sigo com o grande projeto de reencontrar caio.
como em todo começo de inverno, mais uma vez nesse ano, lembrei de Pela Noite, a novela mais longa do triângulo das águas e a que ao longo do tempo mais se fez presente em minha lembrança. a diferença é que nas outras vezes que lembrei desse texto, reli trechos dele ou ele inteiro, mas nunca havia revisitado todo o livro (com suas três novelas para os três signos de água). nesse ano resolvi reler tudo.
caio não perdeu sua força para mim, pelo contrário, algumas imagens que eram turvas quando li na adolescência agora se mostraram mais claras. O Marinheiro, conto do meio do livro, do qual nem gostava tanto quando li pela primeira vez, que simboliza o signo de escorpião, dessa vez me atingiu em cheio. acho que só o tempo me deu a chave para compreender e me colocar nessa história - a perda, reencontro, espera, desmemória do Outro que amamos é algo que não tem explicação fora do viver, e eu ainda não tinha vivido.
Dodeaceadro é a novela que, agora, me parece mais distante de mim. gosto muito dela e de sua desordenada loucura e da sua polifonia (a voz dos 12 e a 13 voz que é do autor também), mas me sinto mais próximo dos outros textos.
Pela Noite (de câncer, minha lua) nunca deixou de ser meu conto favorito de caio. me sinto nele, tanto em Pérsio como Santiago, os dois que varam a noite da cidade grande a procura de tudo e de nada e de um ao outro. gosto de perceber como evolui a relação com esses dois que tenho, o tanto que Pérsio me parece mais irritante com o passar do tempo e o tanto que Santiago passa a fazer mais sentido com suas longas pausas e seu silêncio para quase tudo.
fica sempre (sempre) comigo essa passagem, acho que já está constitui parte do meu ser, ela me volta toda vez que sinto o desamparo da grande cidade ou a saudade de algo que não pode mais ser:
- Eu sei, mas dá. Às vezes dá uma distância. Eu penso coisas banais, eu sinto coisas banais. Mas tão nítidas. Quando estou dando aula, quando digo a eles para copiarem ou fazerem qualquer coisa em silêncio, fico olhando aquela porção de cabeças baixas e pensando que tem um abismo entre a gente. Um abismo de tempo, de história. Que as coisas andaram muito rápidas. Que eles não têm tempo. Que tudo acabou. E eu sinto pena, então. Como os velhos, os bem velhos, devem ter pena dos moços. Que a gente tem a cabeça cheia de versos e filmes e livros e histórias e memórias que para eles já não têm nada a ver. Peças de museu, nossas emoções. Todas as emoções.
- Pior para eles.
- Ou para nós, que estamos ficando velhos?
Pérsio fez uma mudança rápida:
- Velhos? Imagina, eu não. Por favor, me exclua desse seu grilo. Estou na flor da idade. Na força da juventude. Mal comecei, mal comecei a me desembaraçar de toda a culpa. Quero mais, quero o que ainda não veio.
- Mas tantas memórias. A gente tem tantas memórias. Eu fico pensando se o mais difícil no tempo que passa não será exatamente isso. O acúmulo de memórias, a montanha de lembranças que você vai juntando por dentro. De repente o presente, qualquer coisa presente. Uma rua, por exemplo. Há pouco, quando você passou perto de Pinheiros eu olhei e pensei: eu já morei ali com o Beto. E a rua não é mais a mesma, demoliram o edifício. As ruas vão mudando, os edifícios vão sendo destruídos. Mas continuam inteiros dentro de você. Chega um tempo, eu acho, que você vai olhar em volta sem conseguir reconhecer nada.