Ainda não resolvera as contradições que aumentavam e me confundiam. Sempre amei minha cidade e meu país. Adorava Agho Jun e minha mãe, tinha especial devoção por Narges. Nunca soube direito que profissão escolher quando crescesse, mas isso não me preocupava, eu poderia ser qualquer coisa neste mundo. Não tinha um plano de vôo como Behruz nem alimentava sonhos impossíveis, mas não duvidava de que alcançaria as nuvens se assim desejasse. Para tanto, bastaria escolher um percurso e me dedicar aos estudos com seriedade. Agora que virara adulto, as certezas esvaíram junto com as oportunidades, inexistentes no meu Irã atacado de fora e devorando-se por dentro em um sinistro ritual autofágico. Se antes o Alcorão servia de guia e consolo, a nova ordem determinava que os preceitos islâmicos deveriam orientar cada um dos nossos passos. Religião e Estado confundiam-se em um só órgão que ditava nos detalhes o cotidiano dos cidadãos. A sobrevivência dos que não se alinhavam com os ensinamentos de Maomé ou dos que buscavam uma liberdade individual descolada do Livro Sagrado tornava-se praticamente impossível. E eu, que há anos vinha me afastando das rezas e das mesquitas, estava entre os discordantes e os excluídos.
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“Você é como um albatroz”, me dissera certa vez Bãbak. “Nasceu para se tornar uma dessas aves migratórias que atravessam mares e oceanos”.
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Uma narrativa forte, mas que se perde quando Kurosh encontra Zibã.