Os especialistas e entendidos no assunto dizem que Aristóteles é uma das figuras intelectuais mais importantes de todos os tempos — que ele é, juntamente com Platão, um dos fundadores da razão ocidental.
Dizem os especialistas também que a “Política”, do mesmo Aristóteles, é um dos livros mais importantes já escritos, um dos textos seminais da reflexão política.
Mas, olhando ao nosso redor, nós, homens do século XXI, vemos que nossa realidade, nosso mundo, é muito diferente daquele dum grego que viveu no século IV a.C.. Temos estados-nações, megalópoles, viagens intercontinentais, bombas atômicas, conflitos multiétnicos, comunicação em tempo real, voto eletrônico, fábricas e indústrias, bolsa de mercadorias e futuros, em suma, nosso mundo é muito mais complexo e intrincado do que o das pequeninas cidades-estado do tempo de Aristóteles.
De que modo, então, a sua “Política” pode nos dizer algo de valor ainda hoje? De que modo a sua leitura não será apenas um fetiche de antiquários?
Pois bem, a leitura direta do texto, sem atravessadores e intermediários, joga no chão, sem dó nem piedade, todas as nossas expectativas, todas as nossas tolas ilusões.
Sim, é verdade, Aristóteles viveu muito tempo atrás e não conheceu o facebook, nem o whatsapp; mas ele conheceu algo mais importante, mais fundamental — ele conheceu a natureza humana e, a partir dela, a natureza das associações formadas pelos homens.
É realmente de fazer cair o queixo se dar conta de que as descrições de Aristóteles à respeito do comportamento dos homens, seus sentimentos, seus instintos, seus preconceitos, vícios e virtudes, se aplicam, com pequenos ajustes, aos homens do nosso tempo.
Mais do que isso: as descrições dos vários tipos de regimes políticos, da natureza da cidadania, das causas e origens das revoltas e crises sociais, dos motivos que contribuem para a preservação das comunidades políticas são absolutamente matadoras, servindo, sem maiores dificuldades, para descrever também fenômenos políticos e sociais que estão ocorrendo agora, neste exato momento, em pleno século XXI.
O que Aristóteles fez, do ponto de vista intelectual, é simplesmente monstruoso — nada mais do que criar, a partir de observações e análises duma precisão a toda prova, um ferramental que permite o diagnóstico de praticamente qualquer ajuntamento de homens neste mundão de Deus.
Mas, cuidado! Não pense que Aristóteles é como os nossos “professores de filosofia” ou “cientistas sociais” de hoje em dia. Nada mais errado do que ter essa imagem na cabeça. Aristóteles é um filósofo em sentido pleno — e dos de mais grosso calibre. Isso significa que ele simplesmente não está preocupado com os teus sentimentos, com as tuas idéias preconcebidas, com as tuas opiniões, com a tua idéia de “um mundo melhor é possível”. Ele está pouco se lixando para essas babaquices pós-modernas. O que interessa ao Filósofo — e na Idade Média Aristóteles era o “filósofo” por antonomásia — é o conhecimento da realidade das coisas, e, no caso específico da “Política”, o conhecimento da realidade da vida em sociedade.
Portanto, não espere utopias, planos mirabolantes de reforma social, diatribes contra os ricos e coisas desse tipo que são produzidas, todos dias, de maneira incessante, pelas nossas madraças intelectuais às quais damos o nome pomposo de “universidades”.
Aristóteles delineia — é verdade — uma cidade ideal, uma organização política ideal. Mas isso no mesmo espírito em que Platão a fez — não como um plano a ser implementado na prática, mas como uma régua de medida, um critério que permitisse a comparação com as sociedades atualmente existentes.
Aristóteles é, no sentido estrito da expressão, um cientista, um pesquisador, um intelectual. Isso significa que para ele o importante — diferentemente do que para Marx, por exemplo — é compreender o mundo, entender a realidade, e não transformá-la.
O realismo do homem é tão brutal, tão sem meias palavras, que ele reconhece — e não tem vergonha nenhuma de dizer — que a vida neste mundo sublunar, nesta verdadeira caverna platônica, é — para usar a expressão de Eric Voegelin — “miserable enough”. Diante disso, o máximo que se pode almejar, de maneira realista, é que as sociedades, mal ajambradas e claudicantes todas elas, sejam minimamente estáveis, não sofrendo com revoluções e crises intestinas o tempo todo.
Não que Aristóteles seja um brutamontes intelectual, de jeito nenhum. Apenas ele não tem interesse a não ser na realidade efetiva das coisas, naquilo que se passa, de fato, na vida dos homens e das sociedades. E se, para desencavar a verdade e trazê-la à luz do dia, ele tiver de demolir as idéias e opiniões alheias, pode ter certeza, irmão — ele o fará. Nem as opiniões de Platão foram poupadas do exame severo desse erudito de integridade intelectual inabalável.
Mas volto a dizer — essa severidade não implica insensibilidade, muito pelo contrário. Aristóteles é duma sensibilidade nas suas observações, dum bom-senso nas suas análises e opiniões, que é quase impossível — falo por experiência própria — não se ver a todo o tempo concordando com as ponderações desse grande mestre de vida que ele é.
Sim, diferentemente do que muitos pensam, especialmente na academia, o Filósofo ainda tem muito — muito mesmo! — a nos dizer. Suas obras não são peças de museu, mas sim o testemunho vivo, marcante, duma inteligência poderosa, duma capacidade de observação e análise ímpares, duma honestidade intelectual inquebrantável, que continuará a iluminar e a ensinar todos aqueles que se dispuserem a fazer parte do seleto grupo de seus discípulos e ouvintes.