"Mário Cesariny deixou aqui, em versão revista e aumentada, a suas impressões pessoais sobre Fernando Pessoa (o Virgem Negra) e a sua poesia. O escritor constrói assim uma biografia explicativa deste poeta do Orpheu: a sua obra, de Mensagem a Poemas Ingleses, os poetas que admirava, a teoria da heteronímia e a inspiração em Aristóteles e Platão, entre outros. Satíricos na medida certa, são versos que brincam com as palavras em português, aventurando-se por vezes pelo espanhol e pelo inglês. Uma forma interessante de ver Fernando Pessoa através de olhos mais irreverentes."
One of the greatest portuguese poets and painters. A convict surrealist who introduced the Cadavre Exquis in Portugal, also known for being an excentric and bohemian artist. In France Cesariny met André Breton and founded the group "Os Surrealistas" with other portuguese artists such as António Maria Lisboa, Risques Pereira, Artur do Cruzeiro Seixas, Pedro Oom, Fernando José Francisco and Mário Henrique Leiria.
This work has two very different parts: one, more sleazy, I would even say pornographic; another, more philosophical and existential, with the publication of fantasy letters between various authors, including Fernando Pessoa.
Lido no contexto da disciplina de "estudos pessoanos" esta obra torna-se mais hilária. Cesariny expõe, da melhor forma possível, as suas considerações sobre o poeta em palavras de gozo e ideias curiosas. Recordemo-nos da insolência do surrealista e como ela pode trazer as melhores imagens da poesia pessoana, desmistificar este poeta incorpóreo e colocá-lo ao nível de todos nós, poetas, homens. É bom ler um autor brilhante que escarnece noutro autor brilhante. Vemos o Pessoa assexuado e o "tão-citado" a silenciar-se, vemos o génio a ser desmantelado, lentamente, naquilo que é. E isso, para alguém com humores esquisitos, é só encantador.
Fernando Pinto Amaral (in "Colóquio/Letras") resume supremamente esta obra singular de Cesariny: “Conseguir surpreender-nos sempre foi uma característica da poesia de Mário Cesariny de Vasconcelos. Com ele aprendemos a esperar o inesperado, fugindo das mais previsíveis cristalizações do sentido e abrindo-nos à voracidade das perguntas que transformam em estranha vertigem cada nova leitura dos seus textos. (…) No caso presente, o horizonte define-se a partir do próprio título da obra (…) cuja intenção jocosa não oferece dúvidas. (…) O programa consiste em revisitar Pessoa, não só através de algums poemas engenhosamente reescritos, como também graças a outros de origem não directamente pessoana, mas nos quais o sujeito é o poeta da ‘Mensagem’. (…) Ao definir-se como ‘Eu o mim de mim expulso’, este Pessoa foge a classificações preconcebidas em que às vezes há quem deseje encaixar o poeta, e que leitores mais apressados poderiam concluir, por exemplo, da abertura de um muito singular poema: ‘Alheio ao céu e à luz / De Seth e de Rimbaud / No Antinoo depus / O paneleiro que sou.’ Perante versos tão claros como estes, dir-se-á estarmos em face de uma explicação de Pessoa pela via da homossexualidade. Ora, se isso é, pelo menos em parte, verdadeiro, não pode um livro como ‘O Virgem Negra’ ver-se resumido a tal intenção, por ser mais amplo o fôlego que anima Cesariny: é que o poeta procura fazer luz sobre todo o cosmos pulsional de Pessoa, nunca perdendo de vista um erotismo cuja expressão é activamente interpelada em cada texto – mesmo quando pareça muda, contraditória, demasiado subtil ou simplesmente incompreensível.” (ou usando a ironia do próprio Cesariny: "Isso eu quiz dizer naquele verso louco que tenho ao pé: / «O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é» / Verso que, como sempre, terá ficado por perceber (por mim até).")
Dois exemplos (extremos) da intertextualidade com Pessoa em "O Virgem Negra": "Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada! / Supor o que dirá / Tua boca velada / É ouvir-te já. // É ouvir-te melhor / Do que o dirias. / O que és não vem à flor / Das caras e dos dias. // Tu és melhor - muito melhor! - / Do que tu. Não digas nada. Sê / Alma do corpo nu / Que do espelho se vê." "O Álvaro gosta muito de levar no cu / O Alberto nem por isso / O Ricardo dá-lhe mais para ir / O Fernando emociona-se e não consegue acabar. // O Campos / Em podendo fazia-o mais de uma vez por dia / Ficavam-lhe os olhos brancos / E não falava, mordia. O Alberto / É mais por causa da fotografia / Das árvores altas nos montes perto / Quando passam rapazes / O que nem sempre sucedia. // (...)"
“tenho a absoluta certeza de que estive sempre doido, durante toda a minha vida” ~ “não tem a certeza absoluta de nada, sequer se esteve ou não doido toda a sua vida ou só em partes alíquotas dela”
"Dizem que sou um chão De rodas de veículos, Dizem que é assim mas não, Eu simplesmente são Com a imaginação. Nunca uso testículos.
Tudo o que para que tendo - O que me sobe, exata, A roda do infinito - É como um grande membro Que n'ata nem desata E o próprio sopro mata Ao guarda de plantão E isso é que eu acho bonito
Para meter em verso E em psiquiatria A trouxa do universo E da sua gentia, À qual não sou adverso, Nem converso, dizia.
Por isso conto o meio Do que não teve pé. Livre de jaça ou esteio, Cheio do que não é. Não são pombo-correio. Colhões tenha quem lê."