Escrever crônicas é, muitas vezes, trazer o leitor para dentro da sua casa. Nessa incessante busca pelo cotidiano que, na maioria das vezes, caracteriza a escrita da crônica, parece um movimento perfeitamente natural que o escritor se volte ao que encontra na sua própria residência (nada seria mais cotidiano do que isso).
E se, por sorte, o escritor ainda tiver uma criança em casa? Isso facilita bastante o seu trabalho de encontrar temas para as crônicas, considerando que as crianças geralmente fazem com muita naturalidade aquilo que o próprio cronista almeja, ou seja, subverter as visões de mundo dominantes e oferecer algo totalmente original.
Leo Aversa também teve em casa uma criança (hoje já crescida) e, mais do que isso, transformou sua própria situação na dinâmica doméstica no tema de seu livro de crônicas, chamado de “Crônicas de pai” (Intrínseca, 2021). Seu objetivo com o livro, porém, parece não ter sido só juntar algumas divertidas histórias caseiras.
A relação da crônica com o tempo é nítida desde a época em que o gênero consistia em um relato sequencial de eventos históricos. Quando se transformou, na França, em um gênero voltado aos acontecimentos da cidade, havia igualmente o vínculo com tempo, manifestado pela própria periodicidade do jornal que o publicava.
Por muito tempo, inclusive, prevaleceu a ideia de que o texto da crônica envelhecia junto do restante do jornal, não tendo, portanto, mais que um interesse passageiro. Já no século 20, críticos como Tristão de Athayde e Massaud Moisés não achavam que um livro de crônica fizesse sentido, pois já nasceria totalmente envelhecido.
Toda essa reflexão foi feita para dizer que o objetivo de Leo Aversa com seu livro de crônicas é justamente o oposto, ou seja, o da permanência. Suas crônicas foram escritas e reunidas em livro precisamente para vencer a passagem do tempo. É que Leo quer registrar o que viveu com o filho para que, um dia, ele conheça as histórias.
Sua crônica, portanto, é inicialmente antídoto contra o apagamento da memória, o que se torna ainda mais relevante por sabermos que de fato perdemos muitas das lembranças do tempo de pequenos, justamente as que tendem ser mais agradáveis para a gente. Eis que a crônica moderna, de repente, também é registro histórico.
Deve haver nisso, também, uma relação com a fotografia (Leo Aversa é fotógrafo). A crônica talvez possa ser considerada igualmente uma espécie de instantâneo, por meio do qual os afetos permanecem. O interessante é que, se um fotógrafo apela à crônica, talvez as imagens não necessariamente valham mais que mil palavras.
Enquanto busca fixar o tempo, o cronista, inevitavelmente, compara a sua própria época com a do filho. Os conflitos decorrentes das diferenças geracionais estão entre as melhores possibilidades na crônica de pais e filhos. Algumas coisas são realmente melhores hoje (o cronista cita o bullying, felizmente não mais aceito).
Há, pois, as memórias do próprio Leo quando criança, confrontadas com as que está construindo com seu filho. Em um movimento muito natural, o filho olha para frente, e o pai olha no retrovisor. Há reflexões variadas sobre aquilo que se perde com o crescimento, mas também aquilo que se mantém apesar do tempo.
Chega-se ao período da adolescência, quando o pai deixa de ser o herói do filho e se torna, como diz o cronista, um zé-ruela. Mas é sempre com afeto que Leo olha para essa relação, sabendo que também não pode impedir a frustração dos filhos (o que ele também tematiza, assim como os pais que tentam terceirizar a criação).
Também é muito significativo que, além de falar do filho, Leo use essas crônicas para falar do pai, diagnosticado com Alzheimer. De certa forma, o que ele faz com esses textos é juntar as pontas da vida, enquanto tenta captar alguns instantes de beleza e aproveitar o que existe de bom antes que o tempo passe e tudo se perca.
Tudo isso é narrado em meio a episódios simples do dia a dia (o próprio cronista brinca que é o “Capitão Cotidiano”, um super-herói doméstico), normalmente com tom de autoironia, pois uma das graças da crônica é quando o cronista se dá mal. Certas frases ou desfechos podem parecer “fáceis”, mas a leitura é muito válida.