Um dos ficcionistas mais brilhantes da literatura brasileira contemporânea, Caio Fernando Abreu deixou um universo grandioso de contos, novelas e romances, além de sua essencial correspondência com outras mentes artísticas. Com a mesma paixão que imprimiu a toda a sua obra, trabalhou também o texto teatral, diretamente para o palco, que reverenciava: assistia a todas as peças, conhecia bem a classe teatral, estudava e explorava as possibilidades daquele meio. A dedicação de Caio pelo teatro o transformou em mais que mero aficionado: tornou-se um homem de teatro – e, inclusive, um bom ator, conforme lembram colegas, como o diretor Luís Artur Nunes, responsável por esta edição junto ao ator Marcos Breda.
“Este livro é filho de uma peça de teatro. Nasceu do processo de produção de O homem e a mancha, último texto teatral de Caio, escrito exatos dois anos antes de seu falecimento”, explica Breda na apresentação do livro. Nesta edição, as oito peças aparecem na ordem cronológica de suas estréias e acompanhadas de suas respectivas fichas técnicas e de fotos das montagens. Nas peças, encontramos um autor cosmopolita, abertamente hilário ao mesclar profano e sagrado em diálogos que poderiam se passar numa festa de fim-de-mundo, lírico ao manipular os limites entre acontecimentos cotidianos e o puro sonho lisérgico que permeia toda a sua obra.
Agora, doze anos após a estréia de O Homem e a Mancha no Theatro São Pedro, em Porto Alegre, o teatro de Caio Fernando Abreu ganha uma publicação esmerada, minuciosa, cuidadosa. Longa vida ao teatro (agora sim, completo) de Caio Fernando Abreu.
Caio Fernando Loureiro de Abreu nasceu no dia 12 de setembro de 1948, em Santiago, no Rio Grande do Sul. Jovem ainda mudou-se para Porto Alegre onde publicou seus primeiros contos. Cursou Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, depois Artes Dramáticas, mas abandonou ambos para dedicar-se ao trabalho jornalístico no Centro e Sul do país, em revistas como Pop, Nova, Veja e Manchete, foi editor de Leia Livros e colaborou nos jornais Correio do Povo, Zero Hora, O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo.
No ano de 1968 — em plena ditadura militar — foi perseguido pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), tendo se refugiado no sítio da escritora e amiga Hilda Hilst, na periferia de Campinas, São Paulo.
Considerado um dos principais contistas do Brasil, sua ficção se desenvolveu acima dos convencionalismos de qualquer ordem, evidenciando uma temática própria, juntamente com uma linguagem fora dos padrões normais.
Em 1973, querendo deixar tudo para trás, viajou para a Europa. Primeiro andou pela Espanha, transferiu-se para Estocolmo, depois Amsterdã, Londres — onde escreveu Ovelhas Negras — e Paris. Retornou a Porto Alegre em fins de 1974, sem parecer caber mais na rotina do Brasil dos militares: tinha os cabelos pintados de vermelho, usava brincos imensos nas duas orelhas e se vestia com batas de veludo cobertas de pequenos espelhos. Assim andava calmamente pela Rua da Praia, centro nervoso da capital gaúcha.
Em 1983 transferiu-se para o Rio de Janeiro e em 1985 passou a residir novamente em São Paulo. Volta à França em 1994, a convite da Casa dos Escritores Estrangeiros. Lá escreveu Bien Loin de Marienbad.
Ao saber-se portador do vírus da AIDS, em setembro de 1994, Caio Fernando Abreu retorna a Porto Alegre, onde volta a viver com seus pais. Põe-se a cuidar de roseiras, encontrando um sentido mais delicado para a vida. Foi internado no Hospital Menino Deus, onde posteriormente veio à falecer.