Caio Fernando Abreu escreveu uma infinidade de cartas. Da carta à crônica, desta à ficção e ao teatro, traçou a poética do existir de toda uma geração. Este volume reúne uma seleção de sua correspondência para familiares, amigos íntimos, como Luciano Alabarse, Gilberto Gawronski, Marcos Breda, José Márcio Penido, Déa Martins, Luiz Arthur Nunes, Maria Lídia Magliani, Jacqueline Cantore, e escritores e artistas queridos, como Maria Adelaide Amaral, Adriana Calcanhotto, Regina Duarte, Bruna Lombardi, Mário Prata, Hilda Hilst e João Silvério Trevisan, entre outros.
Caio Fernando Loureiro de Abreu nasceu no dia 12 de setembro de 1948, em Santiago, no Rio Grande do Sul. Jovem ainda mudou-se para Porto Alegre onde publicou seus primeiros contos. Cursou Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, depois Artes Dramáticas, mas abandonou ambos para dedicar-se ao trabalho jornalístico no Centro e Sul do país, em revistas como Pop, Nova, Veja e Manchete, foi editor de Leia Livros e colaborou nos jornais Correio do Povo, Zero Hora, O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo.
No ano de 1968 — em plena ditadura militar — foi perseguido pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), tendo se refugiado no sítio da escritora e amiga Hilda Hilst, na periferia de Campinas, São Paulo.
Considerado um dos principais contistas do Brasil, sua ficção se desenvolveu acima dos convencionalismos de qualquer ordem, evidenciando uma temática própria, juntamente com uma linguagem fora dos padrões normais.
Em 1973, querendo deixar tudo para trás, viajou para a Europa. Primeiro andou pela Espanha, transferiu-se para Estocolmo, depois Amsterdã, Londres — onde escreveu Ovelhas Negras — e Paris. Retornou a Porto Alegre em fins de 1974, sem parecer caber mais na rotina do Brasil dos militares: tinha os cabelos pintados de vermelho, usava brincos imensos nas duas orelhas e se vestia com batas de veludo cobertas de pequenos espelhos. Assim andava calmamente pela Rua da Praia, centro nervoso da capital gaúcha.
Em 1983 transferiu-se para o Rio de Janeiro e em 1985 passou a residir novamente em São Paulo. Volta à França em 1994, a convite da Casa dos Escritores Estrangeiros. Lá escreveu Bien Loin de Marienbad.
Ao saber-se portador do vírus da AIDS, em setembro de 1994, Caio Fernando Abreu retorna a Porto Alegre, onde volta a viver com seus pais. Põe-se a cuidar de roseiras, encontrando um sentido mais delicado para a vida. Foi internado no Hospital Menino Deus, onde posteriormente veio à falecer.
Foi uma leitura demorada por que eu quis que fosse assim, queria saborear cada palavra e pensamento de um dos maiores autores da contracultura brasileira nos anos 70-90: Caio Fernando Abreu.
Esse livro conta a história do Caio, contada por ele, para os amigos e familiares, através de cartas. A gente consegue acompanhar como nasceram as principais narrativas dele: Morangos Mofados, Dulce Veiga, e o primeiro: Limite Branco.
Esse livro me fez sentir próxima do Caio, como uma amiga que tivesse lendo as cartas dele que chegaram do correio pela manhã, muitas vezes quis respondê-las, principalmente nas que parecia estar bem angustiado com a vida. É sempre muito bom poder conhecer um artista além da obra, entender os questionamentos, inseguranças, amores, desavenças, tudo que atravessa uma pessoa e faz dela real.
Esse é um daqueles livros que a gente lê pra aprender sobre a vida, tudo que o Caio escreveu nessas cartas são de um ensinamento e uma poesia, a gente entende a genialidade por trás do mestre da solidão brasileira. Eu quero muito conhecer as outras obras do Caio, agora que eu sei tudo que teve por trás da criação da maior parte delas, tudo se tornou mais interessante ainda.
Já recomendei esse livro muitas vezes e recomendo muitas mais, um dos meus favoritos da vida!
É sempre um enorme prazer ler Kyle. Um dos melhores 'escrevinhadores' de cartas do Brazew. Segundo ele: "Escrevendo, eu falo pra caralho, não é?"
Queria falar muito deste epistolar, mas te tiraria o prazer de lê-lo, porque teria muito spoiler. Recomendo-o a quem tem interesse na geraçao dos anos 70/80, hippies, homossexualidade, astrologia, orixas, espiritualidade alternativa, comida macrobiotica, sexo, drogas e rock and roll, politica (no caso, ditadura e censura),experiência no exterior, contatos com escritorxs fodas, AIDS, etc. Ele menciona muita musica ou cantorxs em suas obras, como sou muito sensorial, preciso escuta-las enquanto leio. Sendo assim, criei uma lista no Spotify chamada Para Caio F., com as musicas citadas em três livros: Cartas, Morangos Mofados e Ovelhas Negras.
me senti amiga pessoal de caio f. todo dia antes de dormir pegava o livro pra ler suas cartas e assim por vários dias... terminei agora, já com saudade caio, como foi bonito te ler
"Mas gosto de perceber que as dores são cada vez mais rapidamente superadas."
"Os caminhos são individuais/intransferíveis."
“Fiquei ali parado, procurando alguma coisa que não estava nem esteve ou estaria jamais ali”
"Dá vontade de amar. De amar de um jeito “certo”, que a gente não tem a menor idéia de qual poderia ser, se é que existe um."
"De qualquer forma, às cegas, às tontas, tenho feito o que acredito, do jeito talvez torto que sei fazer."
"A solidão às vezes é tão nítida como uma companhia."
"Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas. Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, de não sufocar: de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. Ser novo."
"Você não pode imaginar (ou pode?) o que é uma solidão de inverno numa terra estrangeira."
"Que coisa maluca a distancia, a memória.Como um filtro, um filtro seletivo, vão ficando apenas as coisas e as pessoas que realmente contam."
"E tudo por aqui, na verdade, vai bem. Pulo os poços, quando pintam — e como pintam! Mas não vou abrir mão de um pouco de alegria."
"E é maravilhoso ver que Tudo Que Sempre Quis é simples, belo, acessível, fácil, do bem."
Ler Caio sempre me tira do lugar. E a experiência de reler suas cartas foi de conhecê-lo de perto, como quem viveu suas dores e seus amores lado ao lado com um homem que viveu pela palavra. Eu não exagero se digo que Caio escrevia para viver. Era necessário. Essas palavras não são minhas, são dele. Por diversas vezes, suas cartas dizem “descobri que a literatura é o que eu mais gosto” - e eu gosto de como essa descoberta se repete. Um livro cheio de verdades dolorosas, de São Paulo, Porto Alegre, Londres, Paris… cidades que tiveram suas janelas escancaradas pelas cartas.
sei lá queria comer algumas partes desse livro e queimar outras.
não entendia a dimensão da mídia "carta" até ler esse livro. alguém comentou que caio é o maior escritor de cartas do Brasil, e concordo; acho que ninguém escreveu tantas quanto ele rs.........livro longo quase me matou me comoveu e me revirou e me abriu os olhos e me cegou; me ceguei voluntariamente em algumas partes, principalmente nas descrições meio "fortes", pra ser educada, de corpos negros e outros.
foi leitura obrigatória pra mim, ainda mais por me interessar pelo âmbito da comunicação e pessoas e sentimentos e conexões. além do fato de que as ideias e jeito de caio de enxergar e enfrentar o processo criativo - e o que vem depois - foram uma fonte de água clarinha limpinha para o meu eu criativo sedento e em crise de abastecimento.
não consegui ignorar o gosto amargo que ficou na boca durante toda a leitura, talvez pelo jeito místico de caio que parecia prever e anunciar sua tragédia futura. saber disso me deixou ainda mais sensibilizada e vulnerável durante a leitura, e mais aberta também. conscientemente querendo ser atingida por todos os sentimentos que ele, talvez inconscientemente, passava.
é um estudo de caso sobre um ser humano, ou vários, por isso aviso com certeza que é preciso estar aberto para esse livro, da mesma forma que precisamos estar abertos para conhecer e entender outras pessoas. caso contrário, vai largar muito antes da metade.
acho que a ação final depois de terminar esse livro é nunca mais abrir, ou reler em momentos diferentes da vida. pra sempre. 5/5 ⭐️ e uma delas é o autor
sobre as cartas do Caio: li com gosto, li com vagar. que bom é ter o gostinho de uma pessoa de carne e osso, de doçura e de 'nagices'. da pessoa que era a fina flor da contradição, um interessante místico-mistério.
fiz até uma lista dos filmes que ele cita ao longo do livro. a quem interessar: caio-queer (https://boxd.it/x7bYo)
"E ler, ler é alimento de quem escreve. Várias vezes você me disse que não conseguia mais ler. Que não gostava mais de ler. Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite"
Eu amo Caio! Ao ler essas cartas tenho a impressão de estar próxima dele, é como se as cartas fossem para mim... Sinto-me uma amiga, confidente... Triste perceber que uma pessoa tão maravilhosa como ele, que teve a capacidade de escrever coisas tão perfeitas, na maioria das vezes se sentia sozinho e perdido. Queria lhe dar um abraço.