Aviso aos Náufragos Esta página, por exemplo, não nasceu para ser lida. Nasceu para ser pálida, um mero plágio da Ilíada, alguma coisa que cala, folha que volta pro galho muito depois de caída. Nasceu para ser praia, quem sabe Andrômeda, Antártida, Himalaia, sílaba sentida, nasceu para ser última a que não nasceu ainda. Palavras trazidas de longe pelas águas do Nilo, um dia, esta página, papiro, vai ter que ser traduzida, para o símbolo, para o sânscrito, para todos os dialetos da Índia, vai ter que dizer bom-dia ao que só se diz ao pé do ouvido, vai ter que ser a brusca pedra onde alguém deixou cair o vidro. Não é assim que é a vida? Leminskituras Delirantes Cid Ottoni Bylaardt, professor do Pré-Vestibular Pitágoras Paulo Leminski é um poeta curitibano, nascido em 1944, razoavelmente citado e pouco lido. Conhecido por sua personalidade polêmica, provocadora, irascível, colecionou epítetos: cachorro louco, poeta provocador, agitador de mil baratos, samurai futurista, Rimbaud curitibano com físico de judoca, discípulo zen de Bashô, lampiro-mais-que-vampiro de Curitiba, caipira cabotino, polilingüe paroquiano cósmico, caboclo polaco-paranense. Suas influências declaradas foram a contracultura dos anos 60, o concretismo ("a loucura que aquilo representa, a ampliação dos espaços da imaginação, e das possibilidades de novo dizer, de novo sentir, de novo e mais expressar"), João Cabral, Guimarães Rosa, Samuel Beckett (autor americano do teatro do absurdo), John Lennon, Matsuo Bashô (poeta japonês samurai do séc. XVII, considerado o pai do haicai), Trótski (revolucionário comunista russo), Jesus Cristo e Cruz e Souza (poeta simbolista negro catarinense).
Paulo Leminski Filho (Curitiba, August 24, 1944 – Curitiba, June 7, 1989) was a Brazilian poet and writer. He took pride in being of mixed Polish and African descent. His first small-press collection came out in the late 1970s. Although he never finished college, by the 1980s he knew Japanese, French, and English well enough to do translations. His most noted renderings are of Alfred Jarry, James Joyce, John Fante, John Lennon, Samuel Beckett, and Yukio Mishima. He also helped to produce a number of albums and was said to have taught judo. Leminski was a prolific poet, wrote experimental prose / essays, occasionally wrote songs, and was a cultural agitator. He was the leading voice of his generation, having followed different paths of Brazilian lyric from the early 1960s through the late 1980s. His style of poetry has been compared to that of American poet e. e. cummings (song writer / singer Luciana Souza on the Tom Schanbel show on KCRW 89.9 fm 06/24/2009). He contributed to the journal Invenção, while still a teen and would maintain a strong sense of visuality and layout in his poetic output. Some of Leminski's poetry of the late 1970s/early 1980s has been linked to the controversial labe of poesia marginal. But his dedication to resolution in language set him apart. His collections Caprichos & Relaxos (1983) and Distraídos venceremos (1987) are landmarks. In the latter, his rigor and intertextual urges are clear. A neo-baroque narrative, Catatau (1975), has become a cult book. His home town Curitiba has sponsored a yearly celebration of his legacy and cultural vibrancy in Brazil. The event's name Perhappiness is taken from a one-liner by the poet.
Merda é veneno. No entanto, não há nada que seja mais bonito que uma bela cagada. Cagam ricos, cagam pobres, cagam reis e cagam fadas. Não há merda que se compare à bosta da pessoa amada.
Até tu, matéria bruta, até tu, madeira, massa e músculo, vodka, fígado e soluço, luz de vela, papel, carvão e nuvem, pedra, carne de abacate, água de chuva, unha, montanha, ferro em brasa, até vocês sentem saudade, queimadura de primeiro grau, vontade de voltar pra casa?
Argila, esponja, mármore, borracha, cimento, aço, vidro, vapor, pano e cartilagem, tinta, cinza, casca de ovo, grão de areia, primeiro dia de outono, a palavra primavera, número cinco, o tapa na cara, a rima rica, a vida nova, a idade média, a força velha, até tu, minha cara matéria,
É tão bom ler Leminski qu’eu daria o céu cheio de estrelas pra esse - distraídos venceremos- . Talvez seja Paulo, o único sulista que simpatizo, foi ele e Ana C. que me apresentaram a poesia tal qual como a concebo. É incrível, Leminski é bicho-poeta solto, se guia pela palavra exacta, é mordaz, é único, é nosso salvador da pátria. Viva Viva Viva O Leminski ermitão Pra sempre em meu 🤍
Não entendo de poesia nem é meu gênero favorito, mas adorei esse livrinho (o diminutivo é só pelo tamanho, ñ pelo valor ou qualidade). Nem sei falar sobre ele, só sei que me encantou a forma como o poeta encaixa palavras que fazem sentido de um jeito inteligente e delicado. Me perguntava a cada poema lido como é possível alguém ter esse tipo de talento e raciocínio, juntar palavras de um jeito que não precisa de sentenças completas para gerar sentimentos, sensações e reflexões no leitor. Senti inveja, confesso, mas uma profunda admiração bem maior.
uma brincadeira das coisas sérias. no lugar da diversão, expande-se o frescor interessado de uma brisa velha que antecede todos os grandes ventos. a ludicidade da palavra numa tentativa para o imbricado de viver. recolhimento reconhecido da poesia na vida. os sentidos que trazem o mundo de uma maneira que carrega a experiência como forma para existência. reflexão inescapável da potência do dito, expresso como hão de fazer sentido seus efeitos distraídos pela dificuldade de si, mas nunca desinteressados de serem. a vivência dos sentidos significa e nunca se fecha, como se desistisse sabendo que ser dói mais que a vida: se reorganiza na experiência e se faz desejosa de continuar a ser - e é sendo que as palavras são sentidas como poesia. pulsante afetação diante das coisas que ainda surpreendem e pra sempre significam - iminência de vida no ajuste singular da palavra traz uma crescente saudade na forma de sabedoria, que se torna uma razão a ser sentida, um abrigo arquitetonicamente sentimental.
Sabe qual é o pior? Eu não sei muito o que fazer do Leminski. Ao mesmo tempo que alguns poemas são muito charmosos (com aquele ar pueril de uma juventude setentista-oitentista, o verso coloquial despojado contaminado de uma pretensãozinha gostosa), outros poemas me dão um cansaço... Num geral, o impacto é de pouco a nenhum, é um poeta fofo e meio que morre aí. Num geral, lembrando sempre, num geral. Tem poemas afiados sim, mas nem esses me impressionam muito não. Versos legais pra se ler num café, ou sonolento do dia, deitado na cama depois pensando letras.
eu, hoje acordei mais cedo e, azul, tive uma ideia clara. só existe um segredo. tudo está na cara.
sorte no jogo azar no amor de que me serve sorte no amor se o amor é um jogo e o jogo não é meu forte, meu amor?
eu ontem tive a impressão que deus quis falar comigo não lhe dei ouvidos quem sou eu para falar com deus? ele que cuide dos seus assuntos eu cuido dos meus
Li a edição poesia de bolso, da companhia das letras, achei dois dos meus poemas favoritos do Paulo. Incrível a leveza que esse cara conseguiu trazer pras poesias dele. Amei amei amei.
Descobri is haicais de Leminski atraves da agenda da tribo, de quem sou fã até hoje. Li, e reli, várias vezes fui atrás dos outros livros dele. Gosto muito
[...]Vim pelo caminho difícil, a linha que unca termina, a linha bate na pedra, a palavra quebra uma esquina, mínima linha vazia, a linha, uma vida inteira, palavra, palavra minha. p. 18
Como pode? [...] Marginal é quem escreve à margem, deixando branca a página para que a paisagem passe e deixe tudo claro à sua passagem
Marginal, escrever na entrelinha, sem nunca saber direito quem veio primeiro, o ovo ou a galinha p. 70