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Tênebra: narrativas brasileiras de horror [1839-1899]

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Nesta coletânea de 27 narrativas brasileiras de horror escritas ao longo de sessenta anos, os organizadores Júlio França e Oscar Nestarez provam que a ficção do século 19 não se restringiu ao romantismo, ao realismo e a outros movimentos reconhecidos pela historiografia literária tradicional. Enquanto a crítica se voltava para o projeto nacional indianista e afirmava que Álvares de Azevedo e seu Noite na taverna eram um caso isolado, poéticas negativas corriam à margem. Os contos obscuros reunidos neste livro, colhidos após minuciosa pesquisa, mostram que, além da temática tenebrosa, outra escuridão durante muito tempo os acometeu: nunca haviam sido contemplados pelas luzes da crítica literária, permanecendo ocultos até mesmo dos leitores do gênero.

Em apresentação ao livro, os organizadores abordam os motivos que levaram ao apagamento histórico de um gênero tão popular na contemporaneidade. Além disso, eles apontam a importância de uma leitura crítica dessas narrativas que, na qualidade de textos históricos, dão a conhecer traços constitutivos da nossa sociedade — como o machismo estrutural, que excluiu do cânone literário mulheres escritoras que há muito tempo produziam, e o racismo escravocrata, que permeia essas histórias oitocentistas e avança até o Brasil do século 21.

Por meio do critério cronológico, cobrem-se as mais diversas vertentes sinistras, sejam elas o gótico, o horror, o fantástico ou as histórias de crime. Machado de Assis, Olavo Bilac, Júlia Lopes de Almeida e Aluísio Azevedo são algumas das presenças célebres que mostram a prática brasileira do gênero fora de um suposto nicho. Outros autores, menos conhecidos, mas igualmente assustadores, povoam a edição com feiticeiras, cometas apocalípticos, crimes conjugais, vinganças, florestas encantadas, fantasmas, homens possuídos, monstros flamejantes, vampiras e outros personagens escabrosos. É vasto o panorama dos que rompiam as convenções e provocavam prazer estético com o medo. Seja por meio de ghost stories, contos de mitologia ou manifestações dos horrores reais da alma humana, Tênebra pode assombrar até o mais cético dos leitores.

522 pages, Kindle Edition

First published October 25, 2022

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Profile Image for Harvey Hênio.
644 reviews2 followers
October 5, 2023
Confesso que sou um devotado fã de contos de terror, horror, suspense, mistério e também de ficção científica. Adquiri, no correr dos anos, várias e várias coletâneas de contos desses gêneros e sempre fico de olho nas novidades que as editoras lançam frequentemente.
Quando li uma matéria na revista “Veja” sobre uma coletânea chamada “Tênebra” logo fiquei interessado. Logo a adquiri e fiquei admirado com a qualidade dos contos e com o esmero com que a obra foi organizada por Júlio França, editor, pesquisador do CNPQ, professor associado de teoria da literatura da UERJ e coordenador do grupo de pesquisa “Estudos do Gótico” e por Oscar Nestarez, doutor em literatura comparada pela FFLCH-USP, escritor, tradutor, pesquisador de literatura de horror e membro do grupo de pesquisas “Estudos do Gótico”. “Tênebra” foi editado com esmero pela editora “Fósforo” e tenebrosamente ilustrado pelo gravador, quadrinista e ilustrador Eduardo Belga.
“Tênebra” é uma coletânea de contos de horror. Mas tem um diferencial fundamental: é uma coletânea de contos, ou narrativas de horror produzidos por escritores e escritoras nascidos no Brasil. Outro fator interessante é que a coletânea tem um limite cronológico; o período que vai de 1839 a 1899.
Logo na apresentação os organizadores afirmaram:

“Esta é uma antologia ambiciosa, pois pretende contribuir para desfazer um engano que vem sendo perpetrado há muitos anos: o de se acreditar que a literatura de medo brasileira se resume a Álvares de Azevedo e a uma ou outra narrativa macabra, esporádica e inconsequente. Nada poderia ser mais impreciso. As poéticas negativas – o horror, o terror, o gótico, o sublime, o grotesco – foram recursos de composição extensivamente empregados na literatura brasileira do século XIX, não apenas em gêneros ditos populares como as narrativas de sensação e as ficções de crime, mas observáveis em inúmeras obras dos diversos estilos de época estabelecidos pela historiografia acadêmica – romantismo, naturalismo, decadência”.

Ou seja, criar narrativas de horror, de terror e, ou góticas foi uma prática frequente na produção literária brasileira no século XIX. Hoje, mais de um século depois essa produção é bem menos significativa. Quais seriam as explicações para essa relativa carência de narrativas de horror na literatura nacional do século XIX para cá?
Um artigo para lá de interessante publicado na revista “Piauí” (Edição 204/ setembro de 2023) de autoria do escritor, tradutor e doutorando em escrita criativa Samir Machado de Machado trouxe um instigante raciocínio acerca dessa questão. Vale a pena reproduzir alguns trechos desse artigo:

“Eu gosto da palavra “entretenimento” pela sua abrangência, ainda que para alguns autores ela seja vista quase como uma ofensa, se for aplicada às suas obras. Como disse o escritor americano Michael Chabon, se você lê para se entreter e escreve para entreter, a definição do que é entretenimento deveria abranger tudo aquilo que surge de prazeroso “no encontro entre uma mente atenta e uma página de literatura”. Ainda assim, é uma percepção antiga entre autores, leitores e apreciadores desse tipo de ficção – por vezes definida como “fantástica”, “especulativa”, “de gênero”, “de imaginação” ou “de massa”, englobando a ficção científica, a fantasia, o horror, o gênero policial, a aventura e as histórias de amor – que a imprensa e a academia irão sempre torcer o nariz e barrar sua passagem nos portões da aprovação crítica. [...]
‘Pensar o entretenimento pelo ponto de vista brasileiro é importante como forma de repensar a nossa identidade. Equivale a discutir nossos problemas sem precisar importar o vocabulário de outras sociedades. No caso do horror perde-se, por exemplo, “a capacidade de compreender o potencial fóbico dos espaços narrativos brasileiros”, como colocam Nestarez e França. Esse é um dos problemas de se ter deixado que no Brasil o entretenimento fosse ocupado por produções estrangeiras. A lista dos mais vendidos está repleta de autores americanos e ingleses, obras de aventura, horror, ficção científica, romance e suspense sujeitas aos ditames dessas culturas e de suas crises de identidade, determinando o próprio vocabulário com que iremos nos expressar. De tanto sufocar nosso entretenimento em prol de uma literatura realista que nos definisse, fomos colonizados e moldados pelo entretenimento alheio”.

Ou seja, para o autor do artigo, e não há como não levar em consideração o que ele disse, narrativas de horror passaram a ser consideradas como uma espécie de “subliteratura” e que a produção literária nacional deveria concentrar suas atenções e esforços criativos em narrativas ditas “sérias”, realistas que expressassem nossa realidade, esmiuçassem nosso cotidiano e refletissem acerca de nossas mazelas de natureza social, política e econômica. Essa demasiada ênfase num pretenso realismo colocou em segundo plano ou simplesmente descartou narrativas preconceituosamente chamadas de “escapistas” ou destinadas “apenas” ao entretenimento como “não adequadas” ao Brasil e aos brasileiros.
Uma pena que isso tenha acontecido pois todo um campo de pesquisa, criação, experimentação e diversão foi obstaculado ainda que a resistência de alguns abnegados tenha mantido as narrativas de horror elaboradas por escritores e escritoras nacionais bem vivas ainda que para um público mais restrito.
Dessa forma o livro “Tênebra” é uma privilegiada oportunidade para conhecer esse lado “tenebroso” da literatura brasileira.
Samir Machado de Machado no seu artigo para a “Piauí” escreveu o seguinte sobre “Tênebra”:

“Quanto à seleção dos contos em si, Tênebra é um baú de tesouros repleto de maníacos, bruxas demoníacas, ciúmes doentios, padres tarados, freiras cruéis, curupiras traiçoeiros, mulas sem cabeça, fantasmas e, o mais brasileiro dos horrores, o senhor de escravos. Como sempre acontece em coletâneas, a qualidade dos contos oscila: alguns são excepcionais e vêm da pena de autores já consagrados e conhecidos, alguns são joias esquecidas prontas a serem redescobertas pelo leitor, e alguns são passáveis e valem mais pelo registro histórico. Destes últimos, felizmente, há poucos. No todo, é um conjunto bastante diverso de contos, a maior parte publicada originalmente em jornais e revistas, por vezes no formato de folhetim, levando assombro aos leitores e às leitoras em especial, uma vez que a maioria dos periódicos era voltada ao público feminino”.

“Nesse “Baú de tesouros que é “Tênebra”, que merece ser conferido na íntegra eu destaco, especialmente “O estudante e os monges” de Couto de Magalhães, “A trindade maldita: Os contos no botequim” de Franklin Távora, “Jupira” de Bernardo Guimarães, “Sem olhos”, surpreendente história macabra do mestre dos mestres Machado de Assis, “A nevrose da cor: fantasia egípcia” de Júlia Lopes de Almeida que introduz, pioneiramente, elementos de vampirismo na literatura nacional, o surpreendente “O crime de Otávio” de autoria de ninguém menos do que Olavo Bilac, o macabro “Valsa fantástica” de Afonso Celso, o assustador “Consciência tranquila” de Cruz e Souza em que os horrores presentes no conto são oriundos daquilo que ainda assombra o Brasil e os brasileiros em função de todo o mal que causou; a escravidão e o arrepiante “O medo” de Lima e Silva.
Excelente pedida e leitura obrigatória para todos interessados em conhecer melhor o quão rica é a literatura brasileira.
1 review
March 21, 2023
4,5/5,0

Um trabalho estupendo de pesquisa e organização.

Outro ponto que merece destaque é a apresentação feita pelas organizadores, que dá um ótimo panorama acerca do gênero de terror na literatura brasileira, especialmente em meados de 1800.

Quanto aos contos tem muita coisa boa e que não ficam devendo nada para autores estrangeiros da época.

Top 3 de contos na minha opinião: "A Feiticeira", "Senhor das Caças" e "Violação"
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