Se há livros difíceis na história da Filosofia são as três Críticas de Immanuel Kant. A mais importante de entre elas é provavelmente a Crítica da Razão Pura, na qual, discutindo os limites do conhecimento e as condições de sua possibilidade, Kant lança as bases para sua Filosofia Crítica, também chamado de Idealismo Transcendental.
Felizmente, para quem quer se introduzir nesse mundo e, talvez, ler a obra, Kant teve a delicadeza de lançar um resumo desse livro, intitulado Prolegômenos a qualquer metafísica futura que possa apresentar-se como ciência, de 1783. O objetivo do livro não é só esse, obviamente. Depois da publicação da Crítica da Razão Pura, em 1781, Kant percebe que alguns argumentos, por serem muito prolixos (como por exemplo a discussão da dedução dos conceitos do entendimento e dos paralogismos da razão pura), mais causavam erros do que compreensão no leitor. Enquanto não podia preparar uma nova edição alterada da Crítica (publicada somente em 1787), ele publicou os Prolegômenos, um livro muito menor e muito mais acessível que qualquer das duas edições da Crítica da Razão Pura.
Neste livro, Kant parte diretamente das três perguntas pressupostas na Crítica da Razão Pura: Como é possível a Matemática (tema da Estética Transcendental na Crítica), Como é possível a Física (tema da Analítica Transcendental) e Como (ou, talvez, se) é possível a Metafísica? As duas primeiras questões recebem uma resposta positiva de Kant: A Matemática é possível porque a sensibilidade possui intuições puras a priori, o espaço e o tempo, que fazem parte do sujeito, e não do mundo. Em outros termos, antes de conhecer objetos físicos a sensibilidade já está disposta a percebe-los através do espaço e do tempo, que não são propriedades das coisas em si mesmas, mas do modo como a sensibilidade percebe os fenômenos (argumento que, em um certo sentido, remonta a Santo Agostinho e a Descartes. Uma interessante prova apresentada na Metafísica é o experimento mental da mão espelhada - § 13). A Física é possível porque também o entendimento possui categorias a priori, como a própria causalidade (que liga temporalmente dois eventos entre si). Mas não podemos conhecer a coisa-em-si, o noumenon, mas apenas o modo como ela se apresenta em nossa experiência, o fenômeno. Os juízos sintéticos a priori que formulamos (ou seja, juízos que ligam por meio da razão, e não da sensibilidade, um predicado a um sujeito que não estão implicitamente contidos um no outro) nas leis científicas que elaboramos são descrições dos fenômenos, ou seja, do modo como se apresentam para nós. E é aqui que começam os problemas da Metafísica, que quer conhecer não os fenômenos (como a Física e a Matemática), mas a coisa-em-si (eu poderia dizer que a coisa-em-si é Deus, mas como poderia de fato dizê-lo, se não conhecemos a coisa em si?).
Somente o que se dá na experiência (é o que decorre dos argumentos anteriores) pode ser de fato conhecido, e, ainda que nossa Razão seja tendente a procurar conhecer a coisa-em-si, as ideias que formula não podem ser preenchidas pela intuição ou relacionadas pelas categorias, e permanecem sempre duvidosas ou, em termos kantianos, dialéticas. A metafísica, portanto, até hoje, não foi possível, porque nela a razão abandona sua natureza regulativa e pretende assumir uma natureza constitutiva, que, apesar de legítima, não encontra apoio na experiência, limite de todo conhecimento.
Kant não diz que a Metafísica não seja possível (e portanto as questões sobre a existência de Deus, a imortalidade da alma, e a eternidade do mundo, que são dialéticas, ou seja, tanto elas como as ideias opostas podem ser provadas ao mesmo tempo falsas ou verdadeiras), mas que ainda não temos condições de criar tal ciência. A única ideia que encontrará uma resposta positiva (e que já foi tratada na Crítica da Razão Pura, e também o será tratada na Fundamentação da Metafísica dos Costumes e na Crítica da Razão Prática) é a ideia dialética de que o homem é livre. Essa ideia é dialética porque o homem pode ser concebido ao mesmo tempo como livre e como submetido a leis (esse é o fundamento do conceito kantiano de autonomia). Isso é possível se o homem for concebido ao mesmo tempo como legislador (e portanto como coisa-em-si, ser numênico) e como súdito da legislação moral (e portanto como fenomênico). No campo da moral, pensa Kant, nós podemos conhecer a coisa-em-si porque a legislação não é externa (o que exigiria, para conhece-la, a experiência e os problemas que dela decorrem), mas interna à razão (e portanto conhecida sem a necessidade de uma estética transcendental).
Essa nova tradução em português, realizada por José Oscar de Almeidas Marques, é muito boa, e pareceu-me mais clara que as traduções anteriores (de Tânia Maria Bernkopf e de Artur Morão). O tradutor explica no início a preferência por alguns termos em sua tradução, mas ainda sentimos falta de notas explicativas ao texto de Kant, e sobretudo de uma introdução mais detalhada que parafraseie o texto de Kant de modo mais acessível ao leitor iniciante.