A reunião de toda a poesia de Eugénio de Andrade, a partir da última edição revista em vida pelo autor e com prefácio de José Tolentino Mendonça.
«Já passou uma década do seu desaparecimento, e o tempo encarregar-se-á de revelá-lo, sempre mais decididamente, como um clássico da literatura portuguesa e europeia. Há que dizê-lo com as letras todas: Eugénio de Andrade revolucionou a nossa poesia. Até ele a poesia era uma espécie de ponto de passagem para outra coisa, representação de uma realidade anterior ou para lá do próprio poema. Com ele a poesia deixa de ser veículo e torna-se substância de si. Termina o primado da ideia sobre a palavra. Por isso, como sublinhou Prado Coelho, "em Eugénio de Andrade, o poema é, na sua admirável transparência, duma opacidade total: ele não permite que se veja através dele, porque continuamente nos reafirma que tudo está nele". E Eduardo Lourenço dirá, em registo lapidar, que "a sua poesia é a primeira poesia da poesia da nossa Literatura".» José Tolentino Mendonça
UM SIMPLES PENSAMENTO
É a música, este romper do escuro. Vem de longe, certamente doutros dias, doutros lugares. Talvez tenha sido a semente de um choupo, o riso de uma criança, o pulo de um pardal. Qualquer coisa em que ninguém sequer reparou, que deixou de ser para se tornar melodia. Trazida por um vento pequeno, um sopro, ou pouco mais, para tua alegria. E agora demora-se, este sol materno, fica contigo o resto dos dias. Como o lume, ao chegar o inverno.
The Portuguese poet Eugénio de Andrade, pseudonym of José Fontinhas, is revered as one of the leading names in contemporary Portuguese poetry. His poetry is most striking for the depth of his short poems. One of Eugénio de Andrade's most known poems is his Poem to Mother. In 2001, he received the Portuguese award Prémio Camões.
São eles que anunciam o verão. Não sei doutra glória, doutro paraíso: à sua entrada os jacarandás estão em flor, um de cada lado. E um sorriso, tranquila morada, à minha espera. O espaço a toda a roda multiplica os seus espelhos, abre varandas para o mar. É como nos sonhos mais pueris: posso voar quase rente às nuvens altas - irmão dos pássaros - perder-me no ar.
Como sempre, quando leio poesia navego entre poemas que não compreendo para chegar a alguns que são verdadeiros tesouros. A leitura da poesia completa de Eugénio de Andrade foi assim, naveguei perdida em muitos textos mas encontrei outros que fizeram valer a pena a viagem.
Há na poesia de Eugénio de Andrade uma simplicidade e beleza nas quais não tinha reparado quando era obrigada a analisá-lo. Cada vez mais acredito que para gostarmos de poesia temos, primeiro, de nos deixar envolver por ela e só depois pensar nas entrelinhas.
Poesia é cúmplice, de uma transparência que se resguarda e de um jogo de palavras que nos desarma e nos embala. Mesmo que continue a considerar que não entendi tudo, senti-me aconchegada nos poemas, quase como se partilhássemos algum nível de intimidade e a sua sensibilidade fosse uma generosa passagem de testemunho. Envolvida numa espécie de silêncio, podia jurar que o estava a ler à beira da sua tília.
Um reencontro com muitos dos meus poemas preferidos, alguns novos encontros, ou encontros esquecidos. Sem surpresas mas sempre com o encanto e o prazer de ler este fantástico poeta da minha terra.