total das esperanças que tivera. Levara anos a amaldiçoar o dia em que tinha posto a sua vida inteira nas mãos daquele homem quieto e trabalhador, mas tão inútil para a vida como a mais passiva das suas reses.” (Pág. 123)
Profile Image for Miguel Duarte.
132 reviews55 followers
September 20, 2018
https://www.comunidadeculturaearte.co...

Certos autores, muitas vezes por contingências da época em que viveram – uma linguagem dita à frente do seu tempo, uma temática incompreendida ou não-aceite pela opinião vigente, um desentendimento com a elite literária contemporânea –, acabam por nunca atingir o reconhecimento que lhes é devido ou, obtendo-o ainda em vida, vêm-no depois desvanecer com o passar dos anos, as suas obras progressivamente mais difíceis de encontrar, em edições já esgotadas e nunca repostas.

Não admira, portanto, que, não obstante ser uma das melhores contistas da literatura portuguesa (tanto entre mulheres como entre homens), tão pouca gente esteja familiarizada com Maria Judite de Carvalho, a “flor discreta da nossa literatura”, como foi apelidada por Agustina Bessa-Luís. Mas, através da sua chancela Minotauro, a Almedina contraria essa tendência, publicando, até ao final de 2019, a obra completa da autora, em pequenos volumes onde, como capa, usa pinturas da própria autora – que, como chega a dizer Urbano Tavares Rodrigues (com quem foi casada), acreditava inicialmente até mais no seu talento enquanto pintora do que enquanto escritora. A escritora, nascida em 1921, tem assim, vinte anos após a sua morte, a oportunidade de recuperar esse espaço que o passar dos anos lhe foi retirando.

O primeiro volume deste compêndio encerra precisamente duas das mais famosas obras da autora, as suas duas primeiras antologias de contos, "Tanta Gente, Mariana", de 1959, e "As Palavras Poupadas", de 1961. Ambas seguem uma estrutura idêntica: um conto inicial, homónimo, praticamente do tamanho de uma novela, seguido de diversos contos curtos de dez ou menos páginas. E como são potentes estes contos, retratos da solidão e da frustração que são inseparáveis da vida humana.

As mulheres dos contos de Maria Judite de Carvalho – e os homens, que ocasionalmente desempenham também o papel principal – são claramente pessoas sós, mesmo se casadas e acompanhadas. É omnipresente essa melancolia que rodeia a sua existência, uma espécie de imobilidade inescapável que prende os movimentos e as decisões de todos e cada um. Os contos são, portanto, largamente passados em circunstâncias concretas, em espaços fechados mesmo que em quase todos a mente vagueie pelos mais diversos caminhos, da juventude e infância aos falhanços das relações esperançosas do casamento, até mesmo aos tempos de vida em Paris, onde a própria autora chegou a viver durante uns anos.

O foco nas experiências já vividas é, no entanto, sempre feito a partir do presente, num olhar melancólico para o passado, em jeito de avaliação do deixado para trás. São o sofrimento e a dor, portanto, o motor das narrativas. Em "Tanta Gente, Mariana", talvez o melhor dos contos aqui publicados, uma mulher descobre que vai morrer só e passa em revista o que ficou para trás, desde a sua tenra e triste relação com o pai, ao homem que perdeu para outra mulher, até mesmo ao filho, a última barreira à sua solidão, que morreu ainda antes de poder atenuar a dor de Mariana.

São efectivamente histórias amargas, de pessoas que morrem, de relações que acabam, de sonhos perdidos e desfeitos pontuados com a acutilância irónica da autora. E, num Estado Novo onde à mulher não era dada praticamente nenhuma outra forma de alcançar a felicidade e o reconhecimento se não através da família, os dilemas das personagens tomam ainda maior proporção. Mas não deixam por isso de ser pertinentes nos tempos que correm, até porque a condição feminina tem, ainda hoje, um longo caminho a percorrer. Aliás, se há coisa que se sente na prosa de Maria Judite de Carvalho é que poderia perfeitamente pertencer aos dias de hoje, tal a universalidade e a pungência das suas narrativas.

Mas, independentemente do seu peso melancólico e depressivo, a mestria de Maria Judite de Carvalho é tal que, por entre o choro que motiva, larga também aquele sorriso triste, um sorriso de conformidade para com a situação, de paz para com a tristeza da situação. Um certo sorriso de aceitação e a compreensão de que, em todas as nossas diferenças, todos partilhamos estes sentimentos, todos conseguimos sentir o mesmo porque todos somos humanos. Não é apenas que perante a dor dos outros, deixemos de pensar na nossa, mas sim que a nossa dor, aos olhos da dor dos outros, deixa de ter um carácter especial, para passar a ser, como nós, humana.
Profile Image for Ana.
748 reviews113 followers
April 25, 2025
Ando há anos a usar a expressão “Tanta gente, Mariana” mas por uma razão ou por outra, a leitura do livro, que me lembro de ver nas estantes da minha mãe desde sempre, foi sendo adiada ano após ano. Tanto tempo passado, só consigo pensar (fazendo minhas as palavras de um funcionário das finanças, do tempo das declarações de IRS em papel): Errado, muito errado!

Agora que descobri a magnífica escritora que foi a Maria Judite de Carvalho, não volto a cair no erro de deixar de a ler, quando a oportunidade se proporcionar. Gostei muito de todos os contos que integram este volume, e de forma muito especial daquele que dá título ao livro. E apesar de os temas não serem felizes, gostei imenso da escrita, das histórias, do tom e do humor negro.

”Agora ia ter um emprego que me interessava. Pus-me outra vez com esperança na vida. (…) Arranjei o passaporte e tratei dos vistos quase com entusiasmo.
(…)
Depois, na antevéspera da partida, o senhor Harper telefonou-me muito aflito, misturando as palavras. A mulher acabava de entrar numa casa de saúde para ser operada de urgência. (…) Claro que por enquanto riscava dos seus projectos toda a ideia de viagem.
(…)
Não partira e eu tinha ficado amarrada ao velho quarto, para sempre prisioneira das suas paredes.
- Ainda bem, D. Mariana, ainda bem – disse a proprietária. – Custava-me tanto ir outra vez conhecer uma cara nova… Sabe Deus como me custava. Até rezei a Santa Teresinha para a D. Mariana não ir.
A inglesa salvara-se e a D. Glória estava contente. Santa Teresinha fizera tudo pelo melhor.”
Profile Image for Lúcia Fonseca.
300 reviews54 followers
September 30, 2018
Que maravilha! Não me ocorrem neste momento outro adjetivo para descrever o que li.
Coisas tão simples que acontecem escritas de forma tão eloquente e com um toque de sarcásmo. Ironias da vida, tragédias, melancolia tudo tão bem “dito”.
Vou querer ler mais.

“O doutor Boaventura precisou de chegar aos cinquenta (...) para compreender que não estava a fazer nada neste mundo, mais ainda, que nunca fizera nada neste mundo. É desta, de resto, uma coisa que acontece a muita gente, se bem que só um número limitado se dê ao trabalho de fazer tal verificação.” p. 218 - O Aniversário Natalício
Profile Image for Rita.
906 reviews187 followers
February 14, 2022
Maria Judite de Carvalho, uma grande descoberta em 2022!

Tristeza | Depressão | Solidão | Angústia | Amargura | Desespero

Tanta gente, Mariana
Eles falavam e de repente eu estava só, tão só que voltei a ter, como havia muitos anos, vontade de chorar.(…)
À minha volta só a morte cada dia mais próxima e também o silêncio da casa, o silêncio dos ruídos da casa (…) Ainda não é morte, mas já não é inteiramente vida. Nunca o foi, suponho eu.
Fecho a janela, escondo a cabeça debaixo da almofada só para não dar por eles, para ficar só. E também para ter vontade de chorar e sentir-me bem infeliz.


A Vida e o Sonho
O Adérito não ia ao aeroporto nem ao cais para ver as pessoas que partiam. Também não ia ver o barco nem o avião. Era mais complexo.(…) Às vezes deixava-se ficar até o barco desaparecer. Experimentava uma espécie de angústia, qualquer coisa como se alguém muito querido se tivesse ido embora para sempre. Mas não era bem isso. (…) Deixou-se ficar até o barco se diluir todo no nevoeiro espesso que nessa manhã cobria do Tejo. Depois ainda deu um salto ao aeroporto a ver sair os aviões.

A Avó Cândida
O que ela gostaria era de acordar totalmente velha (…) Talvez os velhos e as crianças fossem mais autênticos por estarem mais perto do nada
Tinha o seu lar, que não era bem um lar porque vivia sozinha dentro dele, mas a que se havia acostumado – tinha a vida que escolhera – tê-la-ia de fato escolhido – uma vida livre, de mulher só. Já não saberia viver com os pais, com refeições a horas, visitas a quem teria de aparecer, o tricot à noite para não morrer de tédio. Perguntava às vezes a si própria se já saberia viver com alguém, de habituada que estava a não dar conta de seus actos, a fazer sempre, sempre, aquilo que lhe apetecia fazer. Sempre?


A Mãe
Quarenta anos que haviam corrido, deslizado como um rio brando, de leito bem horizontal, sem quedas nem rochedos a estorvarem-lhe o percurso ou a precipita-lo, e a atingir em breve o seu limite. Pensou pela primeira vez nos anos que vivera e nos que lhe restavam viver.

As Palavras Poupadas
(…) a vida é longa, desliza e escorre sem uma quebra. Uma sucessão de acontecimentos, uma corrente sem fim de palavras ditas e palavras poupadas. Dessas principalmente.

Uma História de Amor
As pessoas nascem com asas e de repente cortam-lhas. Ficam como as galinhas, que tristeza. Restos de asas que não servem para voar.
Profile Image for Os Livros da Lena.
299 reviews319 followers
December 14, 2021
Nota prévia: Começarei por escrever que, tudo o que escreva será sempre pouco para falar deste pedaço enorme da obra de Maria Judite de Carvalho.

Quem consegue ser tão elegantemente dorida assim?, perguntava-me eu, ao lê-la. Como é possível ser-se tanto no que se escreve?

Viver este livro (sim, porque não é só uma leitura) é ver-se ao espelho, quer se queira quer não. É ver-se confrontada com a realidade interna, a nossa, a do âmago, e a do país; a de agora (sim, não vamos ser hipócritas e dizer que a equidade chegou às mentes portuguesinhas) e a de outrora.

Colocar no papel, doesse a quem doesse, a verdade de ser-se mulher, e fazê-lo num tempo em que se vivia, de forma visível e aceitável - social e legalmente - amordaçada por um país pequeno, quer em espaço geográfico, quer em mentalidade, é de uma coragem à qual posso oferecer, apenas, humildade e admiração.

Todas nós somos - ou já fomos - personagens da Maria Judite, seja quando não somos vistas ou ouvidas, seja quando somos sujeitas a um monólogo condescendente vindo de alguém em lugares, ditos, de poder, seja quando tomamos o comando das nossas escolhas ou dizemos “basta de sofrimento”.

E, na verdade, estamos todas sozinhas, mesmo que com tanta gente à nossa volta…Tanta Gente, Mariana! Porque a verdade é que, ainda demasiadas vezes, ser mulher é sentir-se só, acima de tudo no que se pensa e sente.

A escrita de Maria Judite de Carvalho entranhou-se em mim, ficou-me debaixo da pele, no estômago, nas entranhas. Fui arrebatada pela profundidade do mergulho numa realidade, que tem tanto de ontem como de agora, que é intemporal!

Não há, a meu ver, autora ou autor que melhor figure a solidão do que ela. Pouca escrita tem tanto de singela e profunda, de verdadeira e excruciante, de íntima e pungente. Pouca é a escrita que tem tanto dentro.

Se ainda não a leram, leiam. Eu estou certa que nunca mais me vou poder separar da sua obra.

A quem já leu, tem uma novela e/ou conto favoritos?

Deixo-vos a playlist habitual em Spotify, com o título do livro 🎼
Profile Image for Cristina | Books, less beer & a baby Gaspar.
452 reviews119 followers
August 31, 2018
Sinto que este livro me vai acompanhar por muito e muito tempo. Fala da vida de uma forma triste, solitária, vazia, por vezes desesperada. Faz-nos questionar se estamos mesmo vivos ou se vivemos?! Adorei a escrita simples e melancólica, depressiva em contos curtos mas pungentes! Um retrato de vidas que poderiam ser as nossas ou as do nosso lado...

Tanta gente, Mariana - 5*
A vida e o sonho - 4*
A avó Cândida - 5*
A mãe - 5*
A menina Arminda - 5*
Noite de Natal - 4.5*
Desencontro - 4*
O passeio no Domingo - 4*
Profile Image for António Dias.
175 reviews20 followers
October 1, 2020
Um pequeno tesouro sobre a solidão e a tristeza que me prendeu do primeiro ao útimo conto. As oito histórias lêem-se com prazer, o prazer com que desfrutamos das coisas tristes da vida quando estas nos surgem com uma beleza, inteligência e pureza de palavra esplendorosas.
Explorarei decerto outras obras de Maria Judite de Carvalho, uma escritora sublime que eu desconhecia!

"Vida verdadeira já eu não seria capaz de viver, porque lhe perdi o hábito. Para mais essa experiência, a da vida, foi sempre para mim demasiado difícil. Nunca me habituei a ela e isso é estranho porque todas as pessoas a consideram uma coisa simples e natural, a mais natural e mais simples de todas quantas existem. Eu fiz sempre cerimónia e não procedi por isso como devia, como procediam as outras pessoas, mesmo as mais broncas e as mais rudes, com à-vontade."
Profile Image for João Barradas.
275 reviews31 followers
November 28, 2017
Viver a vida parece, à partida, uma tarefa que está impregnada em qualquer animal de tal forma que ele a executa sem se aperceber disso. Quiçá poderá ser assim para aqueles irracionais mas aqueloutros a quem alguém dotou de massa cinzenta para reflectir, questionam tal dádiva e o seu propósito, sempre que se transmuta de algo sólido para coisa liquefeita, que foge entre os dedos das mãos, para se entranhar na terra, sem cerimónia fúnebre prévia.
Fruto desses pensamentos que teimam em ruminar no pasto da mente, sem uma perfeita digestão com expulsão do material nefasto subsequente, a desenvoltura dos actos perde-se, os meios confundem-se em fins e inícios e forma-se um novelo sem que se consiga encontrar a ponta do fio nessa meada. Neste ambiente asfixiante, surge a alternativa protectora do isolamento e da solidão para não encarar o sofrimento dos outros nem lhes incutir mais ainda ao encararem tão doentia mentalidade, entre diminutivos e comparações, até porque mesmo que muita gente acorra em auxílio, ninguém poderá verdadeiramente ajudar porque o maior inimigo esconde-se num perfeito abrigo anti-fuga. Mas, como luz ao fundo do túnel, surge uma forma de enfrentar a besta ainda que possa ser letal: num acto de coragem, enfrenta-se a vida fingida, que se vê reflectida num espelho ou no vidro da janela no qual embate o sol, e, não suportando nem essa imagem vista ou imaginada como companhia, quebra-se um ou outro em mil cacos como a vida. Ah, mas se isso fosse tão fácil, se a chantagem à morte induzida pelo suicídio tivesse um pedido de resgate mais real e possível de pagar… Porque mesmo a inanição consome energia e por muito que se esteja canso de viver, não há mais forças para morrer!
No entanto, por muito amargo de boca que possa causar, a história de Mariana, por entre a esperança e o abandono que a perspectiva do fim confere, não é a única que compõe esta obra: há aquelas sobre sonhos que, mesmo dadas as possibilidades, não se quer concretizar para permanecerem num púlpito inalcançável, como altar de adoração; há outras sobre vingança, onde o roubo da essência da vida, nas mais variadas facetas que ela encerra, é pago na mesma moeda; há ainda outras que, abordando problemas mundanos, descrevem o paulatino definhamento que causam, sem um pingo de preocupação pelos sentimentos alheios; há umas sobre o fio da vida esticado, até formar farripas, sobre o lago tenebroso do álcool; há aquelas que, descrevendo a inércia face à vida rotineira, descrevem os efeitos de surpresas quando já não se contavam com elas.
Este é pois um livro sobre o desencantamento, a mesquinhez e a exaustão de uma sociedade portuguesa, do início do século passado, onde a representação de papéis artificiais conduzia a abnegação face à identidade própria por um bem maior não palpável e que, num estado patológico em espiral, teimava em terminar num asilo enredado, com uma corda amiga ou um frasco de veneno por perto.
Profile Image for Ensaio Sobre o Desassossego.
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November 27, 2021
"Todos estamos sozinhos, Mariana. Sozinhos e muita gente à nossa volta. Tanta gente, Mariana! E ninguém vai fazer nada por nós. Ninguém pode. Ninguém queria, se pudesse. Nem uma esperança."

De vez em quando - poucas vezes, é certo -, aparece na vida do leitor um livro que fala à alma, um livro que aquece o coração e diz como um sussurro "não estás sozinho". Foi isso que esta coletânea de contos foi para mim (e eu que afirmava não ser a maior fã deste género literário). Maria Judite de Carvalho - sem saber, pois claro - pegou na minha mão e levou-me com ela para um mundo em que as minhas angústias, os meus anseios são transformados em coisas belas. Angústias transformadas em boa literatura ajudam a acalmar-me a alma. E é tão bom quando aparece um livro assim nas nossas vidas.

Senti uma identificação enorme com a escrita de Maria Judite de Carvalho, uma escrita crua, mas profundamente bonita. Foi com o conto "Tanta Gente, Mariana" que eu fiquei absolutamente fascinada com esta escritora e Mariana é das poucas personagens que alguma vez falou directamente comigo. Falou-me ao coração.

Retratando o quotidiano, a autora apresenta a angústia, a tristeza e a solidão escritas de uma forma bela.

Praticamente todos os contos têm protagonistas mulheres e os enredos abordam o papel da mulher na sociedade portuguesa na segunda metade do século XX. Infelizmente, muita coisa ainda se mantem actual e conseguimos ver retratado o papel da mulher na sociedade e na própria família ainda nos dias de hoje.

Como é que passei 24 anos da minha vida sem conhecer esta autora? Como é que não estudamos Maria Judite de Carvalho na escola? Como?
Não sei se é só impressão minha, mas penso que esta é uma autora esquecida. Felizmente a Minotauro está a fazer um trabalho incrível de reedição das obras, com umas capas à altura e que chamam a atenção de qualquer leitor

É verdade que este é um livro sobre pessoas tristes e, acima de tudo, é um livro para pessoas que saibam compreender a tristeza. Que a saibam apreciar e que percebam que também há beleza na tristeza. É um dos livros mais belos que já li na língua portuguesa 💙
Profile Image for Isabel.
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June 10, 2019
Tanta gente, Mariana

“Todos estamos sozinhos, Mariana. Sozinhos e muita gente à nossa volta. Tanta gente, Mariana! E ninguém vai fazer nada por nós. Ninguém pode.”

A vida e o sonho

“Se mentia era só para sentir que a mulher compreendia mais facilmente as mentiras que ele lhe dizia do que as verdades que pudesse dizer-lhe.”

A mãe

“(…), o fim da vida aparecia-lhe muito simplesmente como o fim de tudo, um misto de noite definitiva e de mar sereno e de coisa nenhuma. No que ela começou a pensar foi nos cabelos brancos que já tinha e nas rugas dos cantos dos olhos e nas suas grandes mãos vazias, sem passado e sem futuro.”

A menina Arminda

“Em casa, levava o tempo a devorar romances como se esse mundo fictício que eles lhe davam fosse uma compensação para a sua existência vazia.”

Noite de natal

“Olhou a direito para a filha e Emília pensou que ele não era a mesma criatura mole e sofredora que ali estava havia um segundo. Tinha outro olhar e outra voz. Parecia mais viva.”

Desencontro

“- Eu sabia. É engraçado, Duarte, tenho levado a vida a saber as coisas antes de mas dizerem. Eu sabia que mais tarde ou mais cedo isto havia de acontecer. É esquisito, não achas? Obrigada pelo chá. Foi bom não ter posto o chapéu de plumas. Não valia a pena…”

O passeio no domingo

“Era uma pobre mulher atraiçoada por um marido fiel e que um dia – uma noite – em frente dele a trabalhar na sua escrita, dera consigo só no mundo incapaz de lhe dizer uma frase qualquer, dessas que dizem para encher o silêncio.”
Profile Image for Tita.
2,201 reviews233 followers
May 1, 2019
Nos últimos meses ouvi falar tanto e bem da autora que na minha última ida à biblioteca, "tive" que trazer este livrinho maravilhoso.
Sim, é um livro de 8 contos (e sim, sei que não sou fã de contos) mas adorei-o!
Histórias cruas, tristes e melancólicas, sobre perda, morte e sonhos desfeitos mas com uma escrita que me cativou e que retrata na perfeição pessoas reais, com vidas desfeitas.

Vejam a minha opinião mais detalhada em vídeo, AQUI.
Profile Image for José Simões.
Author 1 book51 followers
October 5, 2020
É verdade que nem tudo o que se reúne neste volume tem uma qualidade superior. Também é verdade que o que aqui é bom é por vezes mesmo muito bom. Tira-teimas: Maria Judite de Carvalho é a grande escritora das paisagens interiores, de uma agonia existencial que vai do patético ao histriónico, passando pelo agónico e pelo sórdido. Como um Vergílio Ferreira que não se levasse a sério ou um Eça que tivesse conhecido Sartre e Camus. De resto, o mesmo mundo e o mesmo modo de uma Lídia Jorge ou, melhor comparando, de uma Luísa Costa Gomes. Depois, não posso deixar de reparar que entre Tanta gente, Mariana e As palavras poupadas vai um mar de diferença, de qualidade e de capacidade de desenvolver e resolver os pontos centrais dos contos/novelas. Mas são também exemplo de uma imaginação e de uma capacidade de escrita pouco comuns entre nós. Sobretudo porque há muito mais do que aquela melancolia que lhe tem sido associada - em lugar de destaque a ironia de que já falei e que leva a palma por ser tão fina e elegante que nem sempre é fácil de a reconhecer. Sem ironias, claro.
Profile Image for Gianni.
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July 27, 2024
Di nuovo racconti, la dimensione narrativa che negli ultimi tempi prediligo, e ancora una raccolta di notevole spessore, di un autrice a me totalmente sconosciuta. Il primo racconto, un racconto lungo pubblicato nel 1959, dà il titolo al libro e rappresenta un po’ la chiave di lettura della raccolta. Maria Judite de Carvalho è estremamente moderna per tematiche e per modo di affrontarle; solitudine, convenzioni sociali, rapporti a volte intrisi di sopraffazione maschile spesso più legata alla struttura sociale e familiare e agli stereotipi che alla violenza fisica (che non manca). In genere sono protagoniste le figure femminili, che sentono la vecchiaia incombere già tra i 35-45 anni e l’approssimarsi della fine. Più volte nel corso della lettura mi è venuta spontanea l’associazione con ”Nemico, amico, amante…” della Munro.
Decisamente una bella sorpresa.
Profile Image for Inês.
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August 25, 2021
Esta escrita é um bálsamo.
Profile Image for Sónia Carvalho.
196 reviews17 followers
May 14, 2022
Urbano Tavares Rodrigues descreve Maria Judite Carvalho como tendo sido "a escritora da solidão e do silêncio das «palavras poupadas«. Fez, nas suas novelas e contos, o retrato irónico e desencantado da pequena burguesia lisboeta, das frustrações e desistências das mulheres e dos velhos, de toda uma sociedade lentamente envenenada pela moral hipócrita do fascismo português. Aliando o humor à arte da concisão e da reticência, sempre convidou o leitor a entrar nas suas histórias e completá-las, a vivê-las de algum modo. Foi sem dúvida uma das maiores ficcionistas do nosso século XX."

Não conhecia a obra de Maria Judite de Carvalho, mas hoje não posso concordar mais com as palavras do seu marido. A autora é exímia a exprimir o cansaço existencial que muitos de nós sentimos e a captar as pessoas com uma sensibilidade muito particular. Este primeiro volume das suas obras, fala-nos da dualidade entre apetecer partir, mas ter medo e preferir ficar, da importância do parecer sobre o ser, da solidão, do divórcio numa época onde ele ainda era muito penalizador para as mulheres, dos casamentos mornos sem amor, do orgulho, da vergonha, dos remorsos, da bisbilhotice, da desconfiança, de existências vazias, de loucura, da constante sensação latente de frustração e das expectativas guradas. É um livro sobre a vida que poderia ter sido e não foi. As personagens são retratadas como pessoas de carne e osso, pessoas que eu poderia conhecer, muitas com sentimentos e pensares semelhantes aos meus, pessoas imperfeitas. Pessoas confinadas a papéis que não as deixam "voar", a uma paz podre, onde tudo parece perfeitinho, excepto o interior das pessoas.

Nunca fui fã de contos, acho-os demasiado curtos para entrar dentro das mini histórias, mas Maria Judite de Carvalho fez-me mudar completamente de ideias. A escrita é tão boa e envolvente, que ainda hoje me lembro dos meus contos preferidos: o singelo "A Vida e o Sonho", o surpreendente "A Avó Cândida", o claustrofóbico "A Noite de Natal", o triste "A Sombra da Árvore" fizeram-me mudar a perspectiva que tinha em relação a este tipo de escrita e o mérito vai todo para a escritora.

No primeiro conto, conhecemos Mariana que descobre que tem uma doença terminal e faz uma retrospectiva da sua vida para perceber a solidão em que se encontra. Numa altura em que as mulheres não eram devidamente valorizadas, em que viviam principalmente para casar e tratar do marido e da casa, Mariana viu o seu marido apaixonar-se por outra mulher. Divorciada, sem o filho com que sempre sonhou e sem emprego estável, foi discriminada e estigmatizada, vivendo cada vez mais isolada e solitária num quarto arrendado. A realidade sobre o ser-se mulher nos anos 50, a hipocrisia da sociedade que condena, critica e afasta a mulher traída e vangloria o homem que traiu são retratadas de forma soberba pela autora e tê-lo feito numa altura em que as mulheres não tinham voz, é de louvar.

No conto "A Vida e o Sonho", conhecemos Adérito, um bancário sonhador, que vive uma vida morna e que todos os domingos vai ver barcos e aviões partir, imaginando uma vida que não tem. Um dia tem a oportunidade de ser ele a partir, mas será que arrisca? Adérito representa o português melancólico que não é feliz com a vida que tem, mas que ao mesmo tempo também não é ambicioso, é um homem conformado e não combativo, um sonhador, que sonhará para sempre. Gostei especialmente deste conto porque Maria Judite de Carvalho consegue captar de forma incrível o sentir das pessoas que viveram num Portugal cinzento e fechado, que pouco espaço deixava para os sonhos.
Profile Image for Sofia.
1,036 reviews129 followers
July 7, 2020
"Vida verdadeira eu já não seria capaz de viver, porque lhe perdi o hábito. Para mais essa experiência, a da vida, foi sempre para mim demasiado difícil. Nunca me habituei a ela e isso é estranho porque todas as pessoas a consideram uma coisa simples e natural, a mais natural e mais simples de todas quantas existem." ("Tanta gente, Mariana")

Há qualquer coisa nos contos de Maria Judite Carvalho que me lembra Clarice Lispector. O mesmo olhar introspectivo, de inadequação e levemente depressivo.

Dos vários contos da antologia, destaco "Tanta gente, Mariana", "Noite de Natal", "A vida e o sonho", "A menina Arminda", "Uma história de amor", "A sombra da árvore" e "Câmara ardente".
Profile Image for Raquel.
9 reviews5 followers
November 5, 2024
Foi a primeira vez que li Maria Judite de Carvalho, que logo no primeiro conto deste livro (Tanta gente, Mariana) entrou para os meus autores favoritos. Fica uma enorme vontade de ler os restantes volumes da obra completa desta escritora que parece ser tão pouco conhecida em Portugal. Mais do que injusto, é incompreensível que uma escrita como esta tenha caído no esquecimento.
Profile Image for Vera Sopa.
744 reviews72 followers
August 20, 2020
Lá fora chove e senti a solidão, o desamparo e desesperança. Tanta Gente, Mariana. Há pessoas assim, que cedo sentem que estão sós. Que ninguém fará nada por elas. E outras desejam e deixam a vida escoar sem concretizar o sonho. Acabei por rir com A Avó Cândida. Curioso título A mãe para o conto que li a seguir. Ainda refleti sobre este e outros aspectos de que tanto gostei. A ânsia por mais dinheiro mesmo para quem tem e não tem a quem o deixar, nem tempo para o gastar ou gozar. O vazio imenso de uma mulher casada com um ser assim. Condoi-me com A menina Arminda que ainda em criança perdeu a inocência e quis amar um filho que não era seu. Noite de Natal perdeu Emilia a esperança. Desencontro não tem muito que se lhe diga. É apenas isso. O passeio de domingo marcou-me mais.

As palavras poupadas é o segundo mais longo conto deste livro e o que menos gostei.
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