A sequência que me trouxe a esta leitura provém das leituras antagónicas em que me vejo metida ultimamente - sobretudo, com Uma árvore no céu de Brooklyn a induzir bocejos e Victorian psycho a provocar arrepios. A resposta para tentar equilibrar as coisas foi procurar algo de verdadeiramente inocente, mas divertido, que me trouxesse de volta ao reino dos vivos. Vai daí, recuperei o pequeno Nicolas (aqui, Nicolau) que, neste livrinho (um ao calhas de uma meia dezena deles que fazem a coleção, conforme reeditada pela D. Quixote), vai de férias depois de mais um laborioso ano escolar em que ganhou o prémio de eloquência, que no caso dele recompensa mais a quantidade do que a qualidade.
Terminado o ano, falta decidir onde ir passar as férias mas, em casa do Nicolau, a escolha do lugar onde passar as férias não constitui problema, porque... «O meu pai é que decide».
Só que não, porque, afinal, quem decide é a mãe de Nicolau:
O meu pai disse que, sim, senhor, ia escrever para ver se ainda havia quartos vagos.
— Não vale a pena, já está tudo tratado — disse a minha mãe. — Ficamos no quarto 29, com vista para o mar e casa de banho.
Com isto despachado, o destino escolhido é a Bretanha, pelo que a família do nosso herói vai viver tudo aquilo que o território bretão tem para oferecer: praia, passeios por ilhas misteriosas e, claro, muita chuva - ou não fosse aquilo uma Inglaterra em miniatura. Para aligeirar as coisas, os miúdos de férias no hotel Costa-Bela vão juntar-se e causar o caos, fazendo perder a paciência aos adultos e rir os leitores:
Ontem apareceu o novo professor de ginástica.
— Chamo-me Heitor Duval — disse-nos ele. — E vocês?
— Nós não — respondeu o Fabrício, e desatámos a rir.
(...)
— Meninos! — disse o professor. — Meus meninos, quem não fizer o que eu mandar... apanha um açoite que não vai esquecer tão cedo!
— Não tem o direito de fazer isso! — disse um dos putos. — Só o meu pai, a minha mãe, o meu tio e o meu avô é que têm o direito de me dar açoites.
— Quem é que disse isso? — perguntou o professor.
— Foi este — respondeu o Fabrício, apontando para um dos putos do Hotel da Praia, um puto muito baixinho.
— Não fui nada, mentiroso — refilou o puto baixinho, e o Fabrício atirou-lhe areia para a cara, mas o puto baixinho deu-lhe um estalo do caraças. Eu cá acho que o puto baixinho já deve ter feito ginástica, e o Fabrício ficou tão espantado que até se esqueceu de chorar.
Seja a fazer quinze dias num hotel, a torrar sob o sol escaldante ou num acampamento todo zen no meio da floresta, a interrupção letiva - muito maior do que isto - é, para muitos pais, disso tenho a certeza, muitas vezes mais cansativa do que os meses de trabalho. Mas que não se engane ninguém, para os miúdos também não é fácil! Eis aqui a prova.
Felizmente, também as férias acabam e tudo regressa ao normal:
— Não podes ser um bocado mais paciente com o pequeno? — perguntou a minha mãe ao meu pai. — Eu tenho de arrumar a casa, não tenho tempo para lhe dar atenção, e acho que...
— E eu, cá por mim, acho que um homem devia poder ter sossego em casa! — respondeu o meu pai.
— A desgraçada da minha mãe é que tinha razão — disse a minha mãe. — Não me venhas agora com a tua mãe, que não tem nada de desgraçada! — gritou o meu pai.
— Pois, pois, insulta a minha mãe! — disse ela.
— Eu insultei a tua mãe, por acaso? — berrou o meu pai. E a minha mãe desatou a chorar, o meu pai pôs-se a andar às voltas pela sala, aos gritos, e eu disse que, se não pusessem imediatamente as minhas lentilhas a germinar, ainda me matava. Então, a minha mãe deu-me um açoite. Os pais, quando regressam de férias, são insuportáveis.
Quem conhece Goscinny ou Sempé (e como não) já sabe ao que vai. Le petit Nicolas é uma criação de referência no humor dos anos 60 que tem início na BD, sendo posteriormente adaptada a livro, TV e cinema. Longe de sofrer com a idade, estas aventuras resistem como marcos de uma literatura infantil que privilegia explicitamente o ponto de vista das crianças, sem esquecer os adultos, a quem deixa a leitura implícita.
Fiz bem em regressar a Nicolas. Resultou num intermezzo divertidíssimo!