Este livro de José Eduardo Agualusa aborda temas semelhantes a outros anteriores do mesmo autor acerca de Angola, como a corrupção do governo, o poder quase absoluto dos detentores do poder político, a falta de liberdade, a perseguição movida aos opositores do regime, a violência e a insegurança urbanas e a pobreza da generalidade da população em contraste com a riqueza de alguns.
Contudo, contrariamente a outras obras, o tempo onde decorre a acção não é no passado recente a seguir à descolonização portuguesa nem no presente, mas antes num futuro próximo, na cidade de Luanda, durante o ano de 2020.
A história desenrola-se em torno de duas personagens principais, Bartolomeu Falcato, escritor e cineasta, e Kianda, cantora com uma carreira de sucesso a nível internacional, que mantêm uma relação extraconjugal já com vários anos, sendo ambos casados e o primeiro pai de várias meninas.
Apesar de se amarem, o relacionamento entre ambos é muito conturbado, pois Kianda tem uma personalidade auto-destrutiva e não há nada que lhe traga tranquilidade e alegria, pretendendo manter o seu casamento, porque o seu marido é simultaneamente seu agente e transmite-lhe segurança emocional. Quanto a Bartolomeu Falcato, o mesmo vive amargurado pelo falecimento da sua filha mais nova, de que se sente culpado e que quase terminou com a sua vida e com o seu casamento, uma vez que a sua esposa também não o consegue perdoar da morte acidental da criança.
À volta destas personagens, surgem muitas outras com histórias cruzadas, que se desenrolam em sucessivos acontecimentos entre o presente e o passado, o que me fez perder muitas vezes na leitura e a ter que recomeçar de novo vários capítulos, retirando alguma fluidez e interesse à narrativa.
Além das vidas pessoais das personagens, o livro, como é apanágio de José Eduardo Agualusa, mostra-nos os contornos políticos, sociais e económicos da cidade de Luanda, onde as pessoas que revelam publicamente os segredos dos detentores do poder, como Núbia de Matos, uma modelo e apresentadora de televisão, são assassinadas, tendo esta última caído do céu durante uma tempestade tropical, enquanto Bartolomeu Falcato e Kianda se aproximavam um do outro num lugar desconhecido junto de uma estrada já fora de Luanda e que a tal assistem em sobressalto.
Apesar do medo que sentia, da perseguição que lhe era movida e dos riscos que corria, Bartolomeu Falcato, com ajuda de alguns amigos muito peculiares, tenta descobrir quem assassinou Núbia de Matos e quem também o pretende matar, num período em que se encontra a viver sozinho, pois é simultaneamente abandonado pela amante e pela esposa.
E nessa busca pela verdade, o leitor fica a conhecer os vários submundos da cidade de Luanda, onde a violência, a droga e a prostituição tomam conta da noite e onde um curandeiro gere uma espécie de hospital psiquiátrico, com a anuência das autoridades, encontrando-se os prisioneiros políticos acorrentados num labirinto de paredes de betão, a quem aquele consegue extrair todas as confissões, utilizando métodos e substâncias nada ortodoxas provenientes de tribos ancestrais.
Um livro difícil de ler, não só pela sua construção narrativa, como também porque revela o lado negro do poder e do ser humano, mas que nos deixa uma réstia de esperança quanto aos que tentam sempre opor-se aos desvarios do autoritarismo, mesmo tendo medo, dado que a coragem é também lutar contra as injustiças, não por bravos heróis destemidos, mas por homens e mulheres comuns que não desistem perante as adversidades.