Quando se lê esta sinopse, não esperamos iniciar este livro de Sílvia Miguens através da infância de uma das mais conhecidas, temidas e importantes figuras da História da Rússia e, porque não dizê-lo, da Europa, à luz do seu tempo. Figuens, como foi sempre tratada carinhosamente pela ama Babet ao longo de toda a vida (por sua insistência) deixou de ser rapidamente menina, à semelhança de muitas outras princesas, para conseguir adaptar-se e captar as influências de uma nova corte, estranha, um pouco temível, e gerida por um clima de instabilidade, que a arrancou dos braços da inocência para um casamento arranjado com um arqui-duque com comportamentos desprezíveis, à sua vista. É com a morte de Isabel II e com a subida ao trono do seu marido, que surgem uma série de oportunidades de reverter o quadro de infelicidade plena e de tomar as rédeas do poder (mas também da condução de um império desgovernado pelas loucuras de um Imperador que não quer nem sabe governar. Catarina irá fazer-se valer de aliandas poderodas, de correspondências com alguns dos maiores pensadores da Europa iluminista, e revolucionária (ainda que nem sempre concorde com eles) e ligar-se a uma série de amantes.
A composição semelhante à escritura de memórias jogou um pouco contra este livro. Acho que nunca consegui ver a personagem realmente como Catarina, a Grande, porque o tom inserido era sempre de grande ingenuidade, quase como se os diversos caminhos por ela tomados fossem obra do acaso e não de sua decisão e poder. Não passa para o leitor a mulher forte, desenvencilhada, culta e sedenta de saber, poder e controlo.
Por outro lado, se por vezes perdemos muito tempo junto das intrigas da vida palaciana, no seguimento de momentos que interessavam perceber, como conflitos europeus e nas estratégias diplomáticas tomadas em contexto geopolítico, perdem-se todos os momentos. São referidos de passagem, e teriam todo o sentido se o relato fosse contado a alguém da época ou com um enorme conhecimento da história do czarismo da Rússia. Para quem gosta de história, mas não a conhece de trás para a frente, por vezes a introdução destes elementos é confusa e atabalhoada ( várias vezes parei porque queria perceber realmente o contexto e o que tinha acontecido).
Temos também a introdução repentina de personagens, que logo saem de cena, porque houve uma evolução temporal, muito despachada. Estas localizações temporais são também dispersas. Lembro-me que a determinada altura Catarina, a Grande refere estar no seu país de acolhimento há 8 anos, embora para além dessa referência não há nada que o relate (pensamos até terem-se passado apenas uns meses após o seu casamento).
Ainda assim, acho que não foi uma questão de erro de escrita ou incapacidade da autora, mas mais uma jogada criativa. De facto, e lendo este livro (que não deixa de ser uma obra ficcional), é possível imaginar a Czarina, ou Mãezinha a redigi-lo, ela própria refere várias vezes que se deveria dedicar às memórias que numa fase inicial escrevia para um tio apaixonado, mas que a acompanharam para o resto da vida. E, em jeito de diário, ninguém faz uma referência enquadratória do contexto do seu quotidiano, simplesmente o que se viu, viveu e sentiu. E nesse aspecto, este livro cumpre com o seu objectivo.
É um romance histórico, não garanto que todos possam gostar deste formato nesse contexto, mas não deixa de ser original. - Cláudia