Num mundo em crise, José Tolentino Mendonça propõe-nos a redescoberta de um dos pensadores fundamentais do Ocidente, São Paulo.
O novo livro de José Tolentino Mendonça é uma viagem pela história intelectual do cristianismo: um ensaio sobre São Paulo e o seu contributo para os tempos presentes. Todos ouviram falar de São Paulo, mas quase ninguém o conhece: os seus textos são um clássico não só da religião, mas também da civilização ocidental, e a sua figura é apresentada de forma luminosa neste livro, com o subtítulo Reler São Paulo: «A teologia paulina não só não surgiu como um cogumelo no contexto do cristianismo das origens, mas também não se deixou confinar num esplêndido isolamento. Paulo nunca foi um pregador solitário ou um one man show. Viveu toda a vida num ritmo comunitário, cultivou uma finíssima rede de relações pessoais, tinha um conjunto de colaboradores que partilhavam o seu quotidiano e o seu pensamento, operava numa verdadeira rede social que é parcialmente reconstruível.»
JOSÉ TOLENTINO de MENDONÇA nasceu no Machico, a 15 de Dezembro de 1965. Licenciou-se em Teologia na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, com uma tese sobre a poesia de Ruy Belo. Concluiu a Licenciatura Canónica em Estudos Bíblicos no Pontifício Instituto Bíblico, em Roma. Foi ordenado padre em 1990. É, desde 1990, capelão e professor na Universidade Católica de Lisboa. Viveu e estudou em Roma, onde preparou a sua tese de doutoramento em Teologia. Além de poeta, é também ensaísta e tradutor. Foi condecorado, pela Presidência da República, com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique, em 2001.
José Tolentino de Mendonça, como muitos poetas da geração dos anos 80/90, retoma uma certa tradição lírica portuguesa. Lirismo todavia assaz particular, delicado, envolto em recato.
O livro apresenta uma linguagem simples e acessível, pelo que a sua leitura não é exigente na forma. O conteúdo está bem organizado, e é claro qual é o fio condutor do autor. Consiste numa espécie de sebenta da unidade curricular de Escritos Paulinos que o autor leccionou na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa.
Tendo lido o livro para fins académicos, constatei que o capítulo 10 desta obra é apenas uma adaptação de um outro escrito mais antigo do autor, Esperar contra toda esperança de 2016, embora não lhe seja feita qualquer referência. Levanto as suspeitas se mais algum capítulo não terá sido um reaproveitamento de trabalhos prévios, agora apresentados e compilados num só volume. Tal trabalho também é meritório. Tenho pena é que não haja referência a isso. Apesar disto, é uma obra que permite conhecer melhor as redações de um dos primeiros autores cristãos e que apreciei muito de ler.
Un libro molto interessante, ma anche particolare. Non si riesce a capire se sia per specialisti o per semplici appassionati. Inizia con un'introduzione che sembra per specialisti, poi passa a diventare una presentazione a carattere divulgativo. Infine c'è un meraviglioso capitolo sulla speranza che solo un poeta poteva scrivere, e un capitolo conclusivo molto bello che sembra compilativo, un insieme di citazioni, ma che sono tenute insieme da un filo molto originale che prende la lettura di un san Paolo per risvegliare un'esperienza di fede che va bene oltre lo studio dei testi, che sia divulgativo o specialistico.
D. José Tolentino de Mendonça escreve-nos um ensaio em que nos dá a conhecer a figura de São Paulo – quer a figura histórica, com os elementos disponíveis, quer a figura apostólica de verdadeiro teólogo cristão.
O ensaio permite uma abordagem inicial para quem, como eu, não tem conhecimentos teológicos, designadamente ao indicar-nos a discussão sobre, das treze cartas atribuídas a São Paulo no Novo Testamento, aquelas que, por consenso, lhe são reconhecidas (Primeira Carta aos Tessalonicenses, Primeira e Segunda Carta aos Coríntios, Filipenses, Filémon, Gálatas e Romanos) e aquelas cuja autoria é envolta em discussão (atentos critérios literários, linguísticos ou históricos). Depois, faz-nos um retrato, atendendo às epístolas paulinas e aos Atos dos Apóstolos (apesar de este livro ter sido escrito por São Lucas em momento posterior às cartas). No Ensaio, D. Tolentino comenta que São Paulo (que teria tido como profissão construtor de tendas, em Tarso) se fez escritor, convocando a multiplicidade cultural em que se movia (a do farisaísmo e do helenismo, a de trabalhador manual e intelectual a de mais do que verdadeira itinerância, peregrinação) e, em imagem emprestada extremamente feliz, comenta que há escritores que escrevem com tinta e outros com sangue. Sabemos a que categoria pertence São Paulo.
De seguida, começamos a entrar num ponto fundamental do Ensaio: a itinerância de Paulo. São os trilhos que permitem uma rede de contactos do Apóstolo, que cria igrejas (comunidades, assembleias), passa meses em certa cidade, prepara-se para partir novamente, passa tempo na prisão, preocupa-se fraternalmente com os problemas das comunidades e escreve. Escreve diligentemente (embora o Ensaio também levante questões sobre se tudo saiu da sua pena ou se colaboradores seus a quem ditaria teriam liberdade de compor passagens, etc.) epístolas (ou, no entendimento de certos autores, cartas) quer às igrejas, quer a indivíduos. Aí, com base no seu percurso de vida, metamorfoseia-se: de hebreu filho de hebreus perseguidor da Igreja, torna-se, após cair por terra, um verdadeiro evangelizador, trazendo como objetivo a universalidade da mensagem cristã e uma pauta valorativa distinta da que o Império promovia. Nas epístolas, há passagens que hoje lemos bem e outras que não compreendemos. O Ensaio não é propriamente (nem seria esse o seu objeto) um comentário às epístolas nem uma explicação de versículos difíceis, mas ajuda a compreender algumas ideias fundamentais do cristianismo. Destaco, fundamentalmente, aquela que nos indica que “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus” (Gal 3, 28). A propósito de escravos, interessantíssimo é o capítulo sobre a “metamorfose em vista da fraternidade”, relativo à carta a Filémon, em que Paulo lhe pede que receba Onésimo como irmão, como se fosse o próprio Paulo e as suas “entranhas”.
"Somos todos experiência do inacabado, indagação no incompleto, dureza e opacidade da pedra. A esperança não o nega ou contradiz. Trata-se de uma gestação espiritual que ocorre precisamente nessas circunstâncias. É ela que entreabre, que faz ver, para lá das duras condições, possibilidades ainda escondidas. A nossa existência é, do princípio ao fim, o resultado de uma aprendizagem da esperança, e só ela é capaz de dialogar com o futuro e de o aproximar."
JMT é um pensador e escritor único, pela capacidade que tem de abraçar o leitor, dando-lhe as pistas de leitura sem enleios e num ritmo plácido e seguro. Neste livro percorre as pistas deixadas por Paulo de Tarso e outros. Por vezes, a escrita adorna para um registo de análise bíblica não exaustivo, mas que quebra com a procura do rasto genealógico e cultural deste sobejamente conhecido apóstolo.
Tinha curiosidade em ler uma obra de José Tolentino Mendonça. mas este não terá sido um bom começo. Muitos conceitos teológicos, demasiado específicos, que não domino e que não tenho grande interesse em aprofundar. Talvez o problema seja meu, mas esperava aprender mais.