Muito mais uma experiência pessoal que uma resenha do livro, então esteja avisado aqui.
Essa (re-)leitura foi uma experiência interessante. Como alguns sabem, me aproximei do marxismo aos 16 anos, tendo me alinhado à orientação leninista desde então, apenas no último ano tendo me afastado dela. Em 2019, ao entrar na universidade, integrei por um breve período um movimento de orientação maoísta. Deixar o movimento não me afastou completamente do maoísmo, mas me fez questionar muitas questões bem estabelecidas para mim. Com a elaboração da minha pesquisa acadêmica (sobre a China) nas férias do fim de 2019/início de 2020, me confrontei com uma série de problemas em relação à minha leitura sobre a China.
A quarentena (acompanhada dos vários grupos de estudo e leituras à parte, em ritmo intenso) me fez me aprofundar bastante na leitura de Marx e marxistas. Minha 'virada althusseriana' em meados de 2020, seguida das leituras de Deleuze, me levaram a repensar o próprio leninismo. Atualmente não tenho uma posição bem definida, apenas um conjunto de influências teóricas e orientações de prática: Deleuze, Althusser, Marx, Spinoza, Bataille, Nietzsche, Adorno, Poulantzas, Debord, Fisher, Derrida, Jappe, Land, Hui. Já estou relativamente distante da minha posição maoísta anterior. Se sobra algum maoísmo em meu pensamento político, talvez a linha anti-hierárquica e espontaneísta dos franceses da Gauche Prolétarienne.
Foi uma leitura ótima por confrontar o Bernardo de 2019 com o Bernardo de 2021, reafirmando problemas que já tinha encontrado nos últimos tempos e me levado tanto ao afastamento do leninismo quanto do maoísmo. Se há algo bom e aproveitável em Mao (a linha de massas, a prática da crítica e autocrítica, sobre os aspectos políticos e organizacionais da guerra e a teoria das contradições - que tomará um rumo interessante em Althusser), há sem dúvidas problemas grandes (determinismo histórico, ambiguidade em relação ao Estado, paranóia disciplinar, uma noção problemática de 'povo', fraca teoria do conhecimento e forte dogmatismo em relação à teoria marxista, apesar de dito o contrário).
De qualquer modo, uma leitura importantíssima, concordando ou não com Mao.