A mulher sem pecado, de 1941, é sua primeira peça, escrita, diz ele, para ganhar dinheiro. Motivo mais que justo. A genialidade, porém, impõe ao criador um destino para além dele. Num enredo aparentemente simples, já encontramos traços de sua escrita. Olegário, preso a uma cadeira de rodas, é casado com Lídia, sua segunda esposa, por quem nutre um ciúme doentio. Levado por sua obsessão, cria uma verdadeira rede de espiões, personagens comezinhos e próximos da mulher, para ter a prova, não da verdade, mas daquilo que lhe corrói as entranhas. “A única coisa que me interessa é ser ou não ser traído!”, diz Olegário, esse Hamlet de araque, sem castelo, sem reino, mas possuído por seu dilema existencial. Mas o pai de Hamlet foi mesmo assassinado, e Lídia é fiel! Conhecendo ou intuindo os mecanismos da grande dramaturgia, Nelson nos brinda com um final surpreendente.
Interessante peça em que se conta as consequências do ciúme quando elevado à máxima potência. Estende-se o inferno próprio às pessoas próprias, criando um ecossistema onde a única maneira de ser feliz é fugir dele. Nelson Rodrigues foi um grande observador da alma burguesa, cheia de vícios e pecados nutridos por um tempo vazio de reflexão, de pausa, empatia e alteridade. Tudo isso devido a uma experiência seca de problemáticas reais.
A Mulher Sem Pecado é sobre o medo... da impotência, da traição, da humilhação, da solidão.
Olegário é um homem obcecado por sua esposa Lídia, o que o leva a mentir, a manipular, a usar seus próprios empregados para seguí-la. Todas as palavras trocadas entre o casal são uma mistura de chantagem emocional e argumentação aristotélica - é brutal em sua opressão.
Umberto, Maurício, D. Aninha, Inézia, todos estão lá para representar aspectos da loucura: a sedução, a pedofilia, a lubricidade. Nelson Rodrigues era ímpar em representar a sociedade por meio de alegorias e nessa primeira peça de sua autoria, já fazia isso com maestria. Como a censura poderia parar algo assim - cada linha é um jorro de informações.
Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi o seu uso de metáforas para se escusar dos palavrões: V-8 ocupando o lugar de Puta, por exemplo.
Eu poderia escrever muito mais e ainda não conseguiria demonstrar o quão essa peça me impressionou. Leia ou assista, o texto é impecável.
A Mulher sem Pecado me lembra Hamlet; tem um pouco de loucura, subterfúgios e planos solertes e até uma “fantasminha”.
Mas é um Hamlet vira-lata, com uma casa suburbana em vez do castelo de Elsinore, berros e ciúmes em vez de solilóquios grandiosos, e fofocas e sacanagem em vez de assuntos de Estado do Reino da Dinamarca. O final também é menos trágico do que Hamlet (ou não, depende do leitor).
A trama é tensa e enervante. Como tudo se passa em um ambiente fechado e entre pessoas próximas que enfrentam questões íntimas e tensões sexuais, os ânimos estão sempre à flor da pele. A tensão contribui para as surpresas no desfecho, que é abrupto e fecha o arco dramático com chave de ouro.
Enfim, A Mulher sem Pecado foi uma estreia auspiciosa de Nelson Rodrigues como dramaturgo.
PS. É nessa peça que Nelson cravou a antológica frase “toda mulher bonita é um pouco a amante lésbica de si mesma”.
Último livro da minha TBR da MLV24. Primeiro livro que leio do Nelson. Sempre escutei muito sobre o autor mas também sempre ouvi em como as peças eram intensas. Dito e feito. Não sei se era pra rir mas achei a peça muito boa. Recomendo.
Gee, what a pesky, annoying man Olegário insists on being during all three acts! ... We're looking at a truly Rodriguean home, with several disturbed characters and scenes.
Depois de três livros do Nelson Rodrigues pra mim é ainda incerto o que me cativa neles. A Mulher Sem Pecado foi minha leitura preferida até agora, talvez por conseguir entender melhor as angustias de cada personagem. O ciúme doentio de Olegário e seu sofrimento por saber se Lidia era fiel ou não acaba sendo passado pra nós, e no fim até eu estava morrendo de curiosidade pra saber a verdade. No final mais uma vez sou surpreendida por ser algo totalmente inesperado, assim como em seus outros livros. Começo a achar que essa é sua marca registrada.