Meu Destino É Ser Onça - Alberto Mussa | 272 pgs, Record 2008 | NITROLEITURAS #mito #histórico #lendas #índios | Lido de 17.09.17 a 18.09.17
SINOPSE
Após estudar os fragmentos de registros feitos pelo frade André Thevet sobre a cultura indígena durante a ocupação da Baía de Guanabara, em 1550, e cotejá-los com as demais fontes dos séculos XVI e XVII, o autor reconstituiu o que teria sido o texto original de uma narrativa mitológica da tribo tamoio (os tupinambá do Rio de Janeiro).
RESENHA
Uma espécie de pesquisa antropológica com passagens sobre o mito de criação tupinambá, e uma sequência de explicações do Alberto Mussa sobre como chegou à narrativa desse mito, com suas anotações e comentários sobre as fontes que consultou.
A pesquisa é impressionante, uma tentativa magnífica de recontituição dos mitos e da cultura dos povos indígenas pré-coloniais.
Me impressionou muito a detalhada explicação da cultura da antropofagia, muito mais complexa e interligada com a espiritualidade indígena primitiva do que eu jamais imaginava!
Uma obra importantíssima, que mistura narrativa mitológica, ensaios, referências e discussões sobre a cultura indígena primitiva e as questões de interpretação histórica com base em testemunhos de forasteiros imersos em uma visão de mundo eurocêntrica.
Sensacional!
TRECHO
"Quando Maíra apareceu na terra, o céu ainda não tinha todas as estrelas que vemos hoje.
Foi nessa época que elas foram aparecendo: o Maxilar de Anta, o Urubu, o Tinguaçu, a Suaçurana, o Lagostim, o Curumim Bebedor de Manipuera, a Jandaia, a Jaçatinga, o Caí, a Carnaúba, o Poti, o Monte de Mel, o Panacu, o Tapiti, o Tucum, a Tigela, o Fogo Ardente, a Estrela Grande.
Muitas delas foi Maíra quem pôs no céu, com seu poder de transformar as coisas.
Embora Maíra tivesse ensinado aos homens tudo o que era necessário para viverem na terra queimada pelo fogo do céu, ainda havia muita maldade.
Os homens não faziam as coisas do modo como Maíra ensinara; e isso o deixava furioso.
Maíra, então, começou a puni-los, transformando as pessoas em pássaros, animais, serpentes e peixes.
De tanto serem punidos com metamorfoses, os homens decidiram se vingar.
Reunidos à noite, em volta das fogueiras, pensavam num jeito de matar Maíra.
Mas temiam que ele acabasse transformando definitivamente toda a humanidade em animais, se percebesse a trama, pois achavam que Maíra tinha o conhecimento do passado e do futuro.
Resolveram, então, adular Maíra, fingindo terem por ele uma grande reverência, pois sabiam que era isso o que ele mais apreciava.
Assim, alguns homens foram à taba de Maíra, para pedirem fogo e convidá-lo para uma grande festa, quando receberia muita homenagem.
Embora soubesse do ódio daqueles que o convidavam, Maíra era tão vaidoso que não resistiu.
E foi sozinho, tanta era a certeza do temor que impunha às pessoas.
Assim que chegou à aldeia deles, se viu cercado pelos inimigos.
Então, o tuxaua se aproximou de Maíra e o desafiou a pular sobre três imensas fogueiras.
Maíra percebeu que seria impossível escapar, porque havia homens por todos os lados, decididos a matá-lo.
Ciente de que caíra numa cilada, aceitou o desafio.
Saltou sobre a primeira fogueira, e atravessou o fogaréu sem se queimar, para espanto dos homens.
Todavia, na segunda vez, embora estivesse confiante, foi imediatamente consumido pelas chamas.
Maíra, então, fez a sua própria cabeça explodir.
O barulho dessa tremenda explosão foi tão forte e tão alto que atingiu os confins do céu, onde está Tupã — ser terrível criado pelo Velho para fazer cair o primeiro dilúvio.
Por isso, quando Tupã se desloca muito rápido pelo céu, indo quase que instantaneamente de um ponto a outro do espaço, provocando tempestades, também produz o trovão e os relâmpagos.
O trovão é o ruído terrível da explosão da cabeça de Maíra; e os relâmpagos são o fogo que o consumiu.
Por ter explodido a própria cabeça, a alma de Maíra não foi aniquilada.
Cuaraci, indignado com a atitude dos homens, mandou que os demais caraíbas transformados em estrelas entregassem à humanidade uma grande pedra.
Essa pedra tinha as marcas dos pés e do cajado de Maíra e provava que ele ainda vivia e morava no céu — para onde tinha ido depois da explosão.
Se a pedra fosse destruída, ou roubada, seria o fim da humanidade.
A pedra, no entanto, teria um guardião.
Este era o Muriqui Feliz — animal que gritava tão alto quando via alguém que seria impossível uma pessoa se aproximar da pedra sem que os outros soubessem.
E o Muriqui Feliz, tão ligeiro que era impossível capturá-lo, ficava noite e dia preso à pedra — que lembrava aos homens os grandes feitos de Maíra.
Porque o céu é de pedra; mas os grandes caraíbas imprimem pegadas na pedra como nós imprimimos na areia."
MEU DESTINO É SER ONÇA, Cap. Na era das metamorfoses, Alberto Mussa.