Volume preparado ainda em vida por Ary dos Santos, mas publicado postumamente, em 1989, colige centenas de poemas escritos para canções, a maior parte das quais de grande sucesso, musicadas por compositores como Fernando Tordo ou Nuno Nazareth Fernandes e cantadas por intérpretes como Carlos do Carmo ou Simone de Oliveira. Abordando uma grande variedade de temas, as composições reunidas em As Palavras das Cantigas reatam com a tradição jogralesca da poesia portuguesa, oferecendo textos em que a indissociabilidade entre música e letra reabilita a figura do trovador, emocionado diante dos infortúnios, do amor ou do desconcerto do mundo.
Para Natália Correia (cf. prefácio a 'As Palavras das Cantigas', Lisboa, 1989), as várias faces desse poeta inflamado compõem as múltiplas máscaras de um "desespero fulcral": "Qual então o verdadeiro Ary? [...] O do lord que foi de Escócias de outras eras revividas em damascos, pratas e cristais ou o que, nos seus poemas, rasga o peito para mostrar um coração que sangra pelos infortúnios do mundo? A resposta que prontamente me acode é: os dois e ainda mais o sensualão dos cheiros lisboetas, o pária com sobretudo de gola de astracã, o rei-bobo guizalhando chalaças para ter como súbditos todos os aplausos do mundo, o sentimentalão social que se desnuda para dar a roupa aos pobres, o eterno amante sem amor, enchendo esse vazio com risadas que sabem a sangue. E tudo isto fundido numa infância agigantada que tirita de solidão pedindo agasalho nos seus versos."
JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS nasceu a 7 de Dezembro de 1936. Ao longo da sua vida exerceu várias actividades profissionais, desde vendedor até técnico de publicidade. Como autor estreou-se com Liturgia do Sangue, em 1963, embora o seu nome seja revelado sobretudo através de poemas escritos para canções, principalmente satíricas e de intervenção, e para fado, domínios em que operou uma renovação profunda, apostando na possibilidade de fazer passar, através da música, para o grande público, composições onde, num tom exaltado e passional, a sátira social co-existe com o arrebatamento lírico. Foi também o autor de Adereços, Endereços (1965), Insofrimento in Sofrimento (1969) e Fotos-grafias (1971). Numa segunda fase, escreveu As Portas Que Abril Abriu (1975), obra que revela o seu entusiasmo com a revolução do 25 de abril de 1974 e com a militância de esquerda. Faleceu em Lisboa, a 18 de janeiro de 1984. Foi condecorado, pela Presidência da República, a título póstumo, com o Grande-Oficialato da Ordem do Infante D. Henrique, em 2004.
Ary dos Santos foi um grande poeta e um grande poeta para escrever para música. Um poeta que se tornou imortal nas vozes de Amália Rodrigues, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, Simone de Oliveira, Carlos do Carmo e outros. v