Jump to ratings and reviews
Rate this book

Viagem Solitária - Nova Edição

Rate this book
A corajosa jornada do homem que se tornou símbolo da liberdade de gênero no Brasil Viagem solitária, livro que narra a corajosa jornada de um dos maiores símbolos da liberdade de gênero, chega em nova edição que homenageia a força e a trajetória de seu autor, João W. Nery (1950-2018), que, em 1977, foi o primeiro trans-homem a realizar uma cirurgia de redesignação sexual no Brasil. Quase dez anos depois do seu lançamento, ainda é um livro à frente de seu tempo. "Eu não conhecia ninguém igual a mim. Não era hétero, não era homo, era trans. Mas o que é ser trans? Eu não sabia. Eu só era diferente. Precisava me reinventar", escreveu João. Seu livro, uma obra tecida com dor e com coragem que anuncia um mundo menos solitário para aqueles que não se enquadram entre as maiorias, é uma história de incompreensão, superação, autoafirmação, coragem e generosidade de um homem nascido preso a um corpo de mulher que, no fim, contra tudo e todos, se torna pai e ícone. Escritor e ativista pelos direitos LGBT, João W. Nery renunciou à carreira de psicólogo e professor universitário quando, adotando uma identidade falsa, decidiu lutar para poder ser aceito e respeitado como homem. E, não bastasse sua vida ser emocionante e admirável, ele ainda fez dela um ato político e se arriscou inúmeras vezes em prol da causa trans. Após a primeira edição de Viagem solitária, em 2011, João tornou-se referência nacional como ativista dos direitos humanos e pelo reconhecimento do transexual perante a sociedade e a justiça. Seu nome batiza o Projeto de Lei de Identidade de Gênero, proposta em 2013 pelos deputados Jean Wyllys e Erika Kokay. Sua luta segue hoje nas mãos de sua esposa, seu filho e milhares de transexuais espalhados pelo Brasil. Viagem solitária é uma leitura sensível e comovente para todos aqueles que prezam pela liberdade e a diversidade - parte da essência da natureza humana. Como escreveu o mestre Antônio Houaiss, "leiam-no e humanizem-se". A nova edição, revista, conta com apresentação inédita de Sheila Salewski, viúva do autor. "Maravilhosa narração autobiográfica... testemunho imprescindível... Para driblar uma lei que lhe negava o direito de ser ele mesmo, João teve que renunciar a tudo." - Jean Wyllys, professor universitário e ex-deputado federal "João W. Nery é uma referência nacional não só por ter sido o primeiro trans-homem do Brasil (como aparece na mídia), mas também por sua generosidade e sua coragem em compartilhar sua experiência singular, mostrando-nos que é possível sermos o que desejamos, sem cedermos às constrições sociais que nos são impostas pela sociedade e pela cultura." - Simone Ávila, pesquisadora em identidades de gênero e subjetividades

370 pages, Paperback

First published October 1, 2011

12 people are currently reading
249 people want to read

About the author

João W. Nery

4 books3 followers

Ratings & Reviews

What do you think?
Rate this book

Friends & Following

Create a free account to discover what your friends think of this book!

Community Reviews

5 stars
125 (56%)
4 stars
56 (25%)
3 stars
37 (16%)
2 stars
4 (1%)
1 star
1 (<1%)
Displaying 1 - 29 of 29 reviews
Profile Image for Nelson Zagalo.
Author 15 books466 followers
December 7, 2020
A "Viagem Solitária" é uma das experiências de leitura mais gratificantes por que passei nos últimos anos, porque vem carregado de sensibilidade, mas especialmente porque nos abre a porta a um mundo distinto, difícil de conceptualizar mentalmente, o da transexualidade, tornando-a naturalmente humana. António Houaiss, o criador do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, escrevia como prefácio ao primeiro livro de João W. Nery, em 1984, "Leiam-no e humanizem-se.”

[imagem: https://virtual-illusion.blogspot.com...]
Transexual: "condição do indivíduo cuja identidade de género difere daquela designada no nascimento" (Dicionário Priberam)

A maior questão que a transsexualidade evoca junto da camada de indivíduos sexuais padrão é: "como sabemos que não é um problema mental?" E isso é uma barreira muito difícil de ultrapassar para muitos. O caso do João é excelente, porque quem lê esta obra aprende a ver o mundo pelos olhos de um transexual. Enquanto Joana nunca gostou do seu corpo, sentiu-se sempre atraído por mulheres, mas sem qualquer pensamento lésbico, sentia-se heterosexual completo. Ler as suas palavras, o modo como sentia e desejava, torna tudo cristalino. Mas se dúvidas houvesse, quem seria capaz de abandonar conquistas de décadas enquanto mulher para se transformar num homem perdendo direito a tudo. Joana era licenciada e mestre em psicologia, professora universitária, adorada pelos seus alunos e colegas. Ao prosseguir com a operação, em pleno 1977, e na clandestinidade, perdeu o direito a usar o nome e os pergaminhos. O João nasceu com 27 anos. A pessoa que era continuou a sê-lo, num corpo diferente, mas para a sociedade passou de mulher Mestre a homem Analfabeto. Deixou o Rio e a academia e tornou-se agricultor no interior do Brasil.

O relato de algo assim impacta tudo aquilo que assumimos como realidade padrão. Mas maior do que isso é sem dúvida a frontalidade e lírica do relato. João, desde a infância demonstrou uma sensibilidade e empatia absolutamente à prova de ferro. A forma como escreve, como vê o mundo que sempre o mal-tratou, compreendendo a dificuldade desse mundo em relacionar-se com o diferente, o aparentemente impossível, o quase extra-terrestre, é digno de laudo.


“Havia um abismo entre como me viam e como me sentia.”

“Transformei-me literalmente num marginal, pois vivia à parte, à margem. Não pertencia nem ao grupo majoritário heterossexual e aceito, nem a qualquer grupo minoritário e discriminado. Não me sentia mulher nem homossexual. Ainda desconhecia todas as categorias “inventadas” em meados do século XX. Sabia que não era aprovado pela maioria. Em que grupo existente me enquadrava?”

“Vislumbrei duas saídas: acabar comigo ou lutar contra o impossível. Não queria morrer. Sabia que só teria uma vida. Embora fosse uma desgraça, toda trocada, não haveria outra chance. Estava vivo sem comparações.”


A leitura do livro ajuda-nos a compreender como sente alguém a intensidade de estar vivo num corpo que não corresponde ao conceito de si. Como a componente sexual pode funcionar, sentir prazer e atingir o orgasmo, mesmo não existindo recursos físicos apropriados à função esperada. A mente toma conta da biologia e encarrega-se do frémito. O livro fala também de quem envolve a pessoa, da dificuldade de lidar com a não aceitação, de lidar com a mudança, coloca a questão sobre o passado que deixa de existir e o novo presente, tudo na mesma pessoa, na mesma irmã que passa a irmão. É um relato carregado de detalhe sobre o humano e as teias sociais que o sustentam, tão vitais e ao mesmo tempo tão frágeis.

Por isso, este livro do João, que nos deixou em 2018, não presta apenas homenagem a todos os transexuais do mundo, ele é um hino à humanidade, à nossa capacidade de nos transcendermos, de sermos tolerantes e abertos ao outro, qualquer que seja a sua condição. É uma obra magnífica, por tudo o que o João tem para nos dar, e pelo modo electrizante como dá conta do mundo ao seu redor, capaz de nos agarrar na primeira página e só nos largar na última.

Façam um favor a vós mesmos, leiam-no, o vosso mundo será mais precioso.

Publicado no VI:
https://virtual-illusion.blogspot.com...
Profile Image for Maria Ferreira.
227 reviews50 followers
December 29, 2020
A escrita é de uma beleza, sensualidade e profundidade que nos deixa emocionados.

Começo por agradecer a um amigo querido que me ofereceu este livro, sem ele a minha vida seria muito menos enriquecida. Obrigado!

Em plena ditadura e num país fortemente estereotipado um homem mora dentro de um corpo de mulher, luta diariamente para se livrar deste corpo inútil e para que a sociedade lhe reconheça o seu verdadeiro corpo, como homem. Joana sente desde pequena que algo está errado consigo, mas é na adolescência, com a modificação do corpo que a angústia e o desespero dão conta das suas emoções, não é homossexual porque não se sente mulher, é um homem, e quer ser aceite como tal. A sociedade não colabora, porque somos instruídos a olhar para o outro como homem/mulher consoante a sua aparência e está de tal forma instituído em nós, que esperamos que todos se comportem à altura da sua fisionomia.

Assumir-se transexual numa sociedade que não aceita as diferenças, em que estes casos são considerados como desviantes, como tal, são indicados como doentes mentais.
A luta foi dura, muito dura, mas a persistência e determinação de Joana em perseguir o sonho de encontrar paz e ter um corpo que corresponda com a sua mente foi maior e sujeitou-se a cirurgias para abandonar definitivamente o corpo de mulher.

João nasce com 18 anos do corpo de Joana com 27 anos. A morte de Joana deixa marcas na família porque efetivamente não morreu, mas como vai a família lidar com as memórias de uma irmã, filha ao longo de 27 anos e a vê desaparecer para dar lugar a um homem que aparece do nada, com pelos no peito e na cara e sem mamas.

Após a cirurgia Joana, psicóloga, professora universitária, desaparece e com ela a sua documentação, um passado que se apaga, restando apenas memórias. João surge, um corpo responsivo com mente, mas não existe legalmente, não há registo de nascimento, não existe certificado de habilitações, nem carteira profissional.

É um imperativo das sociedades, termos de, constantemente, comprovar aos outros quem somos, o que temos, o que fazemos etc. sem isso não existimos legalmente tal como João W. Nery, esta foi mais uma dura batalha a empreender.

Esta obra não relata apenas a vida de um transsexual, abre imensas interrogações sobre o conceito de gênero e o nosso conceito, o que somos, o que fazemos, o que acreditamos enquanto humanos, e com isso nos vamos "trans-formando" em pessoas “trans”

Pessoa “trans” é aquela que está em permanente “trans-formação”, disposta a “trans-por” todos os obstáculos. É aquela pessoa que “trans-gride” regras e padrões de conduta, “trans-mitindo” à sociedade, de forma absolutamente “trans-parente”, novas ou inexploradas possibilidades de realização. Pessoa “trans” é aquela que “trans-cende” a si mesma, tentando expressar ao mundo a pessoa que ela realmente é, em vez da pessoa que o mundo acha que ela deveria ser.

Letícia Lanz

“Leiam-no e humanizem-se”
Profile Image for Julia Landgraf.
156 reviews83 followers
October 22, 2020
Um livro importante e muito aberto da parte de seu autor, João Nery. A descrição do seu processo de transição, com foco especial nas cirurgias, me parece importante em termos de registo histórico em um momento em que isso era tão incomum (e ilegal). Como eu não tinha maior interesse na parte técnica e tampouco havia acompanhado a figura do João antes de ler o livro, algumas partes muito descritivas se tornaram cansativas (tanto das cirurgias quanto do seu cotidiano - o que pensou, o que falou, quem encontrou). Alguns pontos que me trouxeram curiosidade no início do livro, como sua aproximação com o movimento queer e o impacto disso em sua identidade, não foram muito destrinchados.
Sinto que não desfrutei muito a leitura ao longo dela, mas olhando em retrospecto ao finalizar o livro, a experiência foi positiva.
Profile Image for Erika.
359 reviews4 followers
January 14, 2017
A última frase do livro, dita pelo filho ao seu pai João Neri, "Acho que precisamos ser mais tolerantes", faz ressonância com a última frase do prefácio de Antônio Houaiss neste livro, "Leiam e humanizem-se." A nossa obsessão com conceitos e apego a eles chega ao ponto de nos cegar, e deixamos de ver que, debaixo desta tralha toda, somos todos seres humanos. O livro é muito bonito, mas fiquei inesperadamente emocionada com a humanidade e atitude da dra. Elizabeth, e com a parte sobre a relação de João e seu filho, desde o nascimento.
Profile Image for Letícia Cabral.
74 reviews2 followers
September 27, 2015
Que livro incrível! Mal tenho palavras, foi uma experiência maravilhosa. O João escreve muito bem e sua vida é interessantíssima, além de nos mostrar como evoluímos, e ainda assim estamos atrasadíssimos quanto à transexualidade no Brasil.
Profile Image for vitória cunha.
70 reviews2 followers
January 11, 2021
esse livro foi a minha segunda leitura de 2021 e entrou na minha meta de me aproximar mais de histórias não fictícias. nunca me atraí muito por biografias, mas depois de no ano anterior ter lido "a ridícula ideia de nunca mais te ver", me sensibilizei sobre como a vida de alguém real pode ter uma importância singular em ser contada.

comprei viagem solitária por acaso, num desses quiosques que vendem livros ao preço único de 10 reais, e foi uma grata surpresa. engoli a leitura em 3 dias (o que é bastante rápido para o meu ritmo), a história de joão me ensinou sobre sensibilidade, empatia e coragem. os pensamentos que ele tinha enquanto criança e adolescente são um belo ensinamento sobre enxergar as pequenas coisas no outro, sobre captar o não-dito e criar um espaço seguro.

muitas das situações relatadas, apesar de terem acontecido há muito, me remetem a comportamentos que enxergo ainda nos dias de hoje: o preconceito, a resistência ao que é diferente, a burocracia e os empecilhos do dia a dia para coisas que tecnicamente poderiam ser mais simples. muita, muita admiração pela perseverança de joão.

a única coisa que me incomodou profundamente foi o uso do nome feminino tantas vezes (costumam chamar de nome morto), o que me leva a questionar se isso aconteceu por joão não ter problemas com sua antiga identidade enquanto ele mesmo conta sua história, ou se esta era simplesmente uma forma mais simples e didática de fazer com que o público cis compreenda melhor sua trajetória.

senti falta de mais informação acerca de algumas coisas citadas rapidamente, mas que não foram aprofundadas: como joão lidou com o período ditatorial no Brasil e como isso afetava sua busca pelo reconhecimento e liberdade de expressão, o início das lutas LGBT da época, o término com amanda. algumas situações soaram também como se joão estivesse contando apenas parte da história, deixando de lado os erros que cometeu na vida e as partes de sua personalidade que não eram agradáveis.

de qualquer forma, isso não enfraquece o relato! recomendo para todos e torço pelos que estão na luta.
Profile Image for Duda Zanine.
30 reviews3 followers
Read
February 20, 2020
Um dos aspectos que mais me chamou a atenção nesta autobiografia amistosa foi justamente a tal solidão referida no título. Embora pessoas de boa vontade tenham passado pela vida de João, somente ele próprio conseguia compreender suas necessidades mais profundas. Não havia ninguém ao redor na mesma situação com quem pudesse conversar. Ele foi o primeiro. Não existiam redes sociais, sequer existia internet. Não existia informação sobre transgeneridade masculina à disposição. Talvez por isso seja tão tocante quando, num dos momentos finais do livro, João encontra-se com outros homens trans para conversarem sobre a história de vida de cada um.
Profile Image for João Pedro.
34 reviews18 followers
October 28, 2020
3,5. confesso que achei que fosse gostar mais. a primeira parte do livro - minha preferida - me deixou com certa expectativa que não se cumpre. de qualquer forma, serviu pra me aproximar das experiências e da vida de João que, sem dúvidas, enfrentou só o começo de um longo percurso, deixado para a gente continuar trilhando.
Profile Image for Clara.
80 reviews22 followers
October 25, 2020
extremamente valioso e importante como relato. já como obra literária, um pouco cansativo e demasiadamente focado nas cirurgias. mas adorei ter lido e conhecido mais sobre o joão e sobre transhomens em geral
Profile Image for Miguel.
52 reviews
May 9, 2024
Apesar de um livro muito difícil de ler, é reconfortante pra mim como uma pessoa transmasculina saber que é possível sobreviver, envelhecer, construir uma família, uma rede de apoio e ser feliz mesmo com todas as dificuldades.
Viva João W. Nery!
Profile Image for Bruno Greggio.
Author 2 books3 followers
December 29, 2018
Não sou um grande fã de biografias. Quando não me parecem um remanescente aburguesado de hagiografias, cheiram a um golpe publicitário barato, que tenta aproveitar um "hype" para fazer algum dinheiro com a minha atenção.

Mas, assim como há vidas e vidas, há biografias e biografias. Há as sobre líderes políticos que, quando os colocam no meio das relações sociais em que estavam imersos, conseguem dissolver a retórica épica do "indivíduo mais capaz, mais carismático" - tão instrumentalizada por eles mesmos - na forma de uma função historicamente determinada.

E há ainda aquelas sobre vidas difíceis de compreender, como esta, de João W. Nery, capazes de mostrar que, por baixo de nossas crenças habituais e das aparentes banalidades cotidianas, podem existir dramas insuspeitos, dificuldades desconhecidas. Essas, certamente, merecem ser chamadas de "edificantes": conseguem tornar mais próximo aquilo que, feito distante, acaba distorcido para nosso entendimento e aprisionado em meio a cochichos e sussurros.

Não faz muito tempo, a questão do "nome social" apareceu em meio às nossas relações burocratizadas. A justificativa apresentada, da existência de um constrangimento, para algumas pessoas, em usar seus nomes civis quando estes não coadunavam com sua forma de inserção social, ou mesmo a contradiziam, embora satisfatória, estava propensa a ser vista ainda de uma maneira um tanto vaga e com contornos de eletividade (como se fosse uma questão de escolha tão banal quanto decidir o sabor de um sorvete, por exemplo).

Quando se trava contato com a biografia de João W. Nery, porém, qualquer suspeita de veleidade se desvanece de pronto e o caráter de urgência daquela medida desponta. Aliás, não apenas seu caráter de urgência, como até o de sua precariedade, de sua provisoriedade - e, mesmo que a condição transsexual não seja a única atendida por ela, compreende-se a necessidade da aprovação de projetos de lei como o que leva o nome do autor, tal qual o PL 5002/2013 (Câmara dos Deputados).

Se você chegou até aqui, leitor, tenho que admitir que os parágrafos anteriores podem ter dado uma ideia errada deste livro.

Porque, se João W. Nery, falecido em outubro deste ano de 2018, terminou seus dias conhecido como um ativista engajado, não é propriamente disso que ele trata.

O máximo que você encontrará são expressões como "trans-homem" ou "transmulher", "FtM" ou "MtF", que entraram para o vocabulário relacionado ao assunto.

Não é um livro "de nicho". Quando digo que poderia ser chamado de "edificante", é porque ele dá, de fato, material para o que construir. Material honesto, de boa qualidade. E o que de melhor um livro edificante pode oferecer-nos, senão a oportunidade de construir noções melhores do mundo que nos cerca?

Nery conta sua estória, desde a infância até a meia-idade, como um homem que passou por todas as fases programadas de nossa vida civil: infância, adolescência e puberdade, desenvolvimento corporal, namoros, casamentos, formação escolar, filhos... Com a diferença fundamental de que, ao longo desse percurso, teve de entender, para si e para os outros, que esse homem era um trans-homem quando nem mesmo essa palavra existia.

Se fosse possível descrever de forma - simplória - esse relato, certamente alguém recorreria ao clichê "tudo o que você sempre quis saber sobre a vida de um trans mas sempre teve vergonha de perguntar". Porque a desinibição e a coragem do autor para descrever de forma simples e acessível assuntos que ainda são tratados com uma discrição silenciosa são uma marca própria. O interessado poderá, inclusive, encontrar, pela internet, vídeos em que ele fala abertamente e com o bom nível dos honestos, sobre matérias de foro íntimo, sem fazer-se um exibicionista. Há mesmo uma entrevista que deu no "Programa do Jô", por ocasião do lançamento deste livro.

Com tudo isso, "Viagem solitária" é a descrição de uma jornada feita de moto: quase sempre sem companhia, em um trajeto personalíssimo, mesmo que povoada de relações em boa parte dela. E, como toda moto, esta possui uma garupa. Com o livro, João nos ofereceu uma carona. Aceitando-a, podemos, talvez, nos tornar um pouco menos pedestres.
Profile Image for Camila Loureiro.
1 review
August 21, 2020
primeira impressão que eu tive de João W. Nery, o autor dessa autobiografia, é a de que ele tem uma capacidade excepcional: conseguiu me transportar pra dentro de sua mente. Este livro é o partilhamento franco e cru das transvivências desse cara ao longo de sua trajetória, traçando seu caminho da infância à velhice. Nele podemos ler seus estranhamentos, suas percepções quando à dissonância à norma, os impactos de se descobrir como indivíduo transgênero quando esta condição sequer era difundida nos meios médico e científico, nem mesmo por psiquiatras e psicólogos.
Sua prosa é fluida, mas também carregada de relatos profundamente perturbadores e dolorosos de sua viagem solitária rumo a si mesmo. João W. Nery, até se assumir publicamente como indivíduo do sexo masculino nos anos 70, viveu várias vidas, algumas simultaneamente. Enquanto se esforçava para viver o papel feminino designado ao seu nascimento, era Psicologa e professora universitária - esta persona precisou morrer para que João nascesse, num tempo em que não existia retificação de documentos. Abriu mão de tudo para trabalhar em ofícios que não exigissem sequer o curso primário, pois todos os seus diplomas tinham o nome feminino.
Mesmo que sua vida em si seja interessantíssima, o super poder de João W. Nery em fazer com que conheçamos seus pensamentos, suas angústias, suas alegrias em cores vivas como se fossem nossos faz com que a ler sobre a história do primeiro homem trans operado (ilegalmente) no Brasil seja, antes de tudo, uma experiência profundamente transformadora. 10/10
Profile Image for Henrique Lacerda.
14 reviews2 followers
September 7, 2018
Após ter sido citada por um dos participantes da pesquisa do trabalho de conclusão de curso, entrei em contato com a autobiografia de João W. Nery, Viagem Solitária. O autor, o primeiro transexual masculino a ser operado no Brasil, nos apresenta sua trajetória de vida da forma mais humana possível, sem nos esconder as falhas, as faltas e o par de cicatrizes no peito. João nos delicia ao dividir conosco sua amizade fraternal com Darcy Ribeiro, de quem fiquei curioso em conhecer mais, e sua experiência de paternidade. Além disso, permitiu conhecer com mais acuidade a tortura da transexual Waldirene Nogueira e a condenação do seu cirurgião plástico, Dr. Roberto Farina. Situada em pleno período de Ditadura Militar, a transição de João W. Nery foi um ato de revolução em prol da expressão genuína do seu gênero. Por fim, o autor revisita e provoca a cerca das tímidas conquistas das pessoas transexuais, ao longo dos anos, no Brasil e em outros países.
Profile Image for Ollie.
279 reviews67 followers
January 27, 2019
Um livro forte, frequentemente lindo, e muito interessante. Se trata da estória de João W. Nery, o primeiro transexual feminino-para-masculino no Brasil a fazer a transição completa no país (ainda por cima na época da ditadura, onde poderia ter ido preso juntamente com o médico que fez a operação.)

João conta sua estória de vida - sua infância, sua busca pela normalidade, sua luta para não sucumbir ao desespero por ter nascido no corpo errado. Algumas passagens interessantes: sua vida como taxista no Rio de Janeiro (uma cidade que visitei recentemente, e que me deu muita saudade), sua amizade com Darcy Ribeiro (que sempre lhe deu muita força), sua linda relação com o filho adotado, e suas muitas mulheres (cada uma trazendo mais sabedoria em como ele era realmente um homem, e como ele poderia crescer dentro dessa auto-definição.)

Infelizmente João faleceu recentemente, em 2018, mas deixa conosco esse poderoso legado.
Profile Image for Sarah Antunes.
2 reviews
June 28, 2020
Um livro de suma importância por desvelar as agruras vividas por um cidadão transgênero. É preciso que mais ivros como esse sejam publicados.
Já com relação ao conteúdo... Percebemos João Neri reproduzindo machismos para se sentir homem dentro da sociedade, assim como na parte final do livro fica claro o preconceito dentro da comunidade transgenera com relação aos "homens grávidos".
Este livro me fez pensar sobre o preconceito estrutural. Como, mesmo sendo nós perseguidos por julgamentos, nos vemos no direito de julgar o outro baseados nos nossos próprios padrões de certo ou errado.
This entire review has been hidden because of spoilers.
Profile Image for Lara Vilela.
2 reviews1 follower
May 3, 2022
João conta com leveza sua vida como primeiro homem do Brasil conhecido por fazer cirurgia de transição de gênero. Comecei achando que seria uma leitura pesada mas me peguei aprendendo muito e sendo afagada por aquele tipo de livro que te conta detalhes cotidianos, que são corriqueiros a todos nós.
Profile Image for Priscilla.
1,928 reviews16 followers
February 10, 2025
Eu não me lembro exatamente como esse livro me chegou em mãos, acho que veio numa leva de arquivos que me foi doada há quase uma década. O fato é que esse incidente me proporcionou a oportunidade de ler um relato que é rico como retrato social.

Nery expõe suas feridas como alguém que não tinha acesso a informação sobre transsexualidade além do "transformismo" estético proporcionado no fim do século XXI. É uma jornada dolorosa em que é possível acompanhar o declínio fisíco e psicológico do autor pela violência e ausência de proteção governamental.

Não há discussão ideológica aqui, o que não quer dizer que o autor não tenta de todas as formas convencer o leitor de seu ponto de vista - algo bem válido em minha opinião.

Recomendo pela crueza do texto, pela possiblidade de conhecer uma realidade ainda tão pouco explorada como a história da transsexualidade do feminino para o masculino no Brasil que ainda hoje ocupa o banco de trás nas discussões.
Profile Image for Elissa Tokusato.
7 reviews
June 29, 2020
Pelo título, achei que seria uma história dramática e sofrida, o que não deixa de ser, mas me surpreendi por João escrever sua própria história de maneira linda, sensível e inspiradora. Também contrário ao que o título indica, ele descreve diversas personagens que fizeram parte de sua trajetória de maneira interessante, por vezes um cômico com profundidade.
Foi o primeiro livro sobre trans que li, seu estilo me cativou bastante e devorei o livro em um dia.
Profile Image for elesbinho.
88 reviews
August 5, 2025
João W. Nery reedita seu livro lançado em 1984 ‘‘Erro de pessoa; João ou Joana?’’, uma das primeiras publicações brasileiras sobre transição de gênero, agora adicionando capítulos sobre sua paternidade.
A escrita é espontânea e tão fluida que quando eu percebi já estava no final, e não é como se fosse um livro curto, são quase 400 páginas que narram desde a infância até a paternidade de um dos primeiros trans-homem (termo esse cunhado por ele mesmo) do Brasil.
Profile Image for Camila Vitória.
65 reviews
January 24, 2022
li em dois dias. nem acredito que demorei tanto tempo pra começar a ler. gosto muito de biografias e essa é muito sensivel, bonita, me emocionou por diversas vezes a forma como fala das pessoas e como fala de si também. leitura extremamente necessária, pessoa extremamente necessária!
Displaying 1 - 29 of 29 reviews

Can't find what you're looking for?

Get help and learn more about the design.