Numa prosa poética arrebatadora, Edimilson de Almeida Pereira narra neste romance a trajetória de um homem que se constitui a partir dos escombros de uma cidade hostil e monta, peça por peça, o mosaico da sua subjetividade com os estilhaços de uma vivência de violência, abandono e desigualdade.
Edimilson de Almeida Pereira nasceu em Juiz de Fora, MG, em 1963. É poeta, ensaísta e professor de Literatura Portuguesa e Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora. Possui uma obra extensa e múltipla, com publicações nas áreas de poesia, literatura infanto-juvenil e ensaio, na qual se destacam: Zeosório blues (2002), Lugares ares (2003), Casa da palavra (2003) e As coisas arcas (2003), Relva (2015), maginot, o (2015) e Guelras (2016) - poesia; Os reizinhos de Congo (2004) e O primeiro menino (2013) - infanto-juvenil; Malungos na escola: questões sobre culturas afrodescendentes e educação (2007) e Entre Orfe(x)u e Exunouveau: análise de uma estética de base afrodiaspórica na literatura brasileira (2017) - ensaio.
“O sol nunca se cansa de nascer, mas o homem pode se cansar de estar sob o sol.” (Simone Schwarz-Bart)
Edmilson de Almeida Pereira, uma das principais vozes da poesia brasileira contemporânea, inovou na sua estreia como romancista. Entre novembro e dezembro de 2020, ele publicou três romances – O Ausente, Um Corpo À Deriva e Front – por três editoras diferentes, no caso, Relicário, Marcando Edições e Nós.
Coincidência ou não, chama a atenção como cada livro identifica-se com o respectivo selo e, a despeito desse aspecto, eles fazem parte de uma trilogia intitulada Náusea, que relata três experiências catárticas, sendo mais explícita, três experiências em que a autorreflexão antecede uma tomada de atitude por parte do protagonista de cada história.
Front, o último titulo lançado, foi o vencedor do Premio São Paulo de Literatura 2021 e reúne dezesseis capítulos escritos sem um encadeamento lógico aparente, isto é, que não seguem o fluxo do raciocínio linear. O resultado é um texto que atende critérios complexos, ao mesclar ficção, ensaio e prosa poética, a bem da verdade, difícil de classificar.
Inserindo o papel da memória como inextricável para a compreensão do presente, o livro tem como narrador um protagonista que se recusa a ser nomeado, mas afirma que “fúria poderia ser o seu nome de batismo”. Singularmente, ele assume ser um “homem-árvore”, “que olha o mundo para dimensões impensadas” a partir da periferia onde cresceu e ainda reside. Um local cuja a a origem remonta “a um amontoado de móveis e equipamentos eletrônicos” semelhantes ao “sítio de uma civilização perdida”.
É nesse espaço geográfico que se circunscreve a trama, enquanto a personagem aguarda durante aproximadamente três horas a vez de pagar as contas: “A fila à porta da casa de jogos não anda. O sol arde, são dez horas da manhã e nenhum de nós tirou a sorte grande. Um táxi passa com toalhas presas às janelas. …Outro táxi freia rasgando o meio-fio. Alguém desce, a temperatura sobe: o sol esparge ainda mais o que escondemos. Estamos úmidos, nus. Há quanto tempo não adianto um passo na fila?”
Por outro lado, o tempo psicológico – ligado às lembranças, reflexões e sentimentos – possui um sentido subjetivo e perambula da infância ao presente, apresentando amigos do “homem-arvore” e moradores do local, expondo seu gosto pela leitura e, sobretudo, registrando a corriqueira violência das forças um Estado arbitrário e violento contra as minorias. Minorias que possuem na linguagem seu agente transformador, ou melhor, de posse dos insatisfeitos, ela é a melhor maneira para acionar a alavanca da mudança – e também da revolta – para além do “monturo”.
“A primeira regra do homem-árvore é desejar. A segunda é falar sobre a cerca de arame à volta do desejo. A terceira, viver – apesar de – o desejo. As regras só têm sentido se o pensamento se aproximar das coisas que se lançam. O homem-árvore fala quando balança. Quando se enraíza fala para dentro. Se o vento sopra suas costas, é para fora que ele fala. …Toda condição é propícia para o homem-árvore falar. Não se entenda falar como ferramenta para recortar e montar. Há outra ordem quando o homem-árvore fala: é uma urdidura, um desmanche do debrum.” (Página 40)
Portanto, se “front é a linha de frente”, não é por acaso que Front é uma obra de “conFRONTo”, apoteótica como sina e/ou solução: “No passado, tia Edite tirava uma carta ao acaso e comentava: “Cada um aprenda por si o desespero. Não há nada sob o teto e a mão que aponta o futuro está podre”. Nunca soube a quem ela se referia. No entanto, a falta de algo em casa indicava que ela estava certa: alguém apodreceu nosso futuro. Aprender por si era descobrir a palavra que afronta. “Dam, dam, damarifa”, Tia Edite exclamava quando alguém morria. Não importa se hoje a língua de casa não decifra essas palavras. A língua é sempre outra, se outra é a pessoa. O que sabemos? A língua veloz está solta no mercado e muda o centro da cidade – ela demove a língua de quem manda na moeda, mas jamais entenderá quem gira ao som do logus “dam, dam, damarifa due”, me façam sumir e eu reapareço “dam, dam, damarifa due”, tirem meus sapatos e voarei em suas gargantas, “dam, dam, damarifa due a quem a morte observa? a quem?”. – ? Você não entendeu? Eu diria que não é dos nossos. Mas há gente nossa que também não entende.”
“Dam, dam, damarifa due” é a senha para adentrar em Front, um fragmento de um poema, intitulado Tano em espanhol, extraído do livro Masks, de Edward Kamau Brathwaite, que trata da reconexão física e espiritual com a África. Em especial, se lido em voz alta, o trecho – dam, dam, …, due – reproduz o som do tam tam, instrumento usado pelo povo Akan nos rituais de morte, um povo que está concentrado no sul de Gana e sua língua, twi, é a mais falada depois do inglês no país. Aliás, no original, esse poema foi quase inteiramente escrito em twi.
Concluída a leitura, sugiro emendar Front com a canção Caravanas, de Chico Buarque, e o romance O Canto de Solomon, de Toni Morrison, que aborda a lenda dos homens voadores, levada pelos africanos escravizados para os Estados Unidos. Surpreenda-se!
Abrir um livro e descobrir uma nova língua é uma experiência interessante. Descobrir que você compreende a língua é fantástico. Até o final desse curto livro você também começa a pensar numa lógica de derivação e desconstrução e reformulação de frases, tempos. Bacana. Quem sabe chego também nos outros dois (dessa suposta trilogia), para explorar ainda mais tudo isso.
Em tese o último livro da trilogia lançada por Edimilson de Almeida Pereira, esse se afasta do cenário rural de O Ausente e abraça uma perspectiva urbana, um livro mais contaminado pela experiência de viver em uma cidade com problemas contemporâneos. Uma das preocupações do livro, expressada pela voz em primeira pessoa, é o de narrar a experiência negra fora de clichês de violência. Há uma luta sendo feita no livro em torno da fuga disso que se tornou um cruel lugar comum com implicações sociais óbvias, mas também estéticas. É uma guerra pela representação que é inexoravelmente uma luta pela transformação política. O livro é montado a partir de colagens de frases e parágrafos, assim como o livro achado no monturo, lixão frequentado pelos meninos. Esse livro colagem funciona como um artefato que representa a literatura contemporânea e também a arte feita por Edimilson, uma espécie de teoria estética colocada em prática pelos personagens. A narrativa segue um fluxo contínuo, mas é a obra mais acabada e dinâmica da trilogia lançada simultaneamente pelo autor, parece apontar para um ponto de realização estética mais seguro. Front é um livro/grito de afirmação, uma obra disposta a se construir a partir do ouvido, da captura de vozes múltiplas que são parte do tecido urbano. O dinheiro, a economia e a pressão psicológica e social que ela acarreta, as intermináveis filas da vida do brasileiro, tudo isso se incorpora à linguagem, formando a imagem de um Brasil que precisa ser demolido urgentemente.
Unfortunately, this book is not for me. I like my stories to be stories, and not just beautiful sentences put together with no apparent sense. Perhaps I'm just too simple for this kind of sophisticated literature, but I could not finish this "Man-tree".