Uma travessia transformadora por um país tão arcaico quanto futuro, que entra na pele e comove desde o primeiro dia. Alexandra Lucas Coelho encontra migrantes clandestinos e crentes na Virgem, sobreviventes dos cartéis e zapatistas, rappers feministas e t
ALEXANDRA LUCAS COELHO nasceu em Dezembro de 1967. Estudou teatro no I.F.I.C.T. e licenciou-se em Ciências da Comunicação, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Trabalhou dez anos na rádio continuando ainda hoje a colaborar com a RDP. Desde 1998 é jornalista no Público. A partir de 2001 viajou várias vezes pelo Médio Oriente / Ásia Central e esteve seis meses em Jerusalém como correspondente. Foram-lhe atribuídos prémios de reportagem do Clube Português de Imprensa, Casa da Imprensa e o Grande Prémio Gazeta 2005. Mantém o blogue Atlântico-Sul, onde publica as suas crónicas que escreve para o Público.
Em 2007 publicou «Oriente Próximo» (Relógio D’Água), narrativas jornalísticas entre israelitas e palestinianos. Publicou mais quatro livros de reportagem-crónica-viagem: «Caderno Afegão» (2009), «Viva México» (2010), «Tahrir» (2011) e «Vai, Brasil» (2013). Em 2012 escreveu o seu primeiro romance, «E a Noite Roda», vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela APE 2012. Publicou, recentemente, «O Meu Amante de Domingo» (2014).
Um livro notável sobre o passado, o presente (2010) a violência, a beleza , o deserto , a selva, a arte, a literatura, as gentes, conhecidas, ou anónimas, de um país que merece ser conhecido para além do estereótipo que todos temos na cabeça
Obra notável, extraordinária mesmo, impressionante a vários níveis.
«O futuro chegou a Juárez há anos. Ia ser a luz brilhante que guiaria toda a América Latina. Hoje é uma ruína. O destino de Juárez é ser devorada pelas mesmas políticas que agora a estão a matar, porque admitir o falhanço óbvio destas políticas põe em causa as premissas de várias gerações de políticos e académicos. Juárez é o lugar onde a teologia moderna do desenvolvimento encontrou o diabo e foi destruída.»
Comprei há uns anos a segunda edição cartonada, de 2015, pela Tinta da China, que produz os livros mais bem cuidados do panorama editorial nacional; aliás, esta edição exemplar (capa, papel, tipo de letra, paginação, grafismo, enfim, tudo o que define um livro “físico” para além do texto) do Viva México de Alexandra Lucas Coelho, é uma prova eloquente da bondade desta afirmação.
Ora, ocorre que o livro foi para a prateleira e ficou a aguardar que houvesse oportunidade para pegar nele, o que nunca viria a acontecer, porque preciso sempre de uma motivação excepcional para ler livros físicos (i.e., em papel). Entretanto, Paul Theroux, depois de traumatizado por uma experiência em Angola (“few things in travel are simple, and everything in Angola, even the most straightforward transaction, was so hard as to be inconceivable”) em que chegou à conclusão de que já estava velho para estas tretas; e de um relato de uma viagem posterior de descoberta do próprio país, inspirada parcialmente no “Viagens na Minha Terra” (citando inclusive a frase de Almeida Garrett sobre o custo humano da produção de ricos: “eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?”); escandalizado com o tratamento miserável e a falta de dignidade com que os imigrantes latino-americanos são demonizados e humilhados nos Estados Unidos, decidiu ir até ao México perceber o que se está a passar e quem é de facto esta gente. Cerca de 2 (dois) anos (anos!) de exploração do país gozando a liberdade de guiar o seu carro, desde o Massachusetts, e apanhando uns expressos, deram origem a um livro editado em outubro.
Deste livro (On the Plain of Snakes) foi produzido (por uma editora britânica) um audiolivro, que tenho estado a ouvir (vou em 60%). O livro é notável, Paul Theroux no seu melhor, e incluindo naturalmente a arrogância, que ele nega tão veemente quanto lhe é inescapável, e o etnocentrismo norte-americano, que ele bem tenta controlar, mas debalde, e que no caso acabam por se tornar cansativos. Estava aí a 30% quando me lembrei do Viva México, escrito quase uma década antes, até porque tinha acabado de ler o “A Nossa Alegria Chegou”. E descobri que, da actual edição da Companhia das Letras, havia uma edição electrónica, que comprei imediatamente e foi assim que consegui finalmente ler este livro (na app do Kindle para o telemóvel).
E foi um maravilhamento.
“A Europa está morta e eu sou europeia. Ou, mais exactamente, do Velho Mundo. Ao fim do primeiro dia na Cidade do México, a levitar como se me tivesse dissolvido na multidão, vi que sou do Velho Mundo. E ao longo de três semanas a viajar pelo México, do deserto de Chihuahua à selva do Yucatán, vi como sou do Velho Mundo.”
3 (três!) semanas (semanas!!). Como é que se faz um livro deste calibre e desta profundidade, desta poesia e humor e classe, na base de uma viagem de 3 semanas? Devia ser impossível!
Acabei por pôr o livro do Theroux para segundo plano, porque percebi rapidamente que a crónica jornalística no “Viva México” servia perfeitamente de contextualização do outro livro (que lhe é posterior e é de uma natureza duplamente diferente: por um lado, enquanto “livro de viagens” e por outro explorando exaustivamente o tema da atracção dos Estados Unidos sobre a população do sul) e proporcionava uma abordagem solidamente complementar.
Ou seja, a leitura desta obra-prima alavanca extraordinariamente o proveito do livro do Theroux, que aliás é muito recomendável.
Antes de outras considerações, uma pequena nota. Referi antes uma citação de Almeida Garrett no “Deep South”; neste livro, Alexandra Lucas Coelho produz uma variação de sua autoria: “O voo parte de Juárez cheio. Desço para a Cidade do México já noite, aquele manto negro coberto de jóias. Tantas luzes acesas, tantas vidas às 22h45. Tanta esperança e dor e fiesta e luto. Tanta gente traída. Que vai morrer para que outros fiquem vivos. Que vai limpar para que outros sujem. Que vai abrir caminho para que outros passem. Outros, sempre muito poucos.”
Eis uma corroboração fascinante da qualidade e profissionalismo com que este trabalho foi encarado e executado: a autora identifica pessoas relevantes (jornalistas, fotógrafos, profissionais, artistas, escritores) com quem falar, ao longo do país, de norte a sul, para a ajudar a entender e narrar o país e registar os respectivos testemunhos; até onde li no livro de Paul Theroux, ele também se encontrou especificamente com Molly Molloy, Julián Cardona (mas não curiosamente com Charles Bowden), Juan Villoro (“my friend”) e Francisco Toledo (“El Maestro”). E os registos que resultam destes encontros são igualmente ricos e igualmente relevantes, talvez até com um melhor resultado no caso do livro vertente. Eu nunca apostaria nisto, mas é viver, ler e aprender… (e sem esquecer que foram as tais três se-ma-nas…)
A escrita é sempre tão prazerosa e viva quanto o destino; por exemplo: “Mal puxo a cadeira já há uma taça com pickles e chiles à minha frente, e um rapaz a perguntar o que vou tomar. Tomar não é tomar. É mesmo beber. Código da estrada: Se toma, no maneje. Manejar não é manejar. É mesmo conduzir.”
Haveria muito mais a dizer, mas não tenho mais tempo para o tema. Vão mais algumas citações, de entre tantas possíveis.
“Tudo isto fervilha na identidade que está a ser reavaliada este ano. Mas para quem aterra aqui, há o risco de a violência dominar a actualidade. «Não é um risco, domina mesmo», atalha Leonardo.”
“Não são precisos dias na Cidade do México para concluir isto: os mexicanos adoram conversar. Vamos a platicar, dizem eles, e então sabe-se como começa mas nunca se sabe quando acaba. No caso de César, é mais do que isso. É uma catarse melancólica.”
“Não há história na felicidade, essa é uma certeza deste autor. A felicidade é para ser vivida, e o resto é para ser escrito. Talvez isso explique a vitalidade cultural mexicana.”
“Há o medo, e uma espécie de desordem infantil. «Na cabeça dos mexicanos não há ordem, não há respeito à lei. Se pões aqui um bairro de holandeses, em dez anos organizam-se. Nós não.» A aparência em volta parece contrariar Gerardo. Um bairro limpo. Orquídeas frescas na mesa. Mas a desordem é como os subterrâneos de Tepito, que podem não se ver e estão lá. «Não sabes quem te protege. Aqueles que estão aqui para te proteger roubam-te. Mas estar alerta dá-nos energia.» Só estar no México é uma energia.”
Um belo livro para uma introdução ao México. Muita informação interessante, amalgamada de forma útil. Entrevistas, conversas, viagens... lê-se muito bem.
ALC does it again! Mais um grande livro, desta vez sobre o México que "dá vontade de chorar, um choro de séculos em que não percebemos porque choramos, se somos nós que choramos, se não seremos nós já eles". A autora relata a sua viagem ao serviço do Jornal Público em 2010 ao país. Em geral gostei muito de ler, confesso ter gostado mais do Vai Brasil, talvez por ter um pace mais constante.
Sobre este país, e este livro no qual tropecei dias antes de vir — mas muito a tempo para uma viagem pouco planeado por feitio — só tenho coisas boas a dizer. Queria que a Alexandra Lucas Coelho escrevesse um livro sobre cada sítio a que já fui e ainda irei.
(Rasteira providenciada por um interlúdio do Livros da “Pica”)
Uma viagem poderosa e apaixonante pelo México, a explorar a cultura, a violência, a política, a natureza, a história, o presente e futuro, e até, talvez, a alma. Alexandra Lucas Coelho volta a observar com a maior atenção, para produzir um relato fabuloso em que ficamos com vontade de lhe seguir as pisadas. Reeditado a tempo da minha mudança para a Cidade do México, fartei-me de marcar páginas de coisas a explorar nos próximos anos.
Mais uma leitura festivaleira (http://www.fmmsines.pt/pages/968?even...), que muito prazer me deu, assim como ouvir e falar com a sua autora. Viajamos com Alexandra Lucas Coelho por um mundo simultaneamente antigo e novo.Durante a leitura, especialmente da primeira parte, pareceu-me sempre o anjo da história nos acompanhava, pois quando o passado condiciona o presente, ambos são vivem no mesmo instante, e um influencia o outro. "No tempo europeu as construções vão-se somando, no tempo mexicano parecem existir em paralelo. Não há sequência,há simultaneidade. Somos nós a ligação entre elas"(p.92). Falta-nos um Viva Portugal, um Viva Brasil, um Viva Angola, um Viva Moçambique, um Viva Cabo-Verde, um Viva São Tomé e um Viva Timor. Talvez depois desta contemplação nós, portugueses, possamos também libertar-mo-nos e ver com outro olhar, um olhar mais activo e responsável (p.116). Quando ouvimos notícias sobre o México ninguém nos conta que em Ciudad Juarez os salários são baixos, com longas jornadas de trabalho, e que é mais rápido e fácil ser narcotraficante. E também vale tudo para fugir, para chegar a um local onde morrer não seja sempre tão natural como chover.Nesta cidade os vazios do poder, da saúde, da educação e da cultura foram preenchidos pelo tráfico. E então quem alimenta o tráfico? Não só os seus pobres consumidores (p.219). Em suma, o México é um país cheio de vitalidade.Mas facilmente os seus indígenas sobreviverão ao futuro incerto que aí vem do que nós. Afinal, estão a fazê-lo há 500anos, tal como os índios do Brasil.
"Viva México" é realmente um retrato poético de um país. Numa escrita apaixonante e poderosa, que nos transporta directamente para os locais e em que podemos sentir os cheiros, as cores, as gentes… sobretudo a alma das gentes!
Alexandra Lucas Coelho explora a história do México, a cultura, a política, o narcotráfico, mas sobretudo "as gentes". A alma mexicana, nesse mesclado de culturas, nessa miríade de cores, sabores e de cheiros.
Tocaram-me sobretudo os capítulos sobre Ciudad Juárez e o capítulo que descreve a chegada à casa de Frida Khalo e todas as conversas e descobertas que se seguem.
A vontade é a de meter a mochila às costas e percorrer estas trilhas, falar com todas estas pessoas, conhecer a "fundo" este(s) México(s).
Recomendo vivamente a leitura deste livro a todos os que ainda não o conhecem.
Entre o registo da literatura de viagens e o tom ficcional, por vezes poético, «Viva México» corresponde a um vívido relato da experiência da autora, Alexandra Lucas Coelho, no México, apresentando o percurso da Cidade do México, à Cidade Juarez, com passagem pelas montanhas de Chiapas e pela selva de Yatacan. Paisagens, pessoas, ambientes, mundos físicos, culturais, sociais também políticos e a ancestralidade de uma cultura em confronto com a contemporaneidade, são convocados para o texto, revelando-nos diferentes faces da realidade, pelo olhar inquisitivo, questionante, deslumbrado, também, da autora.
CDU: 821.134.3-992
Livro recomendado PNL2027 - 2019 1.º Sem. - Literatura - dos 12-14 anos - dos 15-18 anos - maiores 18 anos - Mediana - Fluente
Viva México é um livro que li devagar, absorvendo cada espaço, cada rosto e cada ambiente que a autora tão bem nos apresenta. Alexandra Lucas Coelho constrói uma narrativa rica e envolvente, transportando-nos para o coração do México com descrições vívidas e um olhar atento sobre a sua complexidade. Gostei muito da forma como a autora entrelaça contexto histórico e cultural sem perder a fluidez do texto. O leitor não apenas viaja fisicamente pelos lugares descritos, mas também atravessa camadas de história, política e identidade mexicana. É um livro que se sente, se vive e que, ao longo da leitura, nos aproxima de um México pulsante, cheio de contrastes e de histórias por contar. Fico cheio de inveja destas viagens..
México divino, indígena, o novo mundo. Um livro de viagem/reportagem ao México de Alexandra Lucas Coelho, em 2010. Como nos seus demais livros, reúne os seus testemunhos, conversas e histórias das pessoas com quem se cruza, de forma tão natural que é fácil ficar preso ao livro. A beleza, a fiesta, a violência, as cores, as pessoas…se eu já queria muito ir ao México, agora quero ainda mais. Curiosamente, não há sítio sobre o qual a Alexandra não escreva que eu não queria visitar. Recomendo muito.
A Alexandra Lucas Coelho relata as suas viagens como ninguém, do Brasil ao Líbano, do México à Palestina, do Afeganistão a Israel, é sempre entusiasmante e enriquecedor ler todos os seus livros. Há muito que queria ler o esgotadíssimo "Viva Mexico", que por sorte me veio parar às mãos enquanto deambulava por uma livraria! Bendito dia! E viva México!
Um livro surpreendente! Nunca imaginei ter lido agora na segunda vez e ficar outra vez muito emocionado pela visão da Alexandra sobre o meu México. É uma obra que vale a pena para conhecer este país que chora e não deixa de rir no mesmo tempo. Parabéns, Alexandra!
Em três semanas, a autora (obviamente com diversos contactos o que ajudou e muito) conseguiu ficar com uma ideia bastante abrangente sob várias perspectivas (histórica, cultural, sociológica, geográfica, económica) de um dos países que mais deve oferecer ao turista - o México. Neste livro são retratados importantes pontos por onde a autora passou, da Cidade do México a Mérida no sul, passando por Ciudad Juárez (a mais violenta cidade do mundo), Oaxaca, além de outras. Permite que fiquemos com uma ideia do México em 2010. Boa escrita. Mais um bom livro desta colecção de literatura de viagens da Tinta da China.
Excelente reportagem sobre um país que para mim era mesmo desconhecido. A jornalista aventura-se por um país que é muito violento, diverso, com diferentes culturas e por isso com muita riqueza do povo. Alguns capítulos são muito violentos, mas são a realidade como em ciudad Juarez, outros fazem-nos pensar no caminho que o mundo toma ao ler sobre o drama da emigração e da droga. Consegue fazer um retrato de um país que fiquei a admirar e a querer conhecer mais sobre a sua cultura. Por linhas tortasm há-de saír aqui uma potência mundial.
Um livro excelente. Uma viagem de três semanas pelo México, que não é apenas um. Assim, descobrimos um México, e muitas das suas culturas. O México das heranças maias e aztecas, e o México actual, que conjuga tudo.