Manuel da Fonseca nasceu em Santiago do Cacém, a 12 de Outubro de 1911. Tendo-se estreado, aos 29 anos, com um volume de poesia, a que, pouco depois, se seguiu outro, foi no domínio da prosa que mais veio a afirmar-se o seu talento literário. O êxito alcançado pelo seu primeiro romance confirmou os vaticínios dos que, perante os contos com que Manuel da Fonseca se iniciou na prosa, desde logo o assinalaram como prosador de grandes recursos. O Fogo e as Cinzas é um livro de contos onde a arte do autor de Aldeia Nova e Cerromaior atinge a perfeita maturidade. Nele surpreendemos um Alentejo entre duas épocas, que míseras migalhas de progresso automático e fatal bastaram para opor irremediàvelmente. A que, longíqua, se perde em ruínas é povoado por fantasmas, seres decrépitos que begetam entre miséria e saudades de um tempo sem horas, lendário, fechado e concentrados, com heróis, figuras, pasagens, hábitos e instituições que se julgavam eternos. A que se anuncia e sorrateiramente alastra repele o passado para introduzir o futuro, numa revolução silenciosa mas inexorável. O comboio desperta a sonolência da planície. A trás dele, novos acontecimentos se desencadeiam irreprimivelmente. Por fim, chega a o grande mundo, terrível e desejado para os ganhões, galga fronteiras e invade a perplexa solidão alentejana. Para o povo miúdo principiava um tempo que ele ainda não percebia, mas que era o século XX. Eis a temática fundamental de O Fogo e as Cinzas, um dos mais significativos livros de contos da moderna literatura portuguesa.
MANUEL DA FONSECA nasceu em Santiago do Cacém, a 15 de Outubro de 1911. Tendo feito estudos secundários em Lisboa, deixou colaboração dispersa em revistas literárias (designadamente na Atlântico) e fez parte do grupo do "Novo Cancioneiro", com a publicação de Planície (1941). Poeta e ficcionista, estreou-se com o volume de poemas Rosa dos Ventos (1940), e os livros de contos Aldeia Nova (1942) e O Fogo e as Cinzas (1942). Entre os seus romances avultam Cerromaior (1943) e Seara do Vento (1958). Integrado de início na corrente neo-realista, enveredou depois por um regionalismo expresso simbolicamente através da vegetação castigada e das pessoas sem fortuna nem esperança. Foi condecorado pela Presidência da República com a Comenda da Ordem de Sant’Iago da Espada, em 1983. Faleceu em Lisboa, a 11 de Março de 1993.
"O fogo e as cinzas" é um livro de contos. Estes foram escritos por Manuel da Fonseca em diferentes períodos da sua vida e compilados e revistos em 1956. Estes contos refletem a vida difícil do Alentejo profundo na primeira metade do séc XX. Foi uma boa leitura!
Para quem já leu outros livros de contos do autor, pareceu-me mais do mesmo, e nenhum me foi especialmente aliciante. As histórias são em vila (ou vilas) alentejanas e os campos à volta. Camponeses e pequena burguesia ou então nobreza decadente. Contém: O largo (na vila o largo é o centro de tudo) A harpa (Luciano, miúdo e paixoneta por lena, cujo pai tocou harpa e Luciano gostou) O fogo e as cinzas (Conversas de café em que o narrador conta um incêndio colocado por um dos companheiros, para matar o pai sovina mas onde morreu o outro companheiro de mesa, comandante do s bombeiros locais) Noite de natal (soldados numa taberna) Amor agreste (elias carrusca escolhe noiva) O retrato (drama de um miúdo e do fotógrafo cujo sogro e mulher são loucos) A testemunha (ivo moura mata o zorro, sem querer, e o filho fica por testemunha de ter sido sem querer) O último senhor de Albarrã (um velho sádico e prepotente) Um nosso semelhante (mendigo salvo de um poço) Sempre é uma companhia (rádio chega à aldeia) Meio pão com recordações (mãe filha falam sobre o passado, e vivem o presente cheio de penúria, em que o neto parece deficiente e violento e o Palma, o marido da filha tinha ido à caça ver se matava um coelho)
Trata-se de mais um livro excepcional de onze contos magistralmente escritos. Mais uma vez, o autor tem a preocupação de narrar a gente alentejana que vive em dificuldades e que reage duramente ao lento progresso que se vai instalando nas vilas. A pouco e pouco a população vai perdendo as suas características e os hábitos de convívio que mantinha no largo da vila. Os poucos que teimam em permanecer ficam condenados à pobreza e ao abandono.
"-- Ceifar!... No meu tempo, era trabalho só para homens. Mas a vida deu uma grande volta... Ajeitou os cabelos de um branco sujo sob o lenço puído. 《Que a vida nunca foi boa, isso não》, prosseguiu a velha, lentamente, como se falasse para ela própria: -- Mas vinha o Natal e os lavradores davam pedaços de toucinho. No Ano Novo, a gente ia por essas herdades cantar as Janeiras, e vinham chouriços, paios, bocados de lombo. E, em toda a roda do ano, sempre lhes sobravam umas pingas de azeite e uns saquitos de farinha. Agora, é tudo comprado... Quem há aí, na classe dos lavradores, que dê sequer dois dedos de toucinho? De rosto lasso, Amanda repetiu, olhando para o lume com suavidade: -- Toucinho...
(...)
E ia dizer ainda qualquer coisa quando reparou na magras e escuras fatias dentro da tigela. Meio pão. Apenas meio pão, nada mais que isso. Mexeu os lábios mas não conseguiu falar; ficou muda, de olhos pregados na tigela. "
Quando se atira para a inventividade literária (caso do conto que dá nome à colectânea), Manuel da Fonseca espalha-se. Mas os restantes contos - retratos secos e, de certa forma, imparciais e distantes (perspectiva diferente do típico neo-realismo português) da vida no Alentejo a meio do século XX - estão longe de ser maus. Não que Fonseca revele ter grandes ideias a passar ou questões a levantar, mas não complica e funciona bem como mensageiro desse mundo distante.
Manuel da Fonseca é um dos autores mais conhecidos do movimento neorrealista português.
Neste livro, recorrendo a personagens tipo, procura ilustrar as condições de vida precárias suportadas por quem vivia no interior mais concretamente do campesinato alentejano, negligenciado durante o Estado Novo. A pobreza e a miséria são alguns dos temas facilmente identificáveis através de uma primeira leitura desta obra.
Leitura agradável, no entanto não existe um fio condutor das história, o livro consiste apenas na compilação de vários contos que acabam por se completar em alguns aspectos , mas não existe uma linha temporal.
This entire review has been hidden because of spoilers.
Fiquei surpreendida ao ver que se tratam de vários contos ao invés de uma história apenas. Estes contos retratam a vida difícil na zona do Alentejo, com descrições muito pormenorizadas dos costumes e jeitos da sua gente os quais, com o passar dos tempos, são cada vez mais inexistentes.
Se tivesse de escolher uma palavra para descrever este livro seria agridoce. Onze contos passados no Alentejo profundo que nos fazem pensar de que forma nada na vida é estático e que, com isso, poderá vir o luto, a saudade e a resistência ou a aceitação ao que é novo/ diferente.
Os contos são de facto muito bem escritos e, apesar de aparentemente serem triviais, as personagens são escritas com profundidade e cada conto é distinto e cativante. O ambiente em que se dá a ação é descrito sempre com muito sucesso, de forma breve mas extremamente eficaz em dar a perspetiva ao leitor do meio em que as personagens se encontram. É engraçado como efetivamente os contos descrevem situações, contextos e pessoas tão banais mas mantendo-me sempre muito envolvida e cativada. Isto sem dúvida que é pela forma como estão escritos: não é por acaso que é um clássico. Gostava de referir que há referências em vários contos a violência doméstica, inclusive no conto de O Senhor de Albarrã em que existe uma descrição crua que pode deixar o leitor desconfortável, sensibilizado e até mesmo ativar emoções mais negativas.
Muito bom.Pequenos contos de situações que poderiam ser o nosso dia a dia.Uma seca quando o li na escola, Fazia parte do conteúdo curricular. Agora relido e verdadeiramente apreciado.