Sei que Mia Couto é um dos maiores representantes da literatura moçambicana dos últimos anos. Sei que a sua prosa, com uma extraordinária inventividade na construção de neologismos fez dele um dos autores mais significativos no panorama da literatura africana e mundial. Sei que possui uma imaginação excedível ao comum dos autores. Sei também que nunca lera nada da sua autoria (tirando alguns excertos partilhados nas redes sociais).
O que não sei é que porque razão levei tanto tempo para ler um título da sua extensa obra. Foi preciso um querido amigo me enviar, nestes tempos de pandemia e confinamento, este “Mar Me Quer”. No paradoxo do mal – mar - me quer crendo ele, sem razão, num despotismo meu, o que não corresponde à mais total e absoluta realidade. Apenas temos os nossos tempos em que preferimos marcar na agenda da vida a nossa própria presença, com os nossos ressentimentos, com as nossas dores de alma não significando, porém, o alheamento em relação àqueles que nos são mais caros. Se assim fôssemos, seríamos apenas seres egoístas sem qualquer tipo de empatia, amizade, simpatia e reconhecimento por todos aqueles que nos fazem bem. Embora os meus defeitos sejam bem maiores que as minhas virtudes, há algo que sei que não sou de todo: ingrata. Sinto-me agradecida por todos aqueles que me fazem bem, que se preocupam comigo, que fazem de mim um ser abençoado e que me dão o privilégio de participar nas suas vidas, como amiga, confidente, como alguém que estará sempre presente para amparar as suas mágoas. Se tiveres nem que seja um amigo assim, tem-te como alguém, especial. Eu tenho, posso afirmar sem qualquer dúvida! Pelo que pude ler em resenhas de amigos por aqui, esta história tem precedentes que desconheço. Por isso, apenas posso revelar o que esta me acrescentou.
Depois deste introito que tinha de fazer em forma de agradecimento a essa pessoa para mim muito especial, sinto agora a necessidade de revelar o que este “Mar Me Quer” me trouxe. Este conto de Mia Conto é algo mágico, extante, diria, fantástico (não no sentido do inacreditável), com o paradoxo do humor e do drama, todos esses elementos condensados em apenas sessenta e oito páginas de puro prazer.
Trata-se de um momento da história de Zeca, filho de Agualberto Salvo-Erro (adoro a nomenclatura), neto de Celestino cujos pensamentos e conceitos nos surgem no início de cada capítulo fazendo-nos compreender a importância da passagem das tradições de avô para neto, e de Dona Luarmina, sua vizinha e modelo da mulher difícil de conquistar. “Me deixa sossegada, Zeca, Não vê que já não desengomo lençol?” Delicioso. “Que ideia, vizinha? Quem lhe disse que eu tinha essa intenção?” Duplamente delicioso, confessando Zeca que “muitas das visitas são para lhe caçar um descuido na existência, beliscar-lhe uma ternura. Só sonho sempre o mesmo embrulhar-me com ela, arrastado por essa grande onda que nos faz inexistir. Ela resiste, mas eu volto sempre ao lugar dela”. Atenuante? Mas Luarmina não está para comiserações.
Arrastado por essa grande onda que nos faz inexistir … sublime!!
Ela resiste, mas eu volto sempre ao lugar dela … a importância e a necessidade dos afetos, acrescentados ou subtraídos!!
Outro momento que me tocou nesta narrativa foi a contestação de que “Sim, como se diz futuro? Não se diz nesta língua deste lugar de África. Sim, porque o futuro uma coisa que existindo, nunca chega a haver. Então eu me suficiento do atual presente. E basta”. Se todos tivéssemos essa presença de espírito, seríamos todos menos infelizes.
Mais um momento de extraordinária beleza e contestação da realidade: “Em novos, só nos ensinam o que não serve. Em velhos, só aprendemos o que não presta”. Verdade!!
Continuando na mesma ideia, somos surpreendidos por esta reflexão: “Mas é pena que eu e a vizinha não nos simetricarmos. Porque ambos somos semivúvos: nunca tivemos companheiros, mas esse parceiro, mesmo assim, desapareceu. Sou mais novo que ela, mas já estamos ambos na encosta de lá em que a vida só mexe quando é a descer.
E é aqui que esta narrativa faz sentido para mim: “Restava-me a presente figura de Luarmina , gorda e engordurada. A mulher, por razões de angústia, se deixara acumular, quilos sobre o peso. Eu entendo: uma boa maneira de esconder a tristeza é cobrirmo-nos de carne. O sofrimento é fatal quando atinge os ossos. Chegada aí, a tristeza se apressa em virar esqueleto”.
Vale mesmo a pena perder uma ou duas horas na leitura de “Mar Me Quer” pois “perdi o tempo, mas o tempo esse é que não se esquece de mim”.