“A Hora do Diabo” é um conto brilhante escrito e, de certa forma, protagonizado por Fernando Pessoa, isso muito por força dos seus conceitos filosóficos e religiosos que aqui dão voz às suas crenças, através de vários monólogos que nos são apresentados pelo próprio Diabo.
A estrutura narrativa utiliza, com maior frequência, o diálogo de intensidade dramática mas também humorística, entre Maria, uma mulher grávida que transporta no seu ventre o filho do Diabo, numa mimetização da “mala” que também transportara o filho de Deus.
Há vários momentos excecionais neste pequeno conto que lemos em apenas duas horas. Primeiro, encontramos a desconstrução medieval da figura de Satã, aquela que até hoje chegou até nós, já que se mostrou como em ser diabolizado, passe a redundância, desde os inícios dos tempos. “Desde o princípio do mundo que me insultam e me caluniam”. Está “cansado de todos os abismos e revela um coração faminto de amor”. Em segundo lugar e decorrente desta afirmação, revela uma sua substância paradoxal no sentido de uma humanização da qual sente inveja: “Tendes a vantagem de serdes homens, e creio, às vezes, do fundo do meu cansaço de todos os abismos que mais vale a calma e a paz de uma noite de família à lareira que toda esta metafísica dos mistérios que nós, os deuses e anjos, estamos condenados por substância. Quando, às vezes, me debruço sobre o mundo, vejo ao longe, indo do porto ou voltando a ele, as velas dos barcos dos pescadores, e o meu coração tem saudades imaginárias da terra onde nunca estive. Felizes os que dormem, na sua vida animal, - um sistema peculiar de alma, velado em poesia e ilustrado por palavras.” A desestruturação conceptual da ideia do “diabólico” é aqui posta a nu, dada a construção de ideias que só poderiam advir de uma extraordinária imaginação.
Mas é aqui que, no meu entender, resume o espírito desta obra ficcional e que condensa o ponto-chave para a sua compreensão já que a única função do diabo é corromper porque faz imaginar! Pois tudo aquilo que faz parte do nosso imaginário tem a sua mão: os sonhos, os desejos, as fantasias (“não é verdade que somos livres nos sonhos?”). Porque a verdade absoluta, essa é inatingível, nem sequer surge como prerrogativa do próprio Deus. E este ponto surge encadeado com a existência de várias religiões e o diabo sabe que “a verdade não pode ser revelada por nenhuma dessas ‘novas religiões’, porque essa ‘verdade eterna que nem Deus conhece’ não está especialmente em nenhuma mas não deixa de estar em todas (…). Todas as religiões são verdadeiras, por mais opostas que pareçam entre si. São símbolos diferentes da mesma realidade, são como a mesma fase, dita em várias línguas”. Brilhante a forma como as compara!!
Também é destacar nesta prosa magnífica, a batalha dicotómica do domínio. O diabo não prefigura as trevas mas sim adota um espírito lunar, identificando-se antes como a “Lua do Sol que o Deus criador foi feito ser”, pelo que, “Deus e o Diabo seriam assim complementares, como o dia e a noite, o convexo e concavo, o ir e o vir da mesma onda”.
Muito mais haveria a dizer sobre esta pequena obra-prima mas a análise já vai longa. Para finalizar, deixo apenas duas ideias que me fizeram refletir:
“Corrompo mas ilumino”. E acrescento: da iluminação surge a imaginação por isso tudo o que nos induz a criar será obra do diabo? Assim o espero!
“A alma vive porque é perpetuamente tentada, ainda que resista. Tudo vive porque se opõe a qualquer coisa. Eu sou aquilo a que tudo se opõe”.
Recomendo!!!