DNF – Ou para elevar a recensão ao nível da obra, “coitus interruptus”
A editora Língua Morta nunca me tinha desiludido. Hoje foi o dia. Tapem os olhos se não gostam de mais de 23 palavrões por centímetro quadrado, mas deixem uma nesguinha entre os dedos se já têm idade para achar que nada vos choca a não ser a maldade humana, porque contra a estupidez já estão decerto vacinados. Senão, têm aqui o vosso reforço. Não provoca febre, mas pode dar náuseas. “Os Mamíferos, as Aves e os Peixes” poderia ser o bebé do jornal “Diabo” e da revista “Gina”. Ainda estão aí ou já se arrepiaram com a aberração e passaram à resenha seguinte? A favor de Manuel Bívar digo que é imparcial, tanto bate da direita como na esquerda...
Não conseguia imaginar nada de mais horrendo do que João Galamba na cama, a pila muito dura, muito tesa, o abdómen até musculado, e contudo nada podia ser tão nojento. O olhar de ratazana, talvez, ela não conseguia explicar e no meio destes pensamentos, foi-lhe pedido que falasse, e o pensamento saiu-lhe em voz alta, descontrolado, e deu por si a repetir o que ouvira à velha na noite das eleições e toda uma mesa que a olhava estarrecida. - O Ventura é o tipo de homem que deixa o cão lamber-lhe a pila enquanto a mulher e os filhos vão ao supermercado. Esbraceja muito mas não fode. (...) A mulher vê-se logo que é fufa. Noutros tempos seria freira. Tudo aquilo é uma desgraça, o homem não vai longe, não tem a energia porca dos violadores que é quem vence na política.
...e que tem um poder descritivo que até dispensa as imagens desse supracitado sucesso literário dos quiosques dos anos 80.
A culpa era dela, que tinha fama de puta, as mamas muito grandes e a melhor cona da Universidade de Lisboa. E sabia-o. Não era a cona de lábios finhos, em forma de pera e muito fechada de estudantes. Era uma cona de lábios enormes, não propriamente estreita mas que sugava e não metia medo aos homens.
Se algum dia se riram com José Vilhena, não percam esta nova versão de “Os mamíferos e os outros vertebrados - compêndio de indecências naturais”. Mal empregada capa, meu rico Hieronymus Bosch.
Segundo livro do autor lido. Segundo falhanço. Livro fruto dos tempos que vivemos sem nitidez narrativa esperada. Incrível como o tom surrealista/ non sense continua a fazer escola em alguma literatura portuguesa.
Manuel Bivar não é um chato e escreve bem. É politicamente incorrecto, desbragado, divertido - e, portanto, deve ser tomado muito a sério. Calculo que se esteja a cagar para o que a intelectualidade portuguesa pensa dele. Não tem nada a haver. E goza, goza com isto tudo. Há sempre quem não perceba.
A Charca talvez seja melhor. Mas este não é nada mau.
Comprei sem conhecer o livro nem o autor; apesar disso, esta leitura revelou-se, na generalidade, uma agradável surpresa: Manuel Bivar escreve desassombradamente, com originalidade e sem inibições - o que é bom -, sobre temas da contemporaneidade, alguns dos quais, aliás, me são bastantes caros. Apesar do português estar longe ser imaculado, há forma e conteúdo suficientes para compensar pontuais irritantes linguísticos. O grande problema deste livro, no entanto, é a facilidade com que o autor degenera literatura pura e estimulante em rondas de brejeirice pegada de muito pouco interesse. Ainda assim, despertou-me para a leitura da obra anterior e de possíveis futuras de Bivar.
Maria Antónia cresceu no meio de animais e, mais tarde, enquanto adulta, no meio deles continuou a viver. Sejam eles irracionais ou racionais, o contínuo que os une é posto a nu, e as fronteiras - físicas, comportamentais, ontológicas - que os separam são progressivamente esbatidas, evidenciando os traços comuns que unem todo o reino. Uma selva de instintos e impulsos primitivos.