A cada capitulo finalizado, ou seja, a cada dia do diário escrito por Carolina, é um golpe no leitor. Não importa o quão progressista, empático ou compreensivo você seja, é impossível compreender a fome, ao menos que você já tenha passado, aí você consegue compreende-la. A própria Carolina relata, o povo não conhece a fome, é preciso conhece-la para entende-la. A Carolina Maria de Jesus enfrentou a escravidão moderna: a fome.
Ao longo dos relatos de Carolina, contando suas vivencias na favela junto de seus 3 filhos, sustentados apenas por ela, o leitor vai tentando compreender uma realidade triste, sofrível e que não há esperanças de melhora, e o pior, que são relatos da década de 1950, mas que hoje em dia existem semelhanças em diferentes estados brasileiros, onde a fome ainda está presente, pessoas estão vivendo na rua, e segundo o Censo de 2022, a rede de esgoto alcança 62,5% da população, mas desigualdades regionais e por cor e raça persistem.
Durante a leitura, diversos sentimentos foram sendo despertados, angustia, raiva, tristeza, sofrimento, e principalmente o desprezo pelo sistema capitalista que promove a desigualdade para que o mesmo tenha sucesso. Por conta dos diversos relatos que perpassam diversos temas, eu fiz algo que não faço normalmente com minhas leituras, anotei diferentes temas e passagens que foram me gerando reflexões, as quais pretendo desenvolve-las um pouco nesse texto, mas sem me aprofundar demais, pois são temas que podem ser discorridos por horas e páginas além do que pretendo escrever.
Algo recorrente nos relatos de Carolina, é o álcool presente na população negra que vivia na favela do Canindé. Essa relação do Álcool com a população negra é bem discutida dentro de movimentos sociais e em diversos podcasts, representantes da comunidade negra já debateram sobre esse problema. A discriminação racial é um dos principais fatores que leva a população negra ao uso nocivo do álcool, e o fato do mesmo ser legalizado e vendido em diversos locais, torna-o de fácil acesso e serve como uma porta de entrada que leva ao vício. Dados da CISA (2022), apontam que Preconceitos devido a crenças, atitudes, arranjos institucionais e atos percebidos e/ou internalizados da comunidade negra provocam situações de estresse a esse grupo, levando muitos a buscar recursos de enfrentamento diversos, incluindo o uso do álcool. Além disso, a própria marginalização provocada pelo sistema vigente, rebaixando o negro a uma posição inferior e privando-o de acessos básicos a seus direitos, corrobora para que o vício no álcool, uma droga legal e barata, se torne uma porta de escape da realidade de forma acessível. A depressão e a discriminação socioeconômica são necessárias sob a ótica do imperialismo e a democracia burguesa vigente, que visa manter os privilégios da elite dominante.
Ainda sobre o ensejo da democracia, os relatos políticos da Carolina mostram toda a descrença no sistema político vigente da época, que mesmo sendo uma democracia, é uma democracia burguesa que dá a falsa sensação de participação do povo, mas que não busca solucionar os problemas sociais que estão presentes, como a fome, falta de moradia, doenças, acesso a saneamento e educação de qualidade. Mas mesmo naquela época, Carolina relata que os políticos, buscando voto, fingiam estar preocupados com o povo e faziam visitas na favela em ano de eleição, dando um discurso de falsa esperança ao povo pobre. Nas próprias palavras da autora, em 1955, ela já observava a democracia ruindo e questionando o modelo de sistema político.
Outro elemento que me chamou atenção nos relatos de Carolina, foram os julgamentos que a mesma sofria de seus vizinhos, que vão além de questões de pobreza e sanitárias, e perpassam algo diferente, pois ela era atacada e vista com maus olhos porque sabia ler e escrever, além de cultivar o hábito da leitura e da escrita. Tal fato que era um orgulho para Carolina, gerava desdém com seus vizinhos, que era ainda corroborado por ser solteira e criava seus filhos sem um marido.
Carolina com toda sua simplicidade, conseguia ter um olhar e uma análise antropológica genial, e sob uma ótica da organização social, a mesma se referia a favela como o quintal de São Paulo, onde o lixo era jogado, e se referia a população da favela como se fossem porcos, e isso, levando em consideração o contexto histórico de formação da sociedade brasileira, é identificável como algo válido. Tendo como base o contexto da abolição da escravidão, a população escravizada foi liberta sem amparo do estado e sem políticas públicas que buscassem inseri-los em uma sociedade em que o dinheiro era necessário para sobreviver. Desse modo, desde 1888, a população negra se tornou marginalizada, buscando subempregos para ganhar algum trocado e tendo que viver nas ruas ou em locais periféricos, pois no centro eram expulsos por políticas higienistas ou sofriam repressão/eram presos acusados de vadiagem. Assim, desde a formação de uma sociedade em que os negros não eram mais escravizados, a organização social tratou de joga-los no “quintal” como Carolina Maria de Jesus chama as favelas.
No âmbito do dinheiro, o deus da sociedade capitalista, Carolina faz diversas reflexões interessantes, que nos faz questionar o real valor desse papel que atribuímos um valor. A própria autora aponta, o dinheiro é apenas um metal criado pelo homem, ou seja, o poder atribuído a um pedaço de papel ou metal é o que rege a sociedade, pautando quem tem direito de comer, ter uma casa, ter acesso a saúde e utilizar transporte. É triste e revoltante pensar que um pedaço de papel vale mais que uma vida, ou que um produto produzido, por exemplo um alimento, quando não rende tanto dinheiro devido ao excesso de produção, é preferível ser descartado esperando sua valorização do que vende-lo mais barato ou dar para quem precisa. Quarto de Despejo é pautado pelo sentimento de fome, e nas passagens que Carolina conta que passava pelos armazéns, mercearias e frigorifico e assistia os funcionários jogarem fora a comida, é um sentimento impossível de se descrever, falta humanidade, mas um sistema que prevalece na desigualdade não se da ao luxo de ser humano.
Nesse ensejo, a própria Carolina menciona que os donos desses locais onde se vendia comida não gostavam dos pedintes, ou como ela os chama, dos favelados pedindo esmola, logo ordenavam que seus funcionários obedecessem. E assim, mesmo o operário sendo uma pessoa que provavelmente era um igual de Carolina ou ao menos próximo no sentido econômico, seguia as regras do patrão. Por isso, a autora denomina os operários como os escravos da miséria.
Um tema que não é abordado diretamente no livro, mas que há uma passagem em que é possível realizar análises em cima, é a respeito da falácia da “meritocracia”. A meritocracia direto está em pauta na sociedade hodierna, e na passagem de Carolina em que ela conta ter visto meninos jogando bola, cheios de energia, mesmo naquela situação de miséria, fica imaginando se eles comessem carne e tomassem leite. Tal relato da autora me trouxe à tona o pensamento de que incontáveis talentos descobertos nas favelas não possuem chance de prosperar nesse sistema feito para moer pobre devido a falta de oportunidades e recursos. Imagina quantos professores, músicos, artistas e jogadores poderiam surgir se ao menos tivessem acesso a alimentação. Por isso, Carolina é certeira quando fala que a fome é uma professora, que ensina muito sobre a realidade, e que o país deveria ser governado por quem já passou fome, para que assim consiga entender a realidade das periferias.
Ainda sob o prisma da fome, é triste saber que o sofrimento enfrentado por Carolina e seus filhos ocorreu na década de 1950 e ainda é um problema real de 2025. Toda vez que a escritora mencionava que ela e outras mulheres faziam fila no frigorifico para pegar ossos para fazer sopa ao menos com gosto de carne, me faz lembrar do Brasil nos anos de pandemia em que as pessoas faziam fila para pegar ossos em caminhões para ter acesso a carne, ou pelo menos o gosto dela.
O que é interessante de se observar nos relatos de Carolina, é que mesmo todos os moradores da favela tendo suas diferenças, brigas e problemas, há momentos de reciprocidade quando o assunto são alimentos e/ou temperos. A troca de cebola, alho, sal, açúcar e alguns outros alimentos foi presente em diversos momentos do diário, e até mesmo alguns convites para refeições como jantar ou almoço. O sentimento de comunidade, mesmo que em breves momentos, é presente. Com todas as dificuldades impostas pela situação de extrema pobreza, a comunidade se ajudava.
Ademais, após terminar esse livro, fiquei pensando que obra pesada e incrível sobre a realidade do povo brasileiro. Fiquei incomodado de que tal obra serve como estudo aprofundado da formação da sociedade brasileira da época e eu só fui ter contato com a obra aos 25 anos, mesmo tendo feito faculdade de Ciências Sociais, em que não houve menção a obra. Ao terminar esse livro, fico incrédulo a respeito de tudo que a Carolina passou, e junto com as músicas do Racionais, coloco essa obra como essencial para minha vida e formação de pensamento crítico sobre a sociedade.
Por fim, fui ler algumas reviews a respeito dessa obra e vi gente falando que a mesma é repetitiva ou que serve como documento histórico, mas não como obra literária. Fico pensando, o quanto a pessoa tem que ser espirito opaco para ler todo esse livro e avalia-lo de tal maneira. A linguagem chamada de “repetitiva” por algumas pessoas é devido a um sentimento: FOME, que talvez o floquinho de neve que escreveu isso nunca tenha sentido. A Carolina escreve com simplicidade, mas com uma simplicidade rica em detalhes e muito avançada considerando todas as suas limitações escolares e socioeconômicas.