Eis aqui sete histórias escritas com força ímpar e altíssima voltagem literária. Publicado originalmente em 2019, Vila Sapo imediatamente chamou a atenção para José Falero, até então um jovem e desconhecido autor vindo das quebradas de Porto Alegre. Desde aquele momento, o livro apresentou a críticos e leitores um escritor já dotado de uma variada gama de recursos, modulando em cada história a voz das ruas com um refinado registro literário.
Tão bom quanto Os Supridores, Falero transpõe a realidade do subúrbio de Porto Alegre, em especial, dos becos, das favelas e das 'baias' para compor um excelente copilado de contos que abordam a vida e a violência que imperam no local, em tramas que unidas pelo medo são o retrato da Vila Sapo e daqueles que ali vivem, em um espiral de atos e desastres, onde "a vida parece estar fora de moda".
Focando, portanto, no caos diário do combate entre as forças de segurança e um grupo de moradores, o escritor despe toda sorte de preconceitos, traumas e agressões diárias em cada uma de suas histórias, desde o sequestro à uma motorista, ao assassinato de um morador, até a um passeio desinteressado pelas ruas da favela, constituindo, assim, com uma escrita oral e falada do local, um espelho da realidade que quase sempre é escondida e mascarada.
Tal qual Giovanni Martins em Via ápia, Falero leva o leitor, ou melhor, traz a favela para a literatura; como tudo, nem sempre é bonita e pacífica, mas é sobretudo a vida como ela é. A mim, uma ótima leitura imersiva, uma pena ser tão curto.
Fiz o caminho inverso do que gostaria de ter feito: li "Os supridores" antes de ler "Vila Sapo", publicação anterior do autor. Inverso porque gosto muito mais de romances e aquele foi um dos melhores que li no ano, então seria difícil não embarcar na leitura desses contos cheia de expectativa. As expectativas, felizmente, se cumprem. A escrita do Falero segue primorosa, e as cenas narradas promovem uma imersão fácil no cenário. Quero continuar lendo a obra completa do Falero enquanto ele seguir publicando: sejam romances, contos ou crônicas, o cara evidentemente manda muito bem em todos os formatos.
Ler Vila Sapo me fez pensar sobre fuga. Não é papo de medo. É Literatura que canta sobre estar sempre atento. Não é possível fraquejar em nenhuma página, menos ainda dizer sim ao lugar animalizado em que a sociedade plena de desigualdade quer manter o pobre, negro, periférico. Mas também é uma Literatura sobre afetos.
É fuga, mas não é sobre fugir. Quem foge sempre acaba ficando com os piores lugares, os narradores sabem. Assim, os personagens principais buscam cimentar um novo caminho, apropriar-se deste lugar chamado Vila Sapo. Às vezes pagam pau pro Diabo, metem os melhor pano, arriscam pra ter um momento sem miséria, de quem vive nos bairros privilegiados da cidade.
O texto de José Falero ginga, corre solto pelos becos e vielas do livro. Entra e sai da oralidade sem embaraço, prezando sempre pelo deslocamento. Se o movimento não é - a pé, de carango, de bonde - de uma geografia a outra, o rolê acontece nas variações da linguagem (oral-formal, jovial-adulto, irônico-brutal etc) ou ainda no tom da narrativa, do mais sereno para o mais contundente. Há personagem que te leva pela mão com bastante leveza até um primeiro beijo e há, também, quem te faz percorrer o caminho do aniquilamento.
Não é papo de medo. Os narradores não vacilam, atentos e mentalmente fortes, dão a real sobre seu canto no mundo. Nas curvas de cada conto, é apresentado ao leitor um pouco das pessoas e das memórias que vivem ali. Não se trata de passeio turístico na favela, um naturalismo gourmet com pit stop para selfies com os “nativos”.
O foco das palavras não recai sobre quem aceita a sina de cabeça baixa. Menos ainda sobre “vermes”, estes tipos fracos que descontam suas misérias nos demais. Interessa ao autor personagens que não devem nada a ninguém - a maioria das pessoas da periferia - gente que, mesmo na pobreza material, mantém a cabeça erguida.
Apesar dos problemas recorrentes em todas as periferias do mundo - política e polícia delinquentes, precariedade nos serviços públicos, violência física e simbólica, drogas lícitas e ilícitas etc -, há uma praça no coração da Vila Sapo onde junções, histórias e loucuras têm vazão sob a luz da lua sobre o poste de lâmpada estourada.
Mas também é uma Literatura sobre afetos. Vou te dizer pra ti: cada história traz uma forma de encontro, de força interior, de alma, de ser, de dignidade. Apenas a título de ilustração, quando você ler Vila Sapo, preste atenção no olhar generoso do narrador para Dona Márcia no conto “atotô”; também lá no meio do “dignidade-relâmpago” aprecie o espaço que se abre pra falar do que “Tá dentro da gente” apesar de toda mágoa e frustração; e sobretudo acompanhe o percurso interno realizado no conto “um otário com sorte”, momento em que a empatia se expande para além das relações de parentesco, dando vida ao texto e mostrando uma dignidade pouco encontrada na Literatura.
Após a leitura, voltou-me ao pensamento dúvida antiga: para que serve a Literatura?
Quando alguém da periferia produz verdade, dá um passo mais pra fora desse determinismo, há sempre um irmão, um vizinho, um menor aprendendo. No caso de artistas – descobri pela apresentação do autor ao fim do livro que, além de escritor e músico, o cara é desenhista e desenvolvedor de software! –, tem uma comunidade andando junto. Assim, a publicação deste libro é uma forma de “ninguém solta a mão de ninguém”. Produzir desacomodação, reflexão, caminho. Não medo. Quem ainda tem coragem?
Não é só mais um livro que dá a conhecer parte ignorada do país. Mais do que isso, nomeia um lugar e fixa-lhe memórias através da escrita. Prestando atenção durante a leitura de cada conto, não é um lugar que se deseje abandonar. No plano de fundo do livro, há uma questão de pertencimento. Há esgoto e morte também, mas no conjunto o que brilha mais é resistência afu.
Em nosso contexto de extrema urbanização, há quem escreva para manter privilégios e conservar o mando de campo da indiferença. E há quem produza vida na escrita – e aqui não se trata de vida apenas como antônimo da palavra morte, mas sim da vida com sentido, pulsão, visão, germinação do sentimento de existir humano -, o que se percebe desde o primeiro conto de Vila Sapo.
Baita livro. Escrita fácil, divertida, surpreendente e cativante. Se esse é o livro de estreia, acredito que esse Falero vai muito longe e já vou aguardar os próximos livros.
José Falero é o tipo de autor que te leva a conhecer uma realidade que por vezes já foi retratada em outras formas de arte como o rap e o samba, mas em um terreno nem sempre divulgado: a periferia de Porto Alegre.
Em um formato de contos e com uma escrita profunda, ele nos convida a conhecer histórias de onde se tem apenas fragmentos marginais.
A seguir, listo algumas frases que me tocaram:
- É que andar por aí entre pessoas estranhas ou entre pessoas que a gente não tem tanta intimidade assim, isso implica em fingir o tempo todo, representar. Tu nunca quer mostrar como tu realmente é para qualquer um. Tu só mostra quem tu realmente é para as pessoas com quem tu se sente à vontade.
- Tem um monte de gente querendo a morte hoje em dia, das mais variadas maneiras. A vida tá fora de moda.
- O que um coração covarde mais quer, mais deseja, mais espera é justamente a oportunidade ideal para aliar-se a outros corações igualmente cruéis e covardes, de modo que possa regozijar-se na prática atroz sem o medo de ser execrado sozinho.
- Eu não sei por que, tá ligado, eu não sei explicar, mas é massa, é gostoso ver que a morte passa perto o tempo todo, e ver que a gente tem a manha para driblar ela, ou ver que a sorte paga pau para nós e vive salvando o nosso pescoço.
Narrativa impecável, histórias envolventes e potentes, como de hábito. Falero é um dos meus autores preferidos, que presente poder ler agora nessa nova edição seu primeiro livro de contos <3
José Falero é foda. Depois de ler "Os Supridores", a expectativa para "Vila Sapo" estava alta, e ele ainda assim conseguiu superá-la.
Cada conto de Vila Sapo é extremamente bem narrado. Tipo... Extremamente! É um retrato autêntico da periferia brasileira. Cada uma das histórias poderia ter tranquilamente sido contadas por algum tio meu. Cada um dos personagens poderia ter sido facilmente algum amigo de infância do meu pai.
Vila Sapo é sobre a Vila Sapo, mas não é. Vila Sapo é sobre cada Vila desse Brasil. É sobre cada otário com sorte que conseguiu chegar até aqui vivo pra contar uma história.
Cada preto periférico, com seus desafios e suas contradições.
Conheço pouco Porto Alegre e não tenho ideia de onde fica a Vila Sapo, mas isso não faz diferença ao ler os contos de José Falero. Sinto-me local. Rapidamente me acostumo ao pequeno tamanho das baias, a subir e descer as lombas e a pegar um gelo sempre que dá. Porque "tem muita coisa, e muita gente também, que simplesmente não dá pra engolir a seco." Saio das condições privilegiadas em relação aos personagens e me junto aos mesmos nas angústias e nas mazelas dos "náufragos da existência" que vivem não só nas favelas da capital gaúcha, mas em qualquer uma das periferias urbanas do Brasil. Só por isso, já seria uma grande contribuição que Falero faria à nossa literatura. Mas ele vai além. O estilo é bem próprio. As escolhas das palavras e a forma do português falado por quem não teve acesso à educação é a própria voz de seus personagens. E o ritmo da narrativa é também de quem não tem tempo para flloreios. Essa reunião de elementos engrandece seus textos sempre curtos e ágeis. Falero contribui com méritos neste mosaico que traz à literatura brasileira toda sua diversidade e dá voz a um grupo de pessoas que costuma ser silenciado e invisibilizado pelos demais brasileiros.
Fazia tempo que estava me devendo a leitura dos trabalhos de José Falero e, para começar, vi os exemplares de Vila Sapo na banca onde compro gibis, e resolvi comprar. Enquanto esperava chegar meu jantar no shopping consegui ler todos os contos deste livro. Entendo que a forma dos contos de Falero - ainda quero ler suas crônicas e romance - é o grande diferencial de seu trabalho, porque o autor consegue ir do coloquial para o complexo, sem nunca deixar de aplicar nos seus textos as nuances e complexidade da existência periférica. Meu conto preferido dessa coletânea foi "Aconteceu amor", porque trabalha com nossas expectativas quebrando elas de uma forma muito envolvente e que nos aproxima dos personagens, que são crianças e, aí talvez se encontra o segredo de todo esse envolvimento, entre a brutalidade da existência na quebrada e a singeleza e inocência que a infância faz encarar as coisas através de um outro prisma. Agora é buscar os demais livros do autor.
Não amei tanto quanto Os Supridores e Mas em que mundo tu vive?, provavelmente porque não passei mais tempo com ele, mas amei. Os contos são incríveis (acho que Atotô, Aconteceu amor e Um otário com sorte foram meus preferidos), demonstram uma baita versatilidade da escrita, e fico feliz de estar em dia com o catálogo do José Falero. Que venham os próximos.
Simplesmente incrível. Linguagem da periferia, para contar histórias cotidianas da periferia, sobre personagens da periferia, de um jeito cativante. Livro curto, bom para ser devorado em uma sentada, e que deixa vontade em ler mais do Autor.
Seis contos que têm por personagens um narrador de sensibilidade ímpar e seus amigos, jovens habitantes da periferia de Porto Alegre. A primeira narrativa flerta com o fantástico, o número três comparece até nas sílabas do título. Em todas as seis, uma fluidez envolvente e uma precisa análise social e psicológica. Centro e periferia não se encontram nem no olhar, o primeiro atravessa para o outro lado da rua quando, de longe, avista a segunda. O título da narrativa rosa-bebê e seu contrastante final me fez lembrar dos finais surpreendentes de O. Henry. Por fim, algumas palavras sobre a forma da escrita. As narrativas reproduzem a oralidade dos locais, o que aproxima o estilo do autor da prosa rosiana. Ainda que se considere uma nada sutil diferença, aqui se prescinde de pesquisa sobre formas regionais de fala, pois basta a memória.
Livro muito bom do José Falero. Repleto da originalidade, principalmente na voz do narrador, com as g[irias da periferia gaúcha, ainda mais ignorada que as periferias dos outros estados. Seria um Giovani Martins gaúcho? Acho que a comparação é boa, mas Falero, como todos autores de fora do eixo RJ-SP, precisará ralar bastante pra conseguir ainda mais espaço. Recomendo!
Esse pequeno livro é cheio de lirismo suburbano Porto-Alegrense. Em seu primeiro livro Falero já mostra o talento na escrita direta. Acho que esse trecho ilustra bem beleza de Vila Sapo, ao descrever a catarse de pré-linchamento na Vila:
"O que um coração cruel covarde mais quer, mais deseja, mais espera é justamente a oportunidade ideal para se junta a outros corações cruéis e covardes, de modo que possa regorzijar-se na prática atroz sem o medo de ser execrado sozinho. De repente a gritaria - Óia lá! - Lá vai ele, lá! - Pega! - Segura! - Pára, safado! - Agarra esse pau no cu! - Não corre, filho duma puta!!"
Um livro que posiciona o autor, já na estreia, na tradição da literatura de retratar o cotidiano com todas as suas possibilidades, principalmente de linguagem. Cada personagem carrega alguma potência que não os coloca como “heróis” ou “anti-heróis”, mas como o Outro, que nos convida a refletir e interpretar escolhas. O cenário escolhido foge da exaltação ao mesmo tempo em que a abraça: a narrativa funciona como espécie de denúncia social, mas preserva o que precisa ser preservado: o sentimento. É ainda a composição de reflexões a partir da exposição fidedigna de sentimentos.
Livro essencial para refletir sobre a realidade que nos cerca e que viramos a cara geralmente. Contos fortes que retratam a vida como ela é dos moradores da periferia da cidade. Um tapa na cara da elite e daqueles que se acham elite. As histórias mostram as complexidades dos seres humanos tentando viver. Quero muito que meus alunos leiam esse livro!
Mais um conjunto de contos desse escritor que usa como pano de fundo a cidade de Porto Alegre - muito desses contos se passando numa parte específica da cidade, e com toda a cidade interagindo entre si - para seus relatos, mas que consegue retratar a injustiça social e as dores da alma de qualquer cidade e seus habitantes. Tantoo esse como o "Mas em que mundo tu vive?" são ótimos livros!
primeira vez que eu termino de ler um livro e sinto que a quantidade de páginas dele é um problema. Vila Sapo tinha que ser bem mais longo!!
ter lido esse livro logo após de ler O Avesso da Pele está me fazendo ter novos olhares para Porto Alegre. gostei muito da sinceridade dos contos e espero ler mais obras do falero em breve
Pra ler numa sentada. E, parafraseando o autor, o que é uma sentada, perto duma vida inteira? Mas mesmo assim "deu tempo de eu ver mil bagulho e ouvir mil bagulho também. Deu tempo de eu pensar um montão..."
o que a escrita de Falero é cativante não é brincadeira. me embrenhei em "os supridores" e agora tive a sorte de esbarrar com esse compilado de contos nas mesmas estantes que conheci seu romance. e fui envolvido por essas pequenas histórias escritas com tanta sagacidade. recomendo muito a leitura.
Provavelmente teria gostado mais se não tivesse lido imediatamente depois de Os Supridores. O anterior foi um mergulho tão profundo para mim que os contos curtos não me satisfizeram. Mas foi uma leitura agradável apesar disso.
Excelente livro. Mais uma excepcional obra do autor de "Os Supridores". José Falero vem para ocupar o vazio deixado pelo saudoso Rubem Fonseca na nossa literatura urbana crua, áspera e realista.
É incrível como o Falero transita por diferentes níveis de linguagem em cada um dos contos. Amo reconhecer os lugares e gírias porto-alegrenses na sua escrita. É a periferia fazendo literatura.
Fico imaginando até onde Falero chegará. De longe meu autor preferido atualmente. Certamente deverá compor as listas de mais variados vestibulares desse país logo logo.