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Os Mamíferos, as Aves e os Peixes
Língua Morta 135
Com capa a partir de fotografia de Hieronymus Bosch
Com capa a partir de fotografia de Hieronymus Bosch
176 pages, Paperback
Published October 1, 2022
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Displaying 1 - 8 of 8 reviews
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December 31, 2022DNF – Ou para elevar a recensão ao nível da obra, “coitus interruptus”
A editora Língua Morta nunca me tinha desiludido. Hoje foi o dia.
Tapem os olhos se não gostam de mais de 23 palavrões por centímetro quadrado, mas deixem uma nesguinha entre os dedos se já têm idade para achar que nada vos choca a não ser a maldade humana, porque contra a estupidez já estão decerto vacinados. Senão, têm aqui o vosso reforço. Não provoca febre, mas pode dar náuseas.
“Os Mamíferos, as Aves e os Peixes” poderia ser o bebé do jornal “Diabo” e da revista “Gina”. Ainda estão aí ou já se arrepiaram com a aberração e passaram à resenha seguinte?
A favor de Manuel Bívar digo que é imparcial, tanto bate da direita como na esquerda...
Não conseguia imaginar nada de mais horrendo do que João Galamba na cama, a pila muito dura, muito tesa, o abdómen até musculado, e contudo nada podia ser tão nojento. O olhar de ratazana, talvez, ela não conseguia explicar e no meio destes pensamentos, foi-lhe pedido que falasse, e o pensamento saiu-lhe em voz alta, descontrolado, e deu por si a repetir o que ouvira à velha na noite das eleições e toda uma mesa que a olhava estarrecida.
- O Ventura é o tipo de homem que deixa o cão lamber-lhe a pila enquanto a mulher e os filhos vão ao supermercado. Esbraceja muito mas não fode. (...) A mulher vê-se logo que é fufa. Noutros tempos seria freira. Tudo aquilo é uma desgraça, o homem não vai longe, não tem a energia porca dos violadores que é quem vence na política.
...e que tem um poder descritivo que até dispensa as imagens desse supracitado sucesso literário dos quiosques dos anos 80.
A culpa era dela, que tinha fama de puta, as mamas muito grandes e a melhor cona da Universidade de Lisboa. E sabia-o. Não era a cona de lábios finhos, em forma de pera e muito fechada de estudantes. Era uma cona de lábios enormes, não propriamente estreita mas que sugava e não metia medo aos homens.
Se algum dia se riram com José Vilhena, não percam esta nova versão de “Os mamíferos e os outros vertebrados - compêndio de indecências naturais”.
Mal empregada capa, meu rico Hieronymus Bosch.
A editora Língua Morta nunca me tinha desiludido. Hoje foi o dia.
Tapem os olhos se não gostam de mais de 23 palavrões por centímetro quadrado, mas deixem uma nesguinha entre os dedos se já têm idade para achar que nada vos choca a não ser a maldade humana, porque contra a estupidez já estão decerto vacinados. Senão, têm aqui o vosso reforço. Não provoca febre, mas pode dar náuseas.
“Os Mamíferos, as Aves e os Peixes” poderia ser o bebé do jornal “Diabo” e da revista “Gina”. Ainda estão aí ou já se arrepiaram com a aberração e passaram à resenha seguinte?
A favor de Manuel Bívar digo que é imparcial, tanto bate da direita como na esquerda...
Não conseguia imaginar nada de mais horrendo do que João Galamba na cama, a pila muito dura, muito tesa, o abdómen até musculado, e contudo nada podia ser tão nojento. O olhar de ratazana, talvez, ela não conseguia explicar e no meio destes pensamentos, foi-lhe pedido que falasse, e o pensamento saiu-lhe em voz alta, descontrolado, e deu por si a repetir o que ouvira à velha na noite das eleições e toda uma mesa que a olhava estarrecida.
- O Ventura é o tipo de homem que deixa o cão lamber-lhe a pila enquanto a mulher e os filhos vão ao supermercado. Esbraceja muito mas não fode. (...) A mulher vê-se logo que é fufa. Noutros tempos seria freira. Tudo aquilo é uma desgraça, o homem não vai longe, não tem a energia porca dos violadores que é quem vence na política.
...e que tem um poder descritivo que até dispensa as imagens desse supracitado sucesso literário dos quiosques dos anos 80.
A culpa era dela, que tinha fama de puta, as mamas muito grandes e a melhor cona da Universidade de Lisboa. E sabia-o. Não era a cona de lábios finhos, em forma de pera e muito fechada de estudantes. Era uma cona de lábios enormes, não propriamente estreita mas que sugava e não metia medo aos homens.
Se algum dia se riram com José Vilhena, não percam esta nova versão de “Os mamíferos e os outros vertebrados - compêndio de indecências naturais”.
Mal empregada capa, meu rico Hieronymus Bosch.
June 22, 2026
Os Mamíferos, as Aves e os Peixes é uma sátira primitivista e niilista, que faz uso da abjecção como ferramenta de desconstrução crítica.
Através da protagonista Maria Antónia, uma investigadora hostilizada pelos pares e vítima de assédio, constrói-se uma oposição fortíssima à Europa e às suas normas higienizantes e abstractas em favor de um retorno ao naturalismo. O corpo de Maria Antónia é usado pelo autor como território desta libertação através da sua hipersexualização, comportamentos desviantes e descrição grotesca, não sem um efeito alienante no leitor. Estas partes são repetitivas e algo desinteressantes quer do ponto de vista narrativo quer estilístico, mas o problema é sobretudo a carência de verossimilhança, pois até a sátira e o absurdo devem manter uma âncora no real: quando a «cona» é descrita como «um buraco por onde saía o mijo, eventualmente um filho» (p. 54) há aqui uma confusão anatómica que roça o confrangedor, principalmente porque esta descrição surge em discurso indirecto livre, sendo a descrição que Maria Antónia faz de si mesma. A obsessão com o mijo, por comparação às escassas menções a menstruação, é algo que, propositado ou não, masculiniza a voz e nos faz estranhar Maria Antónia.
A crítica à artificialidade e burocratização do mundo pós-moderno, ao desemparelhamento da academia da sociedade e ao europeísmo como neocolonialismo são relevantes. O ensaio final que dialoga com a etologia de Konrad Lorenz dá-se a muitas liberdades, mas tem também os seus momentos de lucidez raivosa. Porém, o texto peca por actuar no campo do panfletário: «Sem relativismos. E em que o mal é identificado sem hesitação.» (p. 144) O texto recusa-se a operar ao nível da subtileza e da ambiguidade, sendo antes uma declaração de intenções sem espaços de sombra. Como tal, cai em algumas armadilhas comuns, como o motivo do «bom selvagem» (povos indígenas e líderes autoritários de Leste) e a falácia do apelo à natureza (que indica que devemos seguir os nossos instintos básicos, porque são superiores aos aculturados). Além disso, a tese apresentada por Maria Antónia em que a domesticação gera maior violência (o Estado nazi como o auge do homem domesticado, personificado por Eichmann) confunde a ferramenta (a burocracia eficiente do Estado nazi) com a causa (a ideologia irracionalista e violenta movida contra um bode expiatório).
Uma das críticas que é feita a Lorenz é a de antropomorfizar os animais. No seu artigo, Maria Antónia alega que «[…] ao contrário de Lorenz não buscou a todo o custo ver neles as pessoas. Foi neles, e na observação dos seus comportamentos, que procurou soluções.» (p. 148). Todavia, o que vemos ao longo desta obra é precisamente a utilização dos corpos dos animais, à semelhança do de Maria Antónia, como objecto de violência reiterada, praticada por humanos ou por seus semelhantes, de modo a tirar conclusões alargadas acerca da nossa espécie e da sua inadequação à sociedade para ela construída. Reflexões a respeito das condições vividas pelos próprios animais são escassas e simplistas: há uma certa apologia à libertação dos animais de companhia, além duma recusa das práticas de esterilização. A única menção aos animais como objectos de consumo de massas faz-se, novamente, em função dos humanos: «[…] a galinha, que hoje todos comem, sem nunca a ver matar.» (p. 163). O foco é a cobardia humana em assumir a sua violência inata, não o ponto de vista da galinha vítima dum aparelho genocida.
Manuel Bívar apresenta-nos uma obra que arrisca na linguagem e que resiste à domesticação. Deixa-nos com ideias a granel, enroladas num novelo de fúria e caos. Embora cheia de fervor, infelizmente não nos convence, quer como panfleto quer como obra de ficção.
Através da protagonista Maria Antónia, uma investigadora hostilizada pelos pares e vítima de assédio, constrói-se uma oposição fortíssima à Europa e às suas normas higienizantes e abstractas em favor de um retorno ao naturalismo. O corpo de Maria Antónia é usado pelo autor como território desta libertação através da sua hipersexualização, comportamentos desviantes e descrição grotesca, não sem um efeito alienante no leitor. Estas partes são repetitivas e algo desinteressantes quer do ponto de vista narrativo quer estilístico, mas o problema é sobretudo a carência de verossimilhança, pois até a sátira e o absurdo devem manter uma âncora no real: quando a «cona» é descrita como «um buraco por onde saía o mijo, eventualmente um filho» (p. 54) há aqui uma confusão anatómica que roça o confrangedor, principalmente porque esta descrição surge em discurso indirecto livre, sendo a descrição que Maria Antónia faz de si mesma. A obsessão com o mijo, por comparação às escassas menções a menstruação, é algo que, propositado ou não, masculiniza a voz e nos faz estranhar Maria Antónia.
A crítica à artificialidade e burocratização do mundo pós-moderno, ao desemparelhamento da academia da sociedade e ao europeísmo como neocolonialismo são relevantes. O ensaio final que dialoga com a etologia de Konrad Lorenz dá-se a muitas liberdades, mas tem também os seus momentos de lucidez raivosa. Porém, o texto peca por actuar no campo do panfletário: «Sem relativismos. E em que o mal é identificado sem hesitação.» (p. 144) O texto recusa-se a operar ao nível da subtileza e da ambiguidade, sendo antes uma declaração de intenções sem espaços de sombra. Como tal, cai em algumas armadilhas comuns, como o motivo do «bom selvagem» (povos indígenas e líderes autoritários de Leste) e a falácia do apelo à natureza (que indica que devemos seguir os nossos instintos básicos, porque são superiores aos aculturados). Além disso, a tese apresentada por Maria Antónia em que a domesticação gera maior violência (o Estado nazi como o auge do homem domesticado, personificado por Eichmann) confunde a ferramenta (a burocracia eficiente do Estado nazi) com a causa (a ideologia irracionalista e violenta movida contra um bode expiatório).
Uma das críticas que é feita a Lorenz é a de antropomorfizar os animais. No seu artigo, Maria Antónia alega que «[…] ao contrário de Lorenz não buscou a todo o custo ver neles as pessoas. Foi neles, e na observação dos seus comportamentos, que procurou soluções.» (p. 148). Todavia, o que vemos ao longo desta obra é precisamente a utilização dos corpos dos animais, à semelhança do de Maria Antónia, como objecto de violência reiterada, praticada por humanos ou por seus semelhantes, de modo a tirar conclusões alargadas acerca da nossa espécie e da sua inadequação à sociedade para ela construída. Reflexões a respeito das condições vividas pelos próprios animais são escassas e simplistas: há uma certa apologia à libertação dos animais de companhia, além duma recusa das práticas de esterilização. A única menção aos animais como objectos de consumo de massas faz-se, novamente, em função dos humanos: «[…] a galinha, que hoje todos comem, sem nunca a ver matar.» (p. 163). O foco é a cobardia humana em assumir a sua violência inata, não o ponto de vista da galinha vítima dum aparelho genocida.
Manuel Bívar apresenta-nos uma obra que arrisca na linguagem e que resiste à domesticação. Deixa-nos com ideias a granel, enroladas num novelo de fúria e caos. Embora cheia de fervor, infelizmente não nos convence, quer como panfleto quer como obra de ficção.
June 18, 2023
Segundo livro do autor lido. Segundo falhanço. Livro fruto dos tempos que vivemos sem nitidez narrativa esperada.
Incrível como o tom surrealista/ non sense continua a fazer escola em alguma literatura portuguesa.
Incrível como o tom surrealista/ non sense continua a fazer escola em alguma literatura portuguesa.
July 1, 2026
Aí está um bom exemplo de um livro que, continuando a ter um subtexto social e político bem claro (em vez que o esconder mostra-o), nas referências a João Galamba ou na questão do assédio no meio académico (com claras rimas a um caso particular), não se deixa consumir pelo mesmo. "Os Mamíferos, as Aves e os Peixes" torna claro que o problema não é a politização da arte, mas sim como o pensamento criativo, de trabalho sobre a forma, pode conviver e bem com o simbolismo, a sátira, a vontade de produzir um discurso sobre a realidade. Manuel Bivar tem uma escrita extremamente visual, com um pedal no grotesco e o outro no humor.
December 8, 2025
Manuel Bivar não é um chato e escreve bem. É politicamente incorrecto, desbragado, divertido - e, portanto, deve ser tomado muito a sério. Calculo que se esteja a cagar para o que a intelectualidade portuguesa pensa dele. Não tem nada a haver. E goza, goza com isto tudo. Há sempre quem não perceba.
A Charca talvez seja melhor. Mas este não é nada mau.
A Charca talvez seja melhor. Mas este não é nada mau.
January 15, 2023
Comprei sem conhecer o livro nem o autor; apesar disso, esta leitura revelou-se, na generalidade, uma agradável surpresa: Manuel Bivar escreve desassombradamente, com originalidade e sem inibições - o que é bom -, sobre temas da contemporaneidade, alguns dos quais, aliás, me são bastantes caros. Apesar do português estar longe ser imaculado, há forma e conteúdo suficientes para compensar pontuais irritantes linguísticos. O grande problema deste livro, no entanto, é a facilidade com que o autor degenera literatura pura e estimulante em rondas de brejeirice pegada de muito pouco interesse. Ainda assim, despertou-me para a leitura da obra anterior e de possíveis futuras de Bivar.
Maria Antónia cresceu no meio de animais e, mais tarde, enquanto adulta, no meio deles continuou a viver. Sejam eles irracionais ou racionais, o contínuo que os une é posto a nu, e as fronteiras - físicas, comportamentais, ontológicas - que os separam são progressivamente esbatidas, evidenciando os traços comuns que unem todo o reino. Uma selva de instintos e impulsos primitivos.
Maria Antónia cresceu no meio de animais e, mais tarde, enquanto adulta, no meio deles continuou a viver. Sejam eles irracionais ou racionais, o contínuo que os une é posto a nu, e as fronteiras - físicas, comportamentais, ontológicas - que os separam são progressivamente esbatidas, evidenciando os traços comuns que unem todo o reino. Uma selva de instintos e impulsos primitivos.
June 12, 2026
(3,5)
July 17, 2026
Absolutamente brilhante.
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