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4 pages, Paperback
First published January 1, 2008
Se quisermos fazer uma pequena brincadeira espacial, fiquemos com esta, para distinguir Brás e Borges, o delírio que começa no lombo de um hipopótamo e aquela visão que começa debaixo da escada: Brás viu tudo não em um ponto do universo, mas a partir de um ponto, o alto de uma montanha, de onde tudo lhe ficou visível; Borges viu tudo a partir de um ponto, que era a posição obrigatória ensinada pelo dono da casa, e também tudo em um ponto, “una pequeña esfera tornasolada, de casi intolerable fulgor”, com um diâmetro de “dos o tres centímetros”. É quase a mesma situação, mas Brás descortina uma paisagem vasta diante de si — o que sim é igual é a concentração das coisas, dos feitos humanos, dos sentimentos, das recordações, no tempo, mais do que no espaço: a simultaneidade, que está inscrita na obra dos dois pela via de um delírio, de uma visão mirífica, que solapa o realismo habitual, vizinhando com o discurso do fluxo da consciência mas permanecendo no campo controlado do discurso racional, que permite a ironia.