É um livro útil não apenas para quem eventualmente já simpatize com ideias anarquistas e queira se aprofundar como também para aqueles que, sem nenhuma inclinação pessoal, desejam apenas entender melhor a trajetória e o pensamento do movimento anarquista. Isso porque é uma coletânea que reúne os textos e excertos mais "sagrados" para o movimento, de modo que é a partir desses escritos que se pode tirar boa parte da essência das ideias anarquistas.
A introdução histórica promovida pelo organizador é preciosíssima, porque permite melhor situar o movimento anarquista no contexto da história da humanidade. Embora se trate de um organizador que também é anarquista, a introdução não deixa de citar também alguns pontos que mais são problemáticos para o movimento, como a atitude terrorista de certos grupos.
Isso poderá ser observado também durante os escritos. Há textos francamente controversos, sobretudo a "Defesa de um terrorista", relato em primeira pessoa em que o anarquista Emile Henry justifica as suas ações terroristas que levaram à morte de inocentes (para Henry, no fim das contas, ninguém era inocente). Acho um mérito o livro ter apresentado esses textos, pois, ainda que se considere que eles depõem contra o anarquismo, é fora de dúvida que qualquer publicação que se detenha a analisar as ideias do movimento precisará considerá-los.
Mas estão ali também os anarquistas clássicos, a começar por Proudhon e Bakunin, ou, antes ainda deles, William Godwin, embora esse não tenha nunca se declarado anarquista. É que muitas das ideias dele correspondiam de fato a posicionamentos que os anarquistas iriam adotar mais tarde. O organizador selecionou alguns outros autores que também nunca se declararam anarquistas, como Tolstoi e Thoreau, mas apenas porque as ideias que eles tiveram foram significativas o bastante para convergir e influenciar o anarquismo. Esses escritores, afinal, são ainda citados por movimentos libertários, justificando a sua presença.
É de se observar que alguns dos escritos apresentados não concordam exatamente entre si, ou seja, há visões diferentes sobre o anarquismo, e apresentá-las é também um mérito. Isso se torna verdade sobretudo no capítulo voltado a "imaginar" como seria a sociedade a partir do momento em que deixasse de existir o governo e a autoridade oficial. Cada um tem as suas teorias e suas estratégias de organização social e de viabilidade econômica.
Destaque ainda para os artigos em que anarquistas célebres expõem a razão pela qual discordam da visão comunista para transformação da sociedade.