Eis aqui sete histórias escritas com força ímpar e altíssima voltagem literária. Publicado originalmente em 2019, Vila Sapo imediatamente chamou a atenção para José Falero, até então um jovem e desconhecido autor vindo das quebradas de Porto Alegre. Desde aquele momento, o livro apresentou a críticos e leitores um escritor já dotado de uma variada gama de recursos, modulando em cada história a voz das ruas com um refinado registro literário.
Tão bom quanto Os Supridores, Falero transpõe a realidade do subúrbio de Porto Alegre, em especial, dos becos, das favelas e das 'baias' para compor um excelente copilado de contos que abordam a vida e a violência que imperam no local, em tramas que unidas pelo medo são o retrato da Vila Sapo e daqueles que ali vivem, em um espiral de atos e desastres, onde "a vida parece estar fora de moda".
Focando, portanto, no caos diário do combate entre as forças de segurança e um grupo de moradores, o escritor despe toda sorte de preconceitos, traumas e agressões diárias em cada uma de suas histórias, desde o sequestro à uma motorista, ao assassinato de um morador, até a um passeio desinteressado pelas ruas da favela, constituindo, assim, com uma escrita oral e falada do local, um espelho da realidade que quase sempre é escondida e mascarada.
Tal qual Giovanni Martins em Via ápia, Falero leva o leitor, ou melhor, traz a favela para a literatura; como tudo, nem sempre é bonita e pacífica, mas é sobretudo a vida como ela é. A mim, uma ótima leitura imersiva, uma pena ser tão curto.
Fiz o caminho inverso do que gostaria de ter feito: li "Os supridores" antes de ler "Vila Sapo", publicação anterior do autor. Inverso porque gosto muito mais de romances e aquele foi um dos melhores que li no ano, então seria difícil não embarcar na leitura desses contos cheia de expectativa. As expectativas, felizmente, se cumprem. A escrita do Falero segue primorosa, e as cenas narradas promovem uma imersão fácil no cenário. Quero continuar lendo a obra completa do Falero enquanto ele seguir publicando: sejam romances, contos ou crônicas, o cara evidentemente manda muito bem em todos os formatos.
Ler Vila Sapo me fez pensar sobre fuga. Não é papo de medo. É Literatura que canta sobre estar sempre atento. Não é possível fraquejar em nenhuma página, menos ainda dizer sim ao lugar animalizado em que a sociedade plena de desigualdade quer manter o pobre, negro, periférico. Mas também é uma Literatura sobre afetos.
É fuga, mas não é sobre fugir. Quem foge sempre acaba ficando com os piores lugares, os narradores sabem. Assim, os personagens principais buscam cimentar um novo caminho, apropriar-se deste lugar chamado Vila Sapo. Às vezes pagam pau pro Diabo, metem os melhor pano, arriscam pra ter um momento sem miséria, de quem vive nos bairros privilegiados da cidade.
O texto de José Falero ginga, corre solto pelos becos e vielas do livro. Entra e sai da oralidade sem embaraço, prezando sempre pelo deslocamento. Se o movimento não é - a pé, de carango, de bonde - de uma geografia a outra, o rolê acontece nas variações da linguagem (oral-formal, jovial-adulto, irônico-brutal etc) ou ainda no tom da narrativa, do mais sereno para o mais contundente. Há personagem que te leva pela mão com bastante leveza até um primeiro beijo e há, também, quem te faz percorrer o caminho do aniquilamento.
Não é papo de medo. Os narradores não vacilam, atentos e mentalmente fortes, dão a real sobre seu canto no mundo. Nas curvas de cada conto, é apresentado ao leitor um pouco das pessoas e das memórias que vivem ali. Não se trata de passeio turístico na favela, um naturalismo gourmet com pit stop para selfies com os “nativos”.
O foco das palavras não recai sobre quem aceita a sina de cabeça baixa. Menos ainda sobre “vermes”, estes tipos fracos que descontam suas misérias nos demais. Interessa ao autor personagens que não devem nada a ninguém - a maioria das pessoas da periferia - gente que, mesmo na pobreza material, mantém a cabeça erguida.
Apesar dos problemas recorrentes em todas as periferias do mundo - política e polícia delinquentes, precariedade nos serviços públicos, violência física e simbólica, drogas lícitas e ilícitas etc -, há uma praça no coração da Vila Sapo onde junções, histórias e loucuras têm vazão sob a luz da lua sobre o poste de lâmpada estourada.
Mas também é uma Literatura sobre afetos. Vou te dizer pra ti: cada história traz uma forma de encontro, de força interior, de alma, de ser, de dignidade. Apenas a título de ilustração, quando você ler Vila Sapo, preste atenção no olhar generoso do narrador para Dona Márcia no conto “atotô”; também lá no meio do “dignidade-relâmpago” aprecie o espaço que se abre pra falar do que “Tá dentro da gente” apesar de toda mágoa e frustração; e sobretudo acompanhe o percurso interno realizado no conto “um otário com sorte”, momento em que a empatia se expande para além das relações de parentesco, dando vida ao texto e mostrando uma dignidade pouco encontrada na Literatura.
Após a leitura, voltou-me ao pensamento dúvida antiga: para que serve a Literatura?
Quando alguém da periferia produz verdade, dá um passo mais pra fora desse determinismo, há sempre um irmão, um vizinho, um menor aprendendo. No caso de artistas – descobri pela apresentação do autor ao fim do livro que, além de escritor e músico, o cara é desenhista e desenvolvedor de software! –, tem uma comunidade andando junto. Assim, a publicação deste libro é uma forma de “ninguém solta a mão de ninguém”. Produzir desacomodação, reflexão, caminho. Não medo. Quem ainda tem coragem?
Não é só mais um livro que dá a conhecer parte ignorada do país. Mais do que isso, nomeia um lugar e fixa-lhe memórias através da escrita. Prestando atenção durante a leitura de cada conto, não é um lugar que se deseje abandonar. No plano de fundo do livro, há uma questão de pertencimento. Há esgoto e morte também, mas no conjunto o que brilha mais é resistência afu.
Em nosso contexto de extrema urbanização, há quem escreva para manter privilégios e conservar o mando de campo da indiferença. E há quem produza vida na escrita – e aqui não se trata de vida apenas como antônimo da palavra morte, mas sim da vida com sentido, pulsão, visão, germinação do sentimento de existir humano -, o que se percebe desde o primeiro conto de Vila Sapo.
Baita livro. Escrita fácil, divertida, surpreendente e cativante. Se esse é o livro de estreia, acredito que esse Falero vai muito longe e já vou aguardar os próximos livros.
José Falero é o tipo de autor que te leva a conhecer uma realidade que por vezes já foi retratada em outras formas de arte como o rap e o samba, mas em um terreno nem sempre divulgado: a periferia de Porto Alegre.
Em um formato de contos e com uma escrita profunda, ele nos convida a conhecer histórias de onde se tem apenas fragmentos marginais.
A seguir, listo algumas frases que me tocaram:
- É que andar por aí entre pessoas estranhas ou entre pessoas que a gente não tem tanta intimidade assim, isso implica em fingir o tempo todo, representar. Tu nunca quer mostrar como tu realmente é para qualquer um. Tu só mostra quem tu realmente é para as pessoas com quem tu se sente à vontade.
- Tem um monte de gente querendo a morte hoje em dia, das mais variadas maneiras. A vida tá fora de moda.
- O que um coração covarde mais quer, mais deseja, mais espera é justamente a oportunidade ideal para aliar-se a outros corações igualmente cruéis e covardes, de modo que possa regozijar-se na prática atroz sem o medo de ser execrado sozinho.
- Eu não sei por que, tá ligado, eu não sei explicar, mas é massa, é gostoso ver que a morte passa perto o tempo todo, e ver que a gente tem a manha para driblar ela, ou ver que a sorte paga pau para nós e vive salvando o nosso pescoço.
Narrativa impecável, histórias envolventes e potentes, como de hábito. Falero é um dos meus autores preferidos, que presente poder ler agora nessa nova edição seu primeiro livro de contos <3
José Falero é foda. Depois de ler "Os Supridores", a expectativa para "Vila Sapo" estava alta, e ele ainda assim conseguiu superá-la.
Cada conto de Vila Sapo é extremamente bem narrado. Tipo... Extremamente! É um retrato autêntico da periferia brasileira. Cada uma das histórias poderia ter tranquilamente sido contadas por algum tio meu. Cada um dos personagens poderia ter sido facilmente algum amigo de infância do meu pai.
Vila Sapo é sobre a Vila Sapo, mas não é. Vila Sapo é sobre cada Vila desse Brasil. É sobre cada otário com sorte que conseguiu chegar até aqui vivo pra contar uma história.
Cada preto periférico, com seus desafios e suas contradições.
Conheço pouco Porto Alegre e não tenho ideia de onde fica a Vila Sapo, mas isso não faz diferença ao ler os contos de José Falero. Sinto-me local. Rapidamente me acostumo ao pequeno tamanho das baias, a subir e descer as lombas e a pegar um gelo sempre que dá. Porque "tem muita coisa, e muita gente também, que simplesmente não dá pra engolir a seco." Saio das condições privilegiadas em relação aos personagens e me junto aos mesmos nas angústias e nas mazelas dos "náufragos da existência" que vivem não só nas favelas da capital gaúcha, mas em qualquer uma das periferias urbanas do Brasil. Só por isso, já seria uma grande contribuição que Falero faria à nossa literatura. Mas ele vai além. O estilo é bem próprio. As escolhas das palavras e a forma do português falado por quem não teve acesso à educação é a própria voz de seus personagens. E o ritmo da narrativa é também de quem não tem tempo para flloreios. Essa reunião de elementos engrandece seus textos sempre curtos e ágeis. Falero contribui com méritos neste mosaico que traz à literatura brasileira toda sua diversidade e dá voz a um grupo de pessoas que costuma ser silenciado e invisibilizado pelos demais brasileiros.
Fazia tempo que estava me devendo a leitura dos trabalhos de José Falero e, para começar, vi os exemplares de Vila Sapo na banca onde compro gibis, e resolvi comprar. Enquanto esperava chegar meu jantar no shopping consegui ler todos os contos deste livro. Entendo que a forma dos contos de Falero - ainda quero ler suas crônicas e romance - é o grande diferencial de seu trabalho, porque o autor consegue ir do coloquial para o complexo, sem nunca deixar de aplicar nos seus textos as nuances e complexidade da existência periférica. Meu conto preferido dessa coletânea foi "Aconteceu amor", porque trabalha com nossas expectativas quebrando elas de uma forma muito envolvente e que nos aproxima dos personagens, que são crianças e, aí talvez se encontra o segredo de todo esse envolvimento, entre a brutalidade da existência na quebrada e a singeleza e inocência que a infância faz encarar as coisas através de um outro prisma. Agora é buscar os demais livros do autor.
Não amei tanto quanto Os Supridores e Mas em que mundo tu vive?, provavelmente porque não passei mais tempo com ele, mas amei. Os contos são incríveis (acho que Atotô, Aconteceu amor e Um otário com sorte foram meus preferidos), demonstram uma baita versatilidade da escrita, e fico feliz de estar em dia com o catálogo do José Falero. Que venham os próximos.
Simplesmente incrível. Linguagem da periferia, para contar histórias cotidianas da periferia, sobre personagens da periferia, de um jeito cativante. Livro curto, bom para ser devorado em uma sentada, e que deixa vontade em ler mais do Autor.
Uma coleção de contos - parece uma mistura de Martha Medeiros e David Coimbra da Quebrada.
O livro não é ruim, mas quando são contos eu já não tenho exatamente a mesma aderência do que trabalhos mais longos, em que é possível explorar mais as camadas, fica uma coisa bastante mais superficial e panfletária - que combina bastante com a temática que o Falero desenvolve, que dá a tônica de como é a vida real na Vila Sapo, mas que acaba por perder um tanto das possibilidades de desenvolvimento dos personagens e das suas complexidades.
Nessa leitura eu me lembrei do único trabalho escolar que não fui eu que fiz, na vida. Era a tarefa em dupla de uma figura literária de crônica, que estudamos eu acho que no 3o ano, em 1993. Não lembro do porque eu não fiz, mas a Fabíola acabou colocando o meu nome no trabalho dela (ela fez sozinha), e lembro até hoje da dita cuja crônica sobre um adesivo de carro com título de "fofinhos", que era o título da crônica. O que é bem curioso, uma vez que é justamente o tipo de redação que eu costumo usar em textos, com uma referência final cômica, sarcástica ou abrindo uma linha posteri0r de discussão, não exatamente fechando o texto. E foi esse o esquema que ela utilizou naquela ocasião, para o trabalho de português (ou seria literatura - eu não lembro, mas acho que português) no Estadual...
Os contos do Falero são diretos mas bastante previsíveis, superficiais e sem espaço para outras coisas que não o retrato nu e cru da realidade "anti-polícia" e quase um libelo de uma ode aos criminosos, que pela sua situação desprivilegiada são arrastados à criminalidade (ou talvez à 'chinelagem', como já ouvi retratarem) quase como um processo determinístico, sem mediação.
Tem méritos de levantar uma forma alternativa de moralidade, mas na descomplexidade dos contos curtos, não consegue dar nenhuma forma mais aprofundada a esses aspectos, apenas levanta a bola - o que por si só, obviamente, tem um valor relevante e importante: trazer a literatura marginal para o centro do debate e colocar na roda de conversa.
É bastante interessante a coexistência de textos com formato de discurso oral e das gírias e expressões típicas da vila e dos moradores, com outros textos de redação mais escorreita e bem desenvolvida, mesmo que trate dos mesmos personagens marginais e periféricos, e das vidas quebradas, na quebrada. E tem todo o conhecimento e especialmente o lugar de fala e propriedade para definir o modo de expressão, mas a minha leitura acaba enxergando algumas estereotipizações - inclusive com alguns ditados bem clichês e bastante anacrônicas, mas enfim, se ele escreveu é muito provável que faça todo o sentido.
A desordem e o caos equilibrado (Hayek teria um orgulho de ver a sua tese aplicada na forma de funcionamento das vilas de qualquer grande cidade, e o Falero demonstra isso nos textos) mostra o peso da vida nesse local em que o vômito em uma linha de ônibus que atende a Lomba do Pinheuiro passa o dia no banco, enquanto no T9 que passa na PUC teria sido imediatamente limpo. Esse olhar periférico que se percebe desprotegido e que precisa criar estratégias de sobrevivência (muitas vezes ilegais, e foda-se, é isso mesmo) para que o equilíbrio seja mantido. Mas essa manutenção de equilíbrio cobra um preço (caro) de cada indivíduo e impacta, consequentemente, a sociedade - e a polícia surge como um repressor desses respingos ao centr0 que são gerados pela máquina moedora da realidade periférica.
Na realidade do dia-a-dia da Vila Sapo não existe poder institucional. Ao menos não existe poder institucional formal na periferia, assim como existe no centro que mantém as ruas limpas, o trânsito organizado, os espaços funcionais e bem utilizados. Na Vila Sapo o tráfico assume a função de regulador social por meio da força e de um sistema de valores morais paralelos, muito particulares da realidade periférica e de um conjunto de preceitos bastante alternativo. Sem serviços básicos ou forma de organização, o equilíbrio (frágil) é constantemente posto à prova e reequilibrado de acordo com a força e essa delicada maneira de organizar a vivência diária. A polícia não atua como agente institucional, como faz no centro - aqui ela atua como agente de caos, de problema, de desestabilização, porque sua atuação é degenerada, sem compromisso qualquer e aberto aos piores instintos humanos que os policiais deixam aflorar ante corpos que não tem poder de reagir.
Apesar de todas as dificuldade geradas por ser superficial e direto demais, "Vila Sapo" é um estudo sobre a vida sob um regime de exceção permanente. Falero descreve um ambiente onde a moralidade é moldada pela urgência da fome e pelo medo da farda. Não há espaço para o debate de ideias porque a linguagem do território é a da força bruta. O livro registra o momento em que a política desaparece e sobra apenas a gestão da sobrevivência em um cenário de guerra de baixa intensidade.
Atotô: 3 adolescente de 14/15 anos(Nego Estavo - que é uma piada de eu tavo, eu 'estavo', Nego Bota Fé e Nego Tiriça) após muitos gelos e maconha com a galera, ficam na praça na alta madrugada, quando acompanham os acontecimentos do bairro e a vida deles naquele ambiente. Na madrugada fria vêem 3 caras passando e, logo em seguida, ouvem uma sequência de tiros. Eles evitam a polícia e acabam encontrando a vizinha Dona Márcia, que leva o filho pequeno ao posto de saúde no meio da noite por causa de uma dor de ouvido. O conto termina com reflexões sobre coincidências envolvendo o número três.
Encontro de negócios: O narrador planeja um 'encontro de negócio' em uma esquina perto do barbazul (o conto é velho, o barbazul não existe mais há muito tempo), para garantir o que a filha no dia seguinte tenha um bom e farto café da manhã, em troca de o elemento não tomar as tequilas no bar e ficar sem a dinheiro. Trata o assalto como mero negócio, como um trabalho e justifica moralmente a transação com base na diferença de vida e no direito natural que ele tem de proporcionar à filha o que julga necessário.
Dignidade-relâmpago: Dois amigos roubam um CrossFox e o cartão de crédito de uma mulher, mantendo-a presa no porta-malas enquanto circulam pela cidade esbanjando o dinheiro em bebidas e drogas. Eles sentem uma breve sensação de poder e prestígio social até serem detectados pela polícia, iniciando uma perseguição em alta velocidade. O narrador consegue fugir a pé e se esconde em um esgoto fétido embaixo de uma casa para não ser capturado pelos porcos. Ele retorna para casa ao amanhecer, sujo e humilhado, sem saber o que aconteceu com o parceiro.
Rosa-bebê: A narrativa começa descrevendo a onipresença dos telefones celulares na vida moderna e como eles registram tudo. O ponto central ocorre quando o narrador presencia um homem ensanguentado sendo perseguido e brutalmente linchado por uma multidão de "justiceiros" na entrada da Vila Sapo. Enquanto as pessoas ao redor gritam e batem no fugitivo, o narrador fica paralisado, observando a desumanização dos agressores. Rosa-bebê é a cor do cara quando tem a cara atingida por barra de ferros e cabeça esmagada no justiçamento (os porcos passaram antes, mas não fizeram nada, deixaram rolar). A história destaca a violência crua e a incapacidade do protagonista de intervir ou desviar o olhar da execução pública.
Aconteceu amor: Ronaldo é uma criança (pré adolescente) está atrás de camisinhas porque combinou um encontro com a Marcinha, e vai no posto onde sabe que distribuem de graça, mas é escorraçado, e vai atras de dinheiro para comprar, mas encontra as camisinhas no armários dos pais. Encontra a menina e após uma hesitação dela, decidem que vão usar: encher de água e jogar no ônibus, onde ele molham motoristas e passageiros (como se camisinha fosse bexiga de água e estourasse assim - acho que o Falero é uma parceria sexual duvidosa, nunca deve ter usado camisinha). Um dos passageiros persegue e eles se escondem no valão e no clube dos guris que fica dentro, onde encontram uma cobra - a Marcinha acaba se livrando da cobra e ele se apaixona ainda mais e dão o primeiro beijo. Mas ai não tem mais camisinha...
O episódio do bodoque: Putaquepariu Falero - bodoque? Porra, vai tomar no cu, o nome disso é funda... Dô é um menino considerado covarde pelos amigos por ser extremamente cauteloso e evitar qualquer perigo. Ele é pressionado por outro garoto, Lu, a sair para caçar passarinhos usando um bodoque, o que ele acha estúpido e um desperdício de vida. Durante a caçada, tentando ser aceito pelo grupo de meninos, ele atira mas erra sempre de propósito, e os guris gozam dele que a fruta nao cai longe do pé, porque o pai também errou os tiros nos porcos e foi morto. Quando a brigada chega ele joga fora e na abodagem diz que não tem e os outros ficam encrencados enquanto ele consegue escapar (e ai ouve o pai dizer que ele tambem atirou e errou de propósito).
Um otário com sorte: Acho que ele usa trecho desse conto no livro Supridores. O narrador relata o trajeto que faz para sair da Vila Sapo e ir se encontrar com a irmã no Shopping Total, descrevendo as muitas coisas que acontecem em cerca de 1h de trajeto. Aborda as coisas que pessoal da periferia precisa enfrentar e conviver como normal, as relações na boca, o vômito no ônibus que está o dia todo ali, os meninos pedintes que emulam a separação de trajetos do tráfico nas linhas de ônibus, os mendigos, flanelinhas e desvalidos no trajeto a pé até da oswaldo até a independência e depois para o shopping. Ele é um daqueles desvalidos, que apenas teve alguma sorte e está uma escala acima e tem cerveja, cigarro e paga a passagem de ônibus - mas é o mesmo estranho no centro ou no shopping. O território real dele é a Vila Sapo.
Seis contos que têm por personagens um narrador de sensibilidade ímpar e seus amigos, jovens habitantes da periferia de Porto Alegre. A primeira narrativa flerta com o fantástico, o número três comparece até nas sílabas do título. Em todas as seis, uma fluidez envolvente e uma precisa análise social e psicológica. Centro e periferia não se encontram nem no olhar, o primeiro atravessa para o outro lado da rua quando, de longe, avista a segunda. O título da narrativa rosa-bebê e seu contrastante final me fez lembrar dos finais surpreendentes de O. Henry. Por fim, algumas palavras sobre a forma da escrita. As narrativas reproduzem a oralidade dos locais, o que aproxima o estilo do autor da prosa rosiana. Ainda que se considere uma nada sutil diferença, aqui se prescinde de pesquisa sobre formas regionais de fala, pois basta a memória.
Livro muito bom do José Falero. Repleto da originalidade, principalmente na voz do narrador, com as g[irias da periferia gaúcha, ainda mais ignorada que as periferias dos outros estados. Seria um Giovani Martins gaúcho? Acho que a comparação é boa, mas Falero, como todos autores de fora do eixo RJ-SP, precisará ralar bastante pra conseguir ainda mais espaço. Recomendo!
Esse pequeno livro é cheio de lirismo suburbano Porto-Alegrense. Em seu primeiro livro Falero já mostra o talento na escrita direta. Acho que esse trecho ilustra bem beleza de Vila Sapo, ao descrever a catarse de pré-linchamento na Vila:
"O que um coração cruel covarde mais quer, mais deseja, mais espera é justamente a oportunidade ideal para se junta a outros corações cruéis e covardes, de modo que possa regorzijar-se na prática atroz sem o medo de ser execrado sozinho. De repente a gritaria - Óia lá! - Lá vai ele, lá! - Pega! - Segura! - Pára, safado! - Agarra esse pau no cu! - Não corre, filho duma puta!!"
Um livro que posiciona o autor, já na estreia, na tradição da literatura de retratar o cotidiano com todas as suas possibilidades, principalmente de linguagem. Cada personagem carrega alguma potência que não os coloca como “heróis” ou “anti-heróis”, mas como o Outro, que nos convida a refletir e interpretar escolhas. O cenário escolhido foge da exaltação ao mesmo tempo em que a abraça: a narrativa funciona como espécie de denúncia social, mas preserva o que precisa ser preservado: o sentimento. É ainda a composição de reflexões a partir da exposição fidedigna de sentimentos.
Livro essencial para refletir sobre a realidade que nos cerca e que viramos a cara geralmente. Contos fortes que retratam a vida como ela é dos moradores da periferia da cidade. Um tapa na cara da elite e daqueles que se acham elite. As histórias mostram as complexidades dos seres humanos tentando viver. Quero muito que meus alunos leiam esse livro!
Mais um conjunto de contos desse escritor que usa como pano de fundo a cidade de Porto Alegre - muito desses contos se passando numa parte específica da cidade, e com toda a cidade interagindo entre si - para seus relatos, mas que consegue retratar a injustiça social e as dores da alma de qualquer cidade e seus habitantes. Tantoo esse como o "Mas em que mundo tu vive?" são ótimos livros!
primeira vez que eu termino de ler um livro e sinto que a quantidade de páginas dele é um problema. Vila Sapo tinha que ser bem mais longo!!
ter lido esse livro logo após de ler O Avesso da Pele está me fazendo ter novos olhares para Porto Alegre. gostei muito da sinceridade dos contos e espero ler mais obras do falero em breve
Pra ler numa sentada. E, parafraseando o autor, o que é uma sentada, perto duma vida inteira? Mas mesmo assim "deu tempo de eu ver mil bagulho e ouvir mil bagulho também. Deu tempo de eu pensar um montão..."
o que a escrita de Falero é cativante não é brincadeira. me embrenhei em "os supridores" e agora tive a sorte de esbarrar com esse compilado de contos nas mesmas estantes que conheci seu romance. e fui envolvido por essas pequenas histórias escritas com tanta sagacidade. recomendo muito a leitura.
Provavelmente teria gostado mais se não tivesse lido imediatamente depois de Os Supridores. O anterior foi um mergulho tão profundo para mim que os contos curtos não me satisfizeram. Mas foi uma leitura agradável apesar disso.
Excelente livro. Mais uma excepcional obra do autor de "Os Supridores". José Falero vem para ocupar o vazio deixado pelo saudoso Rubem Fonseca na nossa literatura urbana crua, áspera e realista.
É incrível como o Falero transita por diferentes níveis de linguagem em cada um dos contos. Amo reconhecer os lugares e gírias porto-alegrenses na sua escrita. É a periferia fazendo literatura.